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	<title>podcast &#8211; ELLE Brasil</title>
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	<description>A moda, só que diferente</description>
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	<title>podcast &#8211; ELLE Brasil</title>
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		<title>OCIMAR VERSOLATO DO AVESSO: PÁGINAS OCULTAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Monteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Jan 2026 13:42:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[ocimar versolato]]></category>
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		<category><![CDATA[podcast ocimar versolato do avesso]]></category>
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					<description><![CDATA[A sociedade mais polêmica e turbulenta de sua carreira; o desenvolvimento de uma linha de beleza e de um carro próprio; o fim de uma vida intensa; e os motivos de uma trajetória praticamente esquecida pela moda brasileira.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe style="border-radius: 12px;" src="https://open.spotify.com/embed/episode/1KkWOB17h0YwoEZgNAXvYu?utm_source=generator" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-testid="embed-iframe"></iframe></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ouça Ocimar Versolato do Avesso em: </span><a href="https://open.spotify.com/show/0jZ7TKc4DvbeMsHkVXrA4Y?si=4284230fbec84b3b" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Spotify</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://podcasts.apple.com/us/podcast/ocimar-versolato-do-avesso/id1860897595" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Apple Podcasts</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://music.amazon.com/es-co/podcasts/9e3239fa-2feb-47bc-9d54-61217074fa72/ocimar-versolato-do-avesso" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Amazon Music</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://link.deezer.com/s/31QWLHrGKB8iqlxHj6X8C" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Deezer</span></a></p>
<p><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast: </strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro </span><i><span style="font-weight: 400;">O Brasil na Moda</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um calhamaço de 1.278 páginas, dividido em dois volumes. Foi lançado em 2004, pela editora Caras, com o objetivo de se tornar uma obra de referência no setor. O projeto de Paulo Borges e do diretor criativo Giovanni Bianco traz fotos de campanhas, catálogos e editoriais produzidos em várias décadas. O texto, editado pelo escritor João Carrascoza, apresenta personalidades da moda brasileira de diferentes áreas e gerações: estilistas, fotógrafos, modelos, jornalistas e por aí vai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa caixa com os dois volumes de capa branca com desenhos em relevo e o título escrito em preto na lombada é figurinha fácil nas estantes dos fashionistas do país. Se você tem esse livro em casa ou conhece alguém que tenha, vou pedir pra você abrir o volume 1 entre as páginas 389 e 392. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, entre o fim do verbete sobre a ex-modelo e cenógrafa Mari Stockler e o começo do verbete sobre o estilista Reinaldo Lourenço, o texto some. E, no lugar dele, estão três páginas e meia cobertas por retângulos pretos. Hoje, a gente vai contar qual a relação entre essa curiosa diagramação e Ocimar Versolato.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama. Eu sou Gabriel Monteiro e este é Ocimar Versolato do Avesso, o podcast da ELLE Brasil que conta a história do primeiro estilista brasileiro a desfilar na semana de moda de Paris, a dirigir uma maison internacional e a entrar para o calendário da alta-costura. E que, apesar de todos esses feitos, foi praticamente esquecido pela moda nos dias de hoje.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste quarto e último episódio, vamos acompanhar a mais turbulenta sociedade de Ocimar, a investida no setor de cosméticos e os últimos dias do estilista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Fernanda Tavares) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Oi, poderia experimentar o novo modelo Ocimar Versolato?</span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">(Vendedor) –</span><i><span style="font-weight: 400;"> Claro, por aqui!<br />
</span></i><span>(Fernanda) –</span><i><span> Nossa, que lindo! Queria experimentar um pretinho desses.<br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Narrador) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Novo Citroen C3 Ocimar Versolato. Vista esse carro.</span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">(Fernanda) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficou perfeito em mim, você não acha?</span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">(Narrador) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Citroen C3 Ocimar Versolato</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é o comercial do Citroën C3 Ocimar Versolato, que foi ao ar em junho de 2004. Pois é, a exemplo de grifes como Hermès e Dolce &amp; Gabbana, Ocimar também teve um modelo de carro para chamar de seu. Aliás, se você escutou o primeiro podcast da série Do Avesso, vai se lembrar que Clodovil também deu seu nome a um veículo. No caso, o Monza Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, a julgar pelo número de ofertas de veículos usados que você encontra em uma busca pela internet, o carro de Ocimar teve uma adesão bem maior que a do Monza de Clodovil – que, estima-se, teve por volta de 12 unidades vendidas. O veículo foi comercializado nas cores prata e preto e, entre outros diferenciais, tinha bancos de couro, disqueteira para cinco CDs e o nome C3 Ocimar Versolato espalhado por pontos estratégicos, além de vir com uma bolsa de viagem de mão e um chaveiro desenhados pelo estilista. Em um vídeo de divulgação do lançamento, Ocimar explicou que a sua atuação foi nos detalhes:</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Minha parte foi de tentar trazer uma sofisticação ao produto, ao C3, que já existia. E essa sofisticação, como toda a sofisticação é toda feita de detalhes. O interior preto, dentro do carro, que é uma coisa que me incomodava em todos os carros que eu sempre tive, e o banco de couro, que é muito mais agradável que de tecido ou qualquer outro material… E os detalhes foram indo. Quer dizer, tudo o que a gente podia mexer pra sofisticar mais o C3, eu fiz.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha da garota-propaganda do comercial que você ouviu também foi uma decisão de Ocimar. Trata-se da top Fernanda Tavares, que  estava começando a carreira em Paris quando conheceu o estilista naquele desfile de alta-costura na Place Vendôme, em 98. Aos 17 anos, a modelo tinha ouvido falar da fama de difícil de Ocimar e contou pra gente que estava um tanto temerosa antes do primeiro encontro com ele.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Sabe quando você vai, assim, esperando? Porque eu já fui&#8230; A gente já é tão&#8230; Em várias situações, assim, na moda, a gente é tão&#8230; não é bem tratado, vamos dizer assim, quando a gente tá começando, né? Por estilistas incríveis. Então, eu já fui, tipo, assim&#8230; Meu Deus do céu, seja o que Deus quiser. E foi maravilhoso, sabe? Ele foi uma pessoa, assim, super simpática, educadíssima. E era nessa época da alta-costura, que ele tava no auge lá.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois daquele dia em Paris, Fernanda faria muitos outros trabalhos com Ocimar. Entre eles, o lançamento em 2003 da camiseta criada pelo estilista para o programa Fome Zero, ação social do primeiro governo Lula para combater a fome no país. Virou definitivamente a modelo preferida do designer e também uma amiga. Nada mais natural, portanto, que ela fosse a estrela do lançamento do C3 Ocimar Versolato. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A collab do estilista com a marca de carros, por sinal, também foi fruto de uma amizade. E aqui começa a história da sociedade mais turbulenta e polêmica de Ocimar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Ocimar) – </span><i><span style="font-weight: 400;">“Meu business é vender roupa, se eu não tiver roupa, eu não vou existir. Eu não vou viver de passarela a minha vida inteira, eu acho isso até patético. Então, numa certa hora<br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Dória) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Patético e frustrante, ficar só no show-off…<br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Ocimar) – </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu tinha&#8230;Só ficar subindo na passarela e dando entrevista pra quê? Fiz isso durante 10 anos da minha vida, tá ótimo, meu ego tá super satisfeito, agora eu quero o produto e quero vender.</span></i><span style="font-weight: 400;">(Dória) &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">E agora você tem essa oportunidade.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é um trecho de uma entrevista de Ocimar Versolato no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Show Business</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por João Doria na Rede TV, no início de 2005. Pois é, a gente até esquece, mas o ex-governador de São Paulo é jornalista e se tornou conhecido no Brasil primeiro como apresentador de TV.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Dória) </span><i><span style="font-weight: 400;">– É você, a Sandra Habib, tem mais alguém que participa?<br />
</span></i><span>(Ocimar)</span><i><span> – Eu e a Sandra. A sociedade, só eu e a Sandra. A Sandra se ocupa da parte operacional da empresa.<br />
</span></i><span>(Dória) </span><i><span>– Sandra é a parte de gestão, você a parte de criação.</span></i></p>
<p>Sandra Habib é casada com Sergio Habib, presidente da JAC Motors no Brasil e fundador do Grupo SHC, um gigante do varejo automotivo. Foi ele que trouxe a Citroën para o país e, na época em que o carro de Ocimar foi lançado, ele era o presidente da montadora francesa aqui.</p>
<p><span>Sandra era cliente de Ocimar desde que ele morava em Paris, já tinha entre 38 e 42 vestidos do estilista, segundo contou em uma entrevista à coluna de Mônica Bergamo, publicada na </span><i><span>Folha de S. Paulo</span></i><span>, em dezembro de 2004. Estava sempre no casarão da Rua Panamá e os dois se tornaram amigos muito próximos. Naquele 2004, a amizade virou uma sociedade, anunciada em agosto, com a abertura de duas lojas em São Paulo, uma na rua Haddock Lobo e outra no shopping Morumbi, mesmo bairro para onde Ocimar havia se mudado. E isso era apenas o começo.</span></p>
<p><i><span>“Ocimar, você inaugurou no ano passado sete lojas, 15 milhões de reais pra cima de investimento. Não foi ousadia demais pra você, num país com crise, com dificuldade, lançar uma grife de luxo já com lojas nos melhores shoppings, melhores endereços de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando essa entrevista foi feita, a nova empreitada de Ocimar estava há apenas cinco meses no mercado. E o tamanho do negócio e a rapidez na expansão, como se vê, impressionaram até João Dória. Em valores atualizados pelo IGPM, os 15 milhões citados corresponderiam a quase 56 milhões de reais nos dias de hoje.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa conversa, a gente fica sabendo de outro números: a menor loja tinha 300 metros quadrados e, a maior, 900. A empresa empregava 300 funcionários diretos e mais 1500 pessoas indiretamente. </span></p>
<p>A coleção tinha nada menos do que 800 itens. E estamos falando não apenas de quantidade, mas também de uma diversidade de ofertas que chamava a atenção. Havia desde sportswear e peças casuais, como jeans, camisas e trench coats, até vestidos com preços em torno de 30 mil reais. A marca mantinha linhas feminina e masculina, e toda uma ala de acessórios, que incluía anéis e abotoaduras, cintos e sapatos de couro.</p>
<p>Ou seja, a empresa de Ocimar passou de um ateliê com roupas sob medida para uma estrutura industrial, que tinha que abastecer as araras e vitrines de sete lojas em três cidades diferentes.</p>
<p><i><span>“Foi um furacão. A gente não dormia. Era produção, tinha que entregar, a loja ia ficar pronta, cadê todos os materiais, cadê todas as roupas… No meio de todo esse turbilhão, a gente tinha que fabricar tudo aquilo.”</span></i></p>
<p>Quem você acabou de ouvir e acompanhou essa transição radical da marca foi Douglas Roque, que começou a trabalhar com o estilista na rua Panamá, logo que ele voltou ao Brasil.</p>
<p>Douglas tem uma carreira tão diversificada que vale a gente fazer um parênteses aqui pra dar um resuminho do currículo dele. Ele começou como empreendedor no ramo de alimentação e teve o primeiro contato com a moda quando trabalhou na loja da Benetton, na rua Oscar Freire. Foi parar no ateliê de Ocimar por indicação do maquiador Carlos Carrasco, com quem a gente vai conversar ainda neste episódio. Depois do trabalho com Ocimar, Douglas passou a dar consultoria para marcas de moda, foi sócio de uma fábrica de sapatos femininos, montou uma empresa de e-commerce, lançou um aplicativo de segurança pública, trabalhou com marketing esportivo de futebol americano e agora, há quase sete anos, mora na Itália, onde trabalha no ramo imobiliário.</p>
<p>É provável que você já tenha visto matérias sobre casas à venda por 1 euro na Itália. Então, foi o Douglas que apresentou essa possibilidade para o Brasil, juntamente com um sócio italiano. Ele trabalha em conjunto com as prefeituras de pequenas cidades, que querem atrair novos moradores para estimular o desenvolvimento urbano.</p>
<p>Bom, com toda essa informação sobre Douglas Roque, fica mais fácil entender o papel multifunções que ele teve na empresa de Ocimar. Na época do ateliê da rua Panamá, ele era o responsável pelo atendimento às clientes. Tirava as medidas, passava para as costureiras e acompanhava toda a produção das peças. Quando a nova sociedade teve início, ele continuou coordenando o sob medida, mas passou também a cuidar do visual merchandising das lojas e a participar do desenvolvimento de produtos, indo atrás de materiais e fornecedores. Ah, e ele era o modelo de prova da linha masculina também.</p>
<p><i><span>“Então as roupas que tenho dele, até hoje, são sob medida pra mim. Pensa que luxo: eu sou uma pessoa que tem roupas sob medida do Ocimar!”</span></i></p>
<p>E, contrariando a fama que Ocimar tinha em Paris, Douglas não tem nenhuma reclamação do ex-chefe em relação aos sete anos em que trabalhou com ele. Pelo contrário:</p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Óbvio, ele era extremamente exigente com as coisas que a gente tinha que fazer, mas ele era uma pessoa doce em relação a isso, sabe? Obviamente, ele não tinha paciência com a pessoa que não ia muito com o pensamento, ou era meio lento em relação a pensamento, essas coisas. Ele não tinha muita paciência, não. Mas, no geral, ele era uma pessoa muito bacana.”</span></i></p>
<p>Douglas conta que, com Ocimar, aprendeu a ter uma visão global do processo. E que a notícia do fechamento das lojas pegou todo mundo de surpresa.</p>
<p><i><span>“Foi um dia bem estranho, porque estava todo mundo lá, pediram uma reunião com todo mundo e, nessa reunião, disseram: ‘Muito obrigado, amanhã ninguém mais abre, ninguém mais precisa vir’.​ No outro dia, estava fechado. Eles falaram que iam manter algumas lojas abertas só até entregar, até fechar tudo. Então algumas pessoas ficaram ainda para encerrar o negócio em si: alguns vendedores, alguns gerentes. Mas aí já não era mais o Ocimar; a sociedade já tinha sido encerrada. Foi bem brusco. Bem brusco.”</span></i><span>​</span></p>
<p>Então, foi isso: no dia 31 de março de 2005, na véspera do seu aniversário de 44 anos, Ocimar viu ruir mais uma sociedade. As sete lojas, abertas há apenas sete meses ou menos, foram fechando uma a uma, começando pelo ponto do Shopping Pátio Higienópolis.</p>
<p><i><span>“Eu fiquei bem aborrecido, porque… Tudo para dar certo. Não sei o que deu errado na parte da conta. O projeto era muito audacioso, mas tinha tudo para dar certo. Talvez alguns erros de cálculo ali, não sei qual foi a ideia de todo mundo. Mas talento não faltava, coisas lindas não faltavam, clientes não faltavam. Então não sei o que aconteceu no final.”</span></i></p>
<p>Se Douglas ficou aborrecido, imagine Ocimar Versolato. O último capítulo do seu livro é todo dedicado à sociedade com um casal que ele chama de Natasha e Tony. O estilista aponta problemas que vão desde os termos do contrato, que não davam a ele nenhum direito administrativo, até os possíveis motivos para o fechamento das lojas.</p>
<p>Critica escolhas e métodos da administração, como a precificação das peças e salários muito acima do mercado pagos a alguns colaboradores. Aponta ainda uma certa má vontade para resolver questões como o pagamento a fornecedores, que consequentemente não entregavam os pedidos, acarretando na interrupção da produção e atrasos no cronograma. Faltavam itens básicos, como linhas e zíper, descreve o estilista.</p>
<p>Segundo Ocimar:</p>
<p><i><span>“Para resumir a história, acabamos encerrando a sociedade de forma nada amigável. E com muitas perguntas sem respostas. Uma delas é por que alguém investiria tanto dinheiro em um negócio, muito mais do que o anunciado, para fechá-lo seis meses depois? E como tiveram coragem de dispor da marca Ocimar Versolato, construída ao longo de anos com muita seriedade e profissionalismo, de maneira tão inconsequente?” </span></i></p>
<p>A gente procurou Sandra Habib pra ela contar o seu lado da história. Sandra não quis gravar entrevista, mas mandou algumas mensagens pelo WhatsApp. Ela diz que Ocimar tinha realmente um enorme talento, mas também era irresponsável e mal-agradecido, entre outros defeitos, na mesma proporção. Cita alugueis atrasados da casa no Jardim Europa que ela teria pago para ele. E escreve ainda:</p>
<p><i><span>“Investi numa fábrica com várias costureiras de alta costura, máquinas bordadeiras etc. Abri várias lojas maravilhosas. </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele  somente conseguiu entregar uma única coleção. Durante 7 meses com as mesma roupas nas araras e sem novidades as vendas caíram. A operação se tornou inviável. Não tive outra opção a não ser encerrar, fechar as lojas, liquidar roupas que já estavam há quase um ano em estoque e demitir o pessoal. Da noite para o dia ele se tornou o meu maior inimigo. Não me atendia, não mais falou comigo, virava a cara quando me via, contratou um advogado, me processou etc. Obviamente perdeu a ação.”</span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Sandra encerra a troca de mensagens dizendo que Ocimar foi a maior decepção que teve em seus anos de vida adulta e que só essa lembrança já a entristeceu, porque ela realmente gostava muito dele e considerava Ocimar o seu melhor e mais querido amigo. </span></p>
<p>Como se vê, dez anos depois, o fim dessa sociedade ainda é um assunto sensível pra Sandra Habib, assim como para os familiares de Ocimar que a gente entrevistou. E, para o estilista, foi um abalo forte, que ele não queria demonstrar em público, como conta o paisagista Alex Hanazaki.</p>
<p><i><span>“E nesse período, eu lembro que ele se recolheu, né? Se afastou, mas percebia que ele tava, ele não queria falar com ninguém. É. Eu ligava para ele, ele falava: &#8220;Ai, não tô bem ainda para falar&#8221;. Eu acho que ele se isolou no Rio de Janeiro, se eu não me engano, junto com o Ney Mato Grosso.”</span></i></p>
<p>Alex conheceu Ocimar no início dos anos 2000 e chegou a fazer o paisagismo de algumas lojas do amigo. Junto com a arquiteta Raquel Silveira, que a gente ouviu no episódio passado, e o médico Fabio Jennings, que a gente ainda vai escutar, ele formava um grupo de amigos que foi muito próximo de Ocimar nessa última fase, no Brasil. E Alex acredita que a dissolução dessa sociedade teve consequências inclusive para a saúde do amigo.</p>
<p>Logo depois que Ocimar retornou do período de isolamento no Rio, eles voltaram a sair, e uma noite combinaram um jantar. Mas o estilista não apareceu, porque havia sido internado em um hospital, após sofrer um infarto.</p>
<p><i><span>“Só ali já foi, sei lá, não sei quantos stents no coração. Acompanhei toda essa cena. Então, isso era reflexo muito claro do que ele sofria, né? Sofria calado.”</span></i></p>
<p>O cantor Edson Cordeiro, que acompanhou todas as quedas da carreira de Ocimar, fala um pouco mais sobre como o amigo lidava com esses baixos.</p>
<p><i><span>“E eu sempre ficava muito preocupado quando caía. Eu falei, como é que ele vai lidar em não ser o foco, em não poder sustentar o glamour que ele gostava tanto? Eu tinha muita preocupação. Será que ele vai segurar agora? E ele levantava. E aí, né, de repente ele tinha esses altos e baixos, porque ele falou uma coisa importante pra mim. Ele</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">falou assim, essas pessoas são tão cafonas, imaginando que o Lagerfeld nunca caiu, que o Mugler nunca faliu. Só cai quem arrisca, e eu nunca vou deixar de arriscar.”</span></i></p>
<p>Então, em 2007, Ocimar Versolato estava pronto pra arriscar novamente.</p>
<p><i><span>“Esse meu primo falou assim: ‘Nossa, hoje eu conheci o Ocimar Versolato. Parece que ele é famoso’. E eu já conhecia o Ocimar. ‘Nossa, o Ocimar Você conversou com o Ocimar?’ ‘É, conversei!’ Falei: ‘Que legal, pô, o cara é um gênio’. Eu sempre admirei ele. E aí meu primo teve contato com ele de novo. Eu falei assim: ‘Pergunta para ele se não quer lançar um perfume com o nome dele’. Foi bem assim!”</span></i></p>
<p>Esse que a gente ouviu agora é Marcelo Terra. Marcelo mora hoje nos Estados Unidos, onde trabalha com concreto e construção. Em 2007, ele morava em Itapetininga e já trabalhava com concreto, mas paralelamente, tinha também uma empresa de cosméticos populares, com venda de porta a porta, chamada DNA Brasil.</p>
<p>O primo que ele menciona trabalhava numa fábrica de ternos e conheceu Ocimar quando o estilista procurava um fabricante para produzir os ternos que ele estava criando para a inauguração do Hotel Fasano, no Rio de Janeiro.</p>
<p><i><span>“E aí meu primo, acho que da próxima vez que se encontrou com </span></i><i><span>ele, falou: ‘Ocimar, meu primo mexe com perfume, tem uma linha de perfume e perguntou se você não quer lançar um perfume com o nome dele’. ‘Ah! Pede para ele vir conversar comigo.”</span></i></p>
<p>Marcelo foi conversar com Ocimar e adorou o estilista. Ocimar, por sua vez, disse que sempre pensou em lançar algo assim e combinou deles amadurecerem a ideia. Bem, a ideia não só amadureceu como cresceu exponencialmente.</p>
<p><i><span>“E aí começou. De um perfume virou quase mil itens, né?”</span></i></p>
<p>Durante dois anos, Ocimar trabalhou intensamente na pesquisa e no desenvolvimento dos produtos, que incluíam várias tonalidades de batom, sombra, base, delineador, enfim, uma linha completa de maquiagem, além de loções corporais e 13 fragrâncias, todas unissex. Marcelo conta que Ocimar criou até as embalagens, que eram prateadas, com o nome do designer escrito em preto.</p>
<p><i><span>“Ele desenhou, ele escolheu a cor. Ele ia comigo mas fábricas pra ver a produção, ver a qualidade. Ele participou 100% de tudo. De tudo que você imaginar.”</span></i></p>
<p>Diferentemente do público alvo de Ocimar na moda, os cosméticos da marca miravam na classe média, conta Marcelo. A ideia era oferecer um produto acessível, de ótima qualidade e com um visual de artigo de luxo. E uma das explicações para eles conseguirem trabalhar com um custo baixo era justamente a onipresença de Ocimar nos processos, que possibilitava uma equipe enxuta. O desenvolvimento das fragrâncias, Marcelo conta, levou quase um ano.</p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E ele misturava as coisas. Então ele queria as essências básicas. Ele virou como se fosse um químico testando na casa dele. Eu ia toda semana na casa dele. E ele misturando, colocava um pouquinho de uma coisa, um pouquinho de outra. ‘Não, mas aqui eu preciso de tal coisa’. É assim. Foi incrível. Foi uma experiência fantástica trabalhar com ele.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na criação da linha de maquiagem, Ocimar contou com a ajuda valiosa do maquiador Carlos Carrasco. Com uma carreira de 44 anos, Carrasco é um dos profissionais de beleza mais experientes em atividade no Brasil. Ele conheceu Ocimar ainda na fase de Paris e, quando o estilista voltou, fez o make dos desfiles na Casa de Criadores, entre outros trabalhos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele trazia para mim as amostras para eu testar e ver se esse produto era viável ou não. Aí ele me ligava e ele falava, passa aqui em casa. E aí eu pegava o meu carro, eu ia para a casa dele, ele abria a caixa de Pandora com os produtos dele em desenvolvimento, né? E aí eu ajudei muito ele nessa coisa de textura, de fixação, de pigmento, do cheiro da cosmética, porque ele tinha uma coisa com cheiro muito peculiar, né? Ele tinha&#8230; E a marca dele tinha um cheiro que era dele. Nenhuma outra marca, eu acho que tinha o mesmo cheirinho que tinha. as coisas do Oci.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O lançamento da Ocimar Versolato Cosmetics, enfim, foi marcado para o dia 7 de maio de 2009, no hotel Emiliano, em São Paulo, e contou com a presença de nomes como Gloria Maria, Mel Lisboa, Alicinha Cavalcanti e outros vips. Afinal, os cosméticos de Ocimar poderiam até ter como público alvo a classe média, mas o luxo nunca saía do seu criador. O catálogo da marca, na verdade, não era um catálogo: era praticamente um livro de moda, com direção de arte do próprio designer e fotos assinadas por Rogério Mesquita, que hoje mora em Bali, na Indonésia.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí eu tô fotografando a natureza aqui. Engraçado que </span></i><i><span>eu comecei fotografando a natureza, aí fiz moda, publicidade e agora eu voltei pra onde eu comecei.”</span></i></p>
<p><span>Com Ocimar, Rogério também fez as fotos do álbum </span><i><span>Beijo Bandido</span></i><span>, de Ney Matogrosso, que acabou levando o troféu de melhor projeto visual de 2010 no Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira. Mas o primeiro trabalho do fotógrafo com o estilista nunca chegou a ser concluído. Trata-se de um livro em que vestidos do designer foram fotografados em new faces, ou seja, modelos que estão começando na carreira.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Um dia a gente ia almoçando, eu falei assim: ‘Ocimar, você tem que ter um livro onde os estudantes de moda falem sobre você, sobre as suas técnicas, sobre as suas falas. Porque ele era uma pessoa muito engraçada.”</span></i></p>
<p>Esse é Dinho Batista, que convenceu Ocimar a fazer um livro pra deixar pra posteridade e apresentou o estilista ao fotógrafo Rogério Mesquita. Ele é assessor de Fernanda Tavares, designer e, há 20 anos, é instrutor de passarela, ou seja, ele ensina modelos a andar de salto com algumas técnicas que desenvolveu. Na nossa conversa, Dinho contou que a produção do livro foi uma verdadeira força-tarefa.</p>
<p><i><span>“E ele começou a trazer vestidos mais maravilhosos de clientes. Eu lembro que veio vestido de Nova York. Tinha um amigo que ia trazer vestido de Paris. E ele tava falando com um amigo que fazia assessoria de algumas princesas lá dos Emirados, pra trazer roupa de princesa também, que ele tinha feito com essas mulheres. Uma </span></i><i><span style="font-weight: 400;">coisa assim. Ele começou a articular as pessoas. Economicamente, ele não tava tão bem, mas todo mundo dizia assim: vamos fazer, vamos ajudar, vamos realizar esse negócio.”</span></i></p>
<p>Foram feitas várias fotos, mas, apesar do mutirão pra fazer o projeto acontecer, ele foi abortado no meio do caminho por desentendimentos nos bastidores. Dinho se recorda que o motivo da briga foi uma questão com a agenda das modelos, que ia ter que ser alterada por causa da São Paulo Fashion Week, e o estilista não admitia a troca.</p>
<p><i><span>“E aí eu falei assim, eu falei: ‘Ocimar, eu vou me ausentar do livro por um tempo. Não dá agora, porque eu acho que você tem que melhorar o seu humor. Você tem que melhorar a sua dinâmica de lidar com a gente pra eu poder voltar. Ele falou: ‘Você vai se arrepender’. Eu falei: ‘Eu sei que eu vou me arrepender, mas eu vou me ausentar, depois a gente volta.”</span></i></p>
<p><span>O livro nunca foi retomado. Rogério tem as fotos guardadas em seus arquivos e você pode conferir algumas delas na reportagem sobre este podcast, publicada no volume 22 da ELLE impressa, lançado em dezembro. E, como o assunto é livro, a gente vai esclarecer agora o mistério das páginas negras de </span><i><span>O Brasil na Moda</span></i><span>, mencionado na abertura deste episódio.</span></p>
<p>Como já deu pra imaginar, a tinta preta que cobre três páginas e meia do livro esconde o verbete que falava sobre Ocimar Versolato. E a explicação pra isso é que Ocimar não autorizou a publicação de imagens dele nem da entrevista feita para o livro. Numa reportagem publicada pela Folha de S. Paulo na época do lançamento, o diretor criativo Giovanni Bianco diz que o estilista tinha assinado uma autorização, mas depois mandou uma carta dizendo que não queria estar no livro. Já Ocimar declarou que não tinha assinado nada. Abre aspas para ele: “O que disse foi que poderia autorizar se me apresentassem o material pronto. Achei amador, não estava no nível do meu trabalho.&#8221;</p>
<p>A gente procurou o co-autor do livro e criador da São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, que não quis gravar entrevista. Mas confirmou que o problema da publicação foi a ausência da autorização de Ocimar. “Não daria mais para imprimir o livro, a solução foi pintar a página”, escreveu Paulo em mensagem no WhatsApp.</p>
<p>Uma das perguntas que norteou este podcast é entender por que Ocimar Versolato foi praticamente esquecido pela moda brasileira. Como se vê no caso desses livros, ele próprio teve uma participação direta nesse processo. Mas não se trata só disso.</p>
<p>Mario Canivello, assessor de imprensa de alguns dos maiores nomes da classe artística brasileira, entre eles, Chico Buarque e Sonia Braga, foi amigo e assessor de Ocimar. Ele respondeu as nossas perguntas por escrito e avalia que os desafetos que o estilista criou na imprensa especializada ao longo de sua carreira ajudaram a consolidar esse apagamento após o fim da sociedade com Sandra Habib. Abre aspas para Canivello:</p>
<p><i><span>“Com a perda das lojas, veio gradativamente a perda dos holofotes. Obviamente não foi uma ação orquestrada da imprensa, mas os jornalistas que ocupavam posições de poder e que haviam tido desavenças com Ocimar nunca mais abriram espaço para ele depois desse momento.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O maquiador Carlos Carrasco aponta ainda um outro motivo que nada tem a ver com o gênio difícil de Ocimar. A memória curta generalizada que assola o Brasil.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Não existe memória. Eu acho que em tudo no Brasil, né? O Brasil&#8230; A gente tem um problema muito sério, que é&#8230; O Brasil precisa e gosta da juventude. O Brasil precisa e gosta&#8230; Está aí. E aí, quando você envelhece, você perde um valor. É diferente na Europa, por exemplo. Eu tenho amigos da mesma época que eu, que eu fiz desfiles na Europa, eu fiz coisas na Europa junto com eles, e que eles continuam num patamar muito maior. Eles são os mais caros por causa da experiência. Aqui no Brasil, não. Então, existe uma coisa que é o esquecimento, é uma falta de memória mesmo. Em tudo. Não é só na moda. Eu acho que em todos os nichos tem esse esquecimento, porque está sempre precisando de um novo. É sempre o novo, é sempre o novo. E eu acho genial, eu também já fui novo um dia, acho genial. Mas a gente não pode esquecer, não pode perder a memória de quem lutou, de quem fez. É a mesma coisa você perguntar para uma mulher hoje e ela não saber quem é a Simone de Beauvoir. Então, é cair no esquecimento uma luta.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a jornalista Lilian Pacce, o motivo do apagamento de Ocimar tem relação com a falta de consistência na carreira do estilista.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque não teve consistência. Então, o Ocimar foi um estilista de fase. Fases rápidas para a moda. Muito rápidas. Você pode ver que cada fase dessa deve ter durado, no máximo, três anos cada uma, e daí, com intervalos de silêncio e mistério absoluto. Porque o Ossimar também gostava dessa coisa do mistério. Se ele estava por baixo, ele não queria que ninguém soubesse do que estava acontecendo. E talvez essa questão&#8230; A moda é muito cruel também, porque a moda muda, não é? E se você, de alguma maneira, não&#8230; Se você não criou um estilo de verdade, ou se você não acompanha as mudanças, você fica para trás. Então, acho que ele não teve tempo de construir uma identidade dele, que você olhasse e falasse, isso aqui é o Ocimar. Então, acho que para o público, ele nunca criou uma identidade. Por isso que ele não&#8230; Que ele chegou&#8230; Surgiu e sumiu, não é?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, há também a explicação de Raquel Silveira, que adaptou uma frase que costuma ser usada na política para a seara fashion:</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu acho que a moda não carrega feridos. Não carrega, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando pra linha do tempo de Ocimar. Pouco depois do lançamento da sua marca de cosméticos, o estilista deixou os sócios tocando a empresa no Brasil, que funcionava em um esquema de franquias, e saiu do país novamente. Dessa vez, tendo Milão como destino.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir de 2010, então, Ocimar Versolato some de vez do radar da moda e da imprensa. Mas não ficou parado. A empreitada com os cosméticos durou até 2011, quando a sociedade acabou, dessa vez, sem dramas de nenhum lado. Ocimar continuou a criar figurinos para os show de Ney Matogrosso e já planejava uma nova mudança em sua vida, como lembra Alex Hanazaki: </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Naquele na naquele período ele já estava com um assunto meio de… Ele falava assim: ‘Olha, com moda não dá para ganhar dinheiro’. Então eu tenho que fazer alguma coisa que me dê dinheiro porque aí sim depois com dinheiro eu faço a moda que eu quero’. Ele falava isso.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar, lembra Alex, dizia que nunca mais queria ter sócios na vida. E que tinha chegado à conclusão de que o melhor caminho para ganhar dinheiro era entrar para o mercado financeiro. Passou a estudar o assunto com obstinação, como acontecia com tudo aquilo que se dispunha a fazer, para montar um fundo de investimentos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De Milão, Ocimar se mudou para Luxemburgo. Segundo amigos, a mudança já visava negócios futuros, já que Luxemburgo tem taxas mais atrativas para empresas do que a França, por exemplo. Era lá, no pequeno país europeu encravado entre França, Alemanha e Bélgica, que o estilista tinha fincado residência em seus últimos anos de vida. Mas ele não estava lá quando sofreu o AVC fatal. </span></p>
<p><i><span>“Ele tava na minha casa hospedado. Então, ele tava com as coisas dele, ficou hospedado, ele ficava às vezes hospedado em casa ou em casa ou na casa do Alex. Dessa vez ele ficou em casa. Eu recebi a notícia porque ele ia viajar no outro dia, eu tinha falado com ele, fica em casa à vontade e chegou no outro dia, eu acordei, ele não tava, não tinha, eu disse ah, deve ter dormido na casa de alguém, do Alex ou, que ele era bem notívago, né? Ele sempre ficava acordado até uma tarde. Ah. E aí, foi pro trabalho e depois eu recebi a ligação. De que ele tinha passado mal e que tinham levado ele no pronto-socorro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este é o médico Fábio Jennings. Naquele dezembro de 2017, Ocimar estava de passagem pelo Brasil, hospedado na casa dele. No dia 3, um domingo, o estilista havia passado o dia com Alex Hanazaki e a estilista Adriana Bittencourt. À noite, Ocimar se deu conta de que havia esquecido um remédio na casa de Alex e os dois combinaram de se encontrar de novo pra devolução do medicamento e aproveitar pra jantarem juntos em um restaurante japonês no Itaim. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alex voltou pra casa depois do jantar, mas tudo indica que Ocimar resolveu dar uma esticada na noite. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí, no outro dia eu fui trabalhar e quando eu recebi um telefonema de manhã falando que ele tinha tido um AVC e tava no hospital, né? E lá no hospital, parece que deu entrada com uma pessoa não conhecida, porque acharam ele a alguém ligou ah de madrugada falando que tinha uma pessoa passando mal, na rua tal, tal, tal.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ninguém sabe dizer ao certo em que circunstâncias Ocimar teve o AVC, mas Alex acredita que havia alguém com ele no momento, que chamou o socorro. No hospital, ele viu na tela do celular de Ocimar piscar uma mensagem de uma pessoa perguntando se ele estava bem, que tinha ficado preocupado com ele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alex também viu uma mensagem de Sebastião Salgado e entrou em contato com o fotógrafo pra avisar do acontecido. Um dos compromissos de Ocimar quando voltasse para a Europa era passar em Paris para finalizar o vestido que Lélia Salgado usaria na cerimônia de posse do marido como membro da Academia de Belas Artes da França. Mas o vestido nunca foi finalizado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quatro dias depois de ser internado, Ocimar Versolato morreu. E foi enterrado em sua cidade natal, São Bernardo do Campo.</span></p>
<p>A morte de Ocimar, em 8 de dezembro de 2017, aos 56 anos, pegou os amigos de surpresa. Nos últimos tempos, ele estava em sua melhor forma. Havia emagrecido, parado de fumar, estava se cuidando. Nas fotos mais recentes, parecia até mais novo do que quando havia se mudado para Milão.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O próprio Ocimar, no entanto, sabia que poderia não ter muito tempo de vida. Depois daquele ataque cardíaco relatado por Alex Hanazaki, o estilista sofreu outros dois infartos, em Luxemburgo, que ninguém do círculo próximo ficou sabendo, com exceção da sobrinha Yasmine.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Foi em 2015. Ele era muito preocupado com o meu aniversário. Então em 2015 eu fiz 20 anos e ele me preparou uma viagem surpresa pra Nova York que era a primeira vez que eu iria conhecer. E levou o pack completo: que era minha avó, minha mãe e eu. As três Marias. E fomos a Nova York e depois ele já estava morando em Luxemburgo e minha mãe e minha avó voltaram pro Brasil e ele pediu que eu ficasse. Então ok, eu falei ok, fico, não tem problema, estávamos em Londres, perdemos voo. No dia seguinte, a gente conseguiu chegar em Luxemburgo, dormimos, e no dia seguinte eu encontrei ele quase desmaiado na cama. Conseguimos falar com o Fabio. Eu não falo nada de francês, não conseguia nem chamar uma ambulância, porque não tinha como. Então eu ajudei a colocar a meia de compressão e ele foi não voltando mas com possibilidade de ir dirigindo ao hospital. Ele foi dirigindo ao hospital. Quando ele entrou, ele entrou direto na UTI porque ele estava infartando.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar fez a sobrinha prometer que não contaria sobre o ocorrido com ninguém. E uma semana depois do susto, foi com ela dirigindo, de Luxemburgo a Mônaco, assistir à final de um campeonato de tênis. Dois anos depois, apenas um mês antes de morrer, Ocimar sofreu o terceiro infarto. E novamente pediu segredo à Yasmine. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Esse eu não estava com ele. Eu estava em Madri e ele foi socorrido por um amigo em Luxemburgo, mas ele me chamou e eu fui correndo a Luxemburgo. E nesse terceiro já tinham avisado que ele tinha 3 meses de vida com esse coração, que ele não ia aguentar esse coração e foi aí pela primeira vez que eu vi ele preocupado.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Yasmine manteve sua promessa e só revelou as duas ocorrências à família após a morte do tio. E Ocimar, apesar de não ter falado sobre os infartos como ninguém, dava sinais de que algo estava diferente, como conta Hanazaki.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“No final da vida dele, ele já estava uma pessoa meio que… Parecia outra pessoa, na  verdade. Parece até que ele já meio que sabia um pouco. É, porque ele tava uma pessoa muito mais doce. Muito mais, ah, uma pessoa muito mais, eh, não queria mais embates, sabe?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pedro, o sobrinho, diz que o estilista ficou ainda mais próximo da família e que pela primeira vez teve uma conversa em um tom mais emotivo com ele. Já a irmã, Omara, conta que sentia o irmão mais leve e divertido, num espírito de querer curtir a vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois do primeiro infarto, Ocimar procurou se reconciliar com alguns amigos. Uma dessas reaproximações foi com Corinne Lucquiaud, com quem ele havia rompido no início da sua escalada para o sucesso. Em uma viagem a Paris, o estilista pediu para se encontrar com a francesa e se desculpou, contou Corinne.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“And then he called me up, you know, he sent me a text that I want to see you. I&#8217;m coming to Paris for the perfume. I want to see you. So then we became friends, you know, and he apologized.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, apesar do perigo de morte iminente, Ocimar também tinha muitos planos. Estava trabalhando no figurino de um novo show de Ney Matogrosso e planejava uma exposição de fotos: imagens abstratas, tiradas da arquitetura que ele observava nas cidades que visitava. Sobre a empreitada no mercado financeiro, Omara relata que ele passou a dominar o assunto e estava indo muito bem na área.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E aí fica aquela dúvida. Se ele tivesse tido mais tempo, será que a moda ainda veria mais um renascimento de Ocimar Versolato?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O DJ Eduardo Corelli pode ter uma pista. Naquele mês de dezembro de 2017, quando ele chegou pra tocar no club Jerôme, na Consolação, numa quarta-feira, um colega avisou que um amigo tinha ido atrás dele no sábado.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Quando eu cheguei, falou: ‘teve um amigo seu que veio sábado aqui, um careca’. Obrigado, amigo meu careca, todo mundo já está 60 menos, eu falo que a minha geração é 60 menos, tá todo mundo careca. Careca de óculos, falei, obrigado. ‘Veio no sábado, perguntou se ia tocar e foi embora quando falaram que você toca na quarta’. Eu, whatever, né, quem será que veio aí me procurar no sábado.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Edu esqueceu do assunto e continuou tocando. E tomou um susto quando Ocimar surgiu na sua frente, na maior animação, acompanhado do DJ Felipe Venâncio.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele chegou, o Venâncio chega de mão dada com ele, de cabeça baixa na cabine tocando Silvestre, vejo ele, foi uma surpresa, eu falei, viado! ‘vim te buscar porque 2018 a gente volta pra Paris pra fazer alta-costura.’”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar Versolato do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil e faz parte da série Do Avesso, que resgata grandes nomes da moda brasileira. O primeiro biografado foi Clodovil Hernandes, que teve sua trajetória destrinchada em seis episódios, também disponíveis nas principais plataformas de áudio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do programa Show Business, apresentado por João Doria, na rede TV e do vídeo de divulgação do C3 Ocimar Versolato e do comercial desse mesmo veículo.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Ocimar Versolato do Avesso: O hi-lo de Ocimar</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Dec 2025 12:05:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[moda]]></category>
		<category><![CDATA[alta-costura]]></category>
		<category><![CDATA[camara sindical de alta-costura]]></category>
		<category><![CDATA[haute couture]]></category>
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					<description><![CDATA[No terceiro episódio de Ocimar Versolato do Avesso: O término abrupto com a Lanvin; o investimento da família Pessoa de Queiroz; a consagração na alta-costura; a volta ao Brasil na Casa de Criadores; e a relação paterna que teve com os sobrinhos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe style="border-radius: 12px;" src="https://open.spotify.com/embed/episode/1TGfRDKvcJEsA8sMsaoXs5?utm_source=generator" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-testid="embed-iframe"></iframe></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Ouça Ocimar Versolato do Avesso em: </span><a href="https://open.spotify.com/show/0jZ7TKc4DvbeMsHkVXrA4Y?si=4284230fbec84b3b" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Spotify</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://podcasts.apple.com/us/podcast/ocimar-versolato-do-avesso/id1860897595" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Apple Podcasts</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://music.amazon.com/es-co/podcasts/9e3239fa-2feb-47bc-9d54-61217074fa72/ocimar-versolato-do-avesso" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Amazon Music</span></a><span style="font-weight: 400;"> | </span><a href="https://link.deezer.com/s/31QWLHrGKB8iqlxHj6X8C" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">Deezer</span><b><br />
</b><b><br />
</b></a><b>Se preferir, você também pode ler este podcast: </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Champanhe, caviar, tapete vermelho e roupas logotipadas de cabo a rabo. É assim que Ocimar Versolato descreve no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Vestido em Chamas</span></i><span style="font-weight: 400;"> o seu segundo desfile para Lanvin, em outubro de 1996. Depois do fiasco na estreia na maison francesa, pensada para ser um evento pequeno e intimista, mas que desandou completamente, como vimos no episódio anterior, o brasileiro decidiu que iria virar o jogo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Saíram as modelos punks e entraram as madames de cashmere, usando tailleurs acinturados, pérolas e tons adocicados de rosa, azul e amarelo. A guinada deu certo. As críticas foram favoráveis e, comercialmente, a coleção foi igualmente bem-sucedida. Ocimar, no entanto, teria que lidar com um outro obstáculo para o seu sucesso: ele mesmo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama. Eu sou Gabriel Monteiro e este é Ocimar Versolato do Avesso, o podcast da ELLE Brasil que conta a história do estilista brasileiro que teve uma projeção internacional como nenhum outro, mas não conseguiu levar seus negócios adiante e foi praticamente apagado da história da moda nacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste terceiro episódio, vamos acompanhar a primeira queda do designer, a volta por cima com a consagração na alta-costura, outro tombo e o recomeço no Brasil.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“We heard very good news from the American department stores, from professional people in the States that say that there is a young talent that&#8217;s really coming up, and it&#8217;s Ossimar Versalato. The big challenge for him is a very modern style, okay? Jeanne Lanvin is very elegant, very… It&#8217;s an institution. It&#8217;s to try to mix this very modern style to what Jeanne Lanvin&#8217;s spirit is, and on the other hand, to bring modernity to Jeanne Lanvin. It&#8217;s both ways, and it&#8217;s not easy. It&#8217;s a big challenge. And I think he really did a good job.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente ouviu agora o trecho de uma entrevista com Gerald Asaria, então CEO da Lanvin. Ele comenta que Ocimar Versolato tinha um grande desafio, que era o de levar modernidade ao espírito elegante da fundadora da grife, Jeanne Lanvin. E finaliza dizendo que achava que o brasileiro havia realmente feito um trabalho muito bom.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui a gente pede desculpas por não conseguir descobrir em que programa ou rede de TV essa entrevista foi veiculada. Esse trecho estava em um DVD, com um compilado de desfiles e recortes de entrevistas, que pertenceu a Ocimar e foi guardado pelo paisagista Alex Hanazaki, amigo do estilista, que a gente ainda vai ouvir neste podcast. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, na Lanvin, Ocimar, depois do descompasso inicial, parecia ter acertado o tom. Estava conseguindo injetar uma dose de frescor à tradicional maison francesa, o que se refletia em um aumento significativo nas vendas. No entanto, em outubro de 97, dias antes do desfile de verão, a Lanvin anunciou que Ocimar estava deixando a direção criativa da casa e aquela seria a última coleção da grife assinada por ele. No comunicado oficial: </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“No momento em que Lanvin deseja estender e desenvolver suas coleções femininas depois do sucesso da linha Il pour Elle e da modernização de suas linhas de noite, o senhor Ocimar Versolato quis dedicar mais tempo ao desenvolvimento de suas atividades pessoais.” </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu livro de memórias, Ocimar conta que, nessa época, a sua marca própria enfrentava um problema de caixa, porque o banco havia negado um empréstimo de 2 milhões de francos, necessário para recompor seu capital de giro. Com a negativa da instituição financeira, ele se viu numa sinuca de bico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao saber disso, a Lanvin teria se oferecido para fazer o empréstimo, com as seguintes condições: a marca de Ocimar ficaria em poder da maison e a dívida deveria ser quitada em seis meses – tempo insuficiente, segundo o estilista, para fazer o giro e devolver o dinheiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interpretação de Ocimar foi de que a intenção da Lanvin, na verdade, seria de forçá-lo a vender a sua marca a preço de banana, pra depois fechar a grife e ter o brasileiro trabalhando exclusivamente pra eles. Ocimar teria, então, optado pelo contrário: rescindiu o contrato com a maison após pouco mais de dois anos para se dedicar à sua própria marca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, essa foi a versão do estilista. Nos bastidores da moda, a história que circulava era outra. Ocimar teria sido demitido por problemas de relacionamento. E o trauma que ele teria deixado na equipe respingou até na jornalista de moda Lilian Pacce, que deixou de ser convidada para os desfiles da Lanvin por umas boas temporadas:  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Depois, eu vim a saber que ele era um déspota, assim, com a equipe, com as pessoas, tratava as pessoas mal e tal, a ponto de essa assessora de imprensa, quando ele saiu, ela deixou de me convidar, porque ela achava que eu era muito amiga dele. Só depois de muitas coleções que eu encontro ela e, enfim, a gente começa a conversar. E daí deu um clique nela e, daí, ela viu que eu não era uma cupincha do Simari. Daí, ela voltou a me convidar.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A designer Corinne Lucquiaud, que a gente ouviu no episódio passado, contando das aventuras com Ocimar no Festival de Cannes, também se recorda da fama de difícil que ele ganhou no novo emprego.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“It was impossible. Everybody was complaining. You know, my friend who was working on the show, you know, she said, I cannot cope with him. He&#8217;s lost it. And that was his problem, actually. So that&#8217;s why, you know, I guess Lanvin got rid of him. That&#8217;s what we all thought, you know, he didn&#8217;t quit, he got fired.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo da ida pra Lanvin, Corinne já havia rompido com Ocimar, por causa do temperamento do estilista. Mas tinha notícias dele por meio de uma amiga em comum, que trabalhava na maison francesa. E o comentário era de que o estilista era impossível de lidar e por isso acabou demitido. Essa amiga vive hoje no Marrocos e a gente tentou falar com ela. Ela chegou a responder ao primeiro contato por WhatsApp, mas depois não continuou mais a conversa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E aqui cabe um parênteses. Durante os mais de três meses de apuração pra este podcast, várias pessoas que foram próximas a Ocimar responderam prontamente aos pedidos de entrevistas, contaram histórias e chegaram mesmo a se emocionar com as recordações do amigo. Por outro lado, eu e a Pat também ouvimos vários nãos de pessoas que conheceram o designer e preferiram não participar do podcast, porque disseram que não teriam nada de bom pra falar dele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, a gente entrou em contato com a Lanvin e não conseguiu esclarecer muita coisa. Laure Harivel, responsável pelo departamento de patrimônio da empresa, respondeu que, da época de Ocimar, sobraram apenas três esboços e algumas amostras de roupas. E o fato é que, demitente ou demitido, Ocimar Versolato ficou em uma situação bem difícil após a saída da maison. Amargava uma dívida com a previdência social francesa equivalente a 300 mil dólares, segundo notícias da época, e tinha que negociar com fornecedores pra manter sua marca de pé. O sufoco, entretanto, não durou muito tempo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O talento dele era inquestionável e ele é sempre muito bem recebido pela crítica e tudo. E aí começamos a história.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este é Ricardo Pessoa de Queiroz Filho. Ricardo vem de uma das famílias mais tradicionais do país, com uma árvore genealógica que inclui o ex-presidente da República Epitácio Pessoa. Hoje ele comanda, junto com a esposa Bruna, a Usina de Arte, um museu ao ar livre construído na área onde funcionava uma antiga usina de cana-de-açúcar da família, no município de Água Preta, em Pernambuco.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Naquele final de 97, Ricardo ainda trabalhava no setor de produção e comércio de açúcar e álcool e queria diversificar os negócios. Eis que, um dia, o empresário lê em uma revista sobre o momento crítico que a marca de Ocimar atravessava. E vê ali uma oportunidade. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Na época que ele estava meio que saindo da Lanvin. Mas tava, em paralelo, já estava tentando desenvolver a Ocimar Versolato como marca. E aí eu falei, liguei para a minha irmã, que morava na França e pedi que ela procurasse ele, pra ver se ele tinha interesse no investimento e tal. Eu sabia que ele estava atrás disso, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A irmã de Ricardo era Ana Luiza Pessoa de Queiroz, que faleceu em 2016. Ana Luiza já morava há vários anos na França, onde era uma conhecida agente de moda, ou seja, ela tinha um showroom e ajudava a alavancar a carreira de jovens estilistas. Em um primeiro momento, Ana Luiza achou que o irmão estava brincando.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Depois de uns 15, 20 dias, liguei pra ela de novo e ela falou: ‘Não, não procurei não, achei que era brincadeira’. ‘Não, não é brincadeira. Procure o cara aí que eu tô falando sério. Aí ela procurou e tal, isso era final de ano. E aí ela me retorna no outro dia, superexcitada, que ele estava muito interessado, mas com muita pressa, queria que fosse no dia seguinte.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O dia seguinte, no caso, era véspera de Natal. Ricardo disse que não tinha chance dele faltar à ceia na casa da mãe para ir a Paris, mas, assim que o ano virou, ele desembarcou na capital francesa.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Primeiro dia de janeiro eu fui para lá. Aí a gente mais ou menos firmou as bases de uma sociedade, onde a gente iria investir um capital para levantar a empresa, fazer um turnover. O negócio dele estava atolado em dívidas e tal. E aí eu acertei essa base, chamei minha irmã para ser sócia. E aí começamos.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As dívidas foram renegociadas e quitadas e a marca Ocimar Versolato entrou em 1998 prontinha pra retomar o crescimento do ponto em que havia parado. Ou melhor, não foi do mesmo ponto, não. O ateliê saiu da rue du Renard, no Marais, para o número 12 da Place Vendôme, um dos lugares mais icônicos e caros de Paris, no exato prédio onde morreu o pianista Frédéric Chopin, e hoje está instalada a marca de relógios de luxo Chaumet.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu livro, Ocimar escreve que gostou muito do novo endereço, mas que a mudança foi uma escolha dos sócios. Já Ricardo Pessoa de Queiroz diz que não foi bem assim, não. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí, contra a minha vontade, eles decidiram, já convenceu minha irmã que tinha que mudar de endereço. E eu dizia, gente, a gente precisa continuar onde está e fazer produzir, vender. Você tem talento, você é supercriativo, você sabe&#8230; Fazer o que as pessoas gostam, especialmente o feminino, né? Ele é realmente um mágico nisso. Mas, enfim, resolveram mudar para a Place Vendôme, para um ateliê enorme e tal.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos argumentos de Ocimar pra convencer os investidores era de que o ateliê estava num clima meio pra baixo e que essa mudança pra Place Vendôme ajudaria a revigorar os ânimos da equipe. Se a nova localização teve algum efeito relevante, não sabemos dizer, mas a notícia que viria pouco depois certamente causou um impacto no time.  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele não acreditou. Ele levou um susto. Ele chegou para mim. Eu lembro que eu estava lá em Paris também. Ele chegou de queixo caído. Ele olhou para a minha cara e falou assim&#8230; Você não vai acreditar no que aconteceu. Eu falei&#8230; O que aconteceu? Ele falou assim&#8230; Eu não consigo nem falar. Eu estou com a perna bamba. Eu fui convidada pela Chambre Syndicale para fazer o desfile de alta-costura. Para entrar no calendário da alta-costur a. Eu falei&#8230; Eu não estou acreditando. E eu não tinha noção de que era muito difícil. Mônica, você não tem noção. Ninguém entra. Esse calendário não abre. E eles abriram para mim. Eu falei&#8230; Uau! Eu falei&#8230; Então, agora você calma. Faz tudo direitinho.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em junho de 1998, Ocimar Versolato passou a integrar o calendário oficial da semana de alta-costura. No áudio que você acabou de ouvir, a amiga Mônica Mendes relata a emoção do estilista ao descobrir que havia sido aceito nesse seleto grupo. Antes de avançar, vale esclarecer o que essa conquista significa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Câmara Sindical da Costura, dos Fabricantes de Roupas e Alfaiates para Mulheres foi fundada em 1868, em Paris. Em 1945, o termo Haute Couture, ou Alta-Costura, tornou-se uma patente exclusivamente francesa, e a instituição adotou o nome de Câmara Sindical da Alta-Costura. Desde 2017, com o título de Federação de Alta-Costura e da Moda, a organização concentrou o gerenciamento da alta-costura, do prêt-à-porter e da moda masculina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ponto central é que, desde 1945, passou a existir uma organização formal das apresentações e dos métodos de criação das casas de luxo francesas. Para ingressar nesse grupo, é necessário receber uma designação da Câmara e obter aprovação de uma comissão específica, vinculada ao Ministério da Indústria francês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as exigências, a maison deve manter ao menos um ateliê em território francês e empregar um número mínimo de artesãos em regime integral. Além disso, a casa de alta-costura precisa apresentar ao público duas coleções anuais – uma de verão, em janeiro, e outra de inverno, em julho – com pelo menos 50 modelos originais para o dia e a noite, entre outras especificações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É importante destacar que, naquele período, a alta-costura vivia um momento de transformação. Em julho de 1998, a Câmara contava com sete novos nomes, que haviam sido incluídos no calendário ao longo dos 18 meses anteriores. A proposta era acolher criadores como Thierry Mugler, Jean Paul Gaultier, Josephus Thimister e o próprio Ocimar Versolato. Tratava-se de um esforço para equilibrar a preservação do savoir-faire francês e também não perder o bonde da contemporaneidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Naturalmente, surgiram tensões entre as maisons tradicionais, que atendiam aos critérios, e alguns recém-chegados, cujas propostas envolviam valores mais acessíveis com prazos de entrega reduzidos. Na época, para se ter uma ideia, um vestido de alta-costura partia de cerca de 12 mil dólares. Os novos estilistas apresentavam criações com preços que podiam começar por volta dos 3 mil dólares e ainda diminuíam o tempo de espera: se antes ela chegava a dois meses, podia baixar para cerca de um mês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso se estendeu por alguns anos até que a Câmara estabelecesse as categorias de membros permanentes e convidados. Estes últimos não precisam cumprir todas as normas de 1945, mas contribuem com o desejado frescor para o evento. Para entender melhor isso, conversamos com outro brasileiro que, em 2011, virou membro permanente da Câmara. Pois é, Ocimar Versolato foi o primeiro a entrar para o clube, mas não foi o único. O estilista Gustavo Lins também chegou lá.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Tinham as casas principais, Dior, Chanel, Lacroix, à época, Armani, Valentino, Saint-Laurent não fazia mais alto-costura, então tinham pouquíssimas casas, tinham poucos desfiles de auto-costura na época. Então eles tiveram a ideia de chamar novas marcas para integrarem o calendário.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Natural de Minas Gerais, Gustavo Lins é formado em Arquitetura e se mudou para Paris no final dos anos 1980 para seguir carreira na moda. Passou por marcas de peso, como Kenzo, Louis Vuitton e Hermès. Em 2003, ele fundou a própria grife, marcada pela alfaiataria e o diálogo com silhuetas asiáticas, como o quimono japonês. Três anos depois, teve a sua primeira experiência como estilista convidado na semana de alta-costura.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Na primeira vez, quando eu fui convidado em 2006, eu fiz uma apresentação em 2007 e eu não fiz desfile. Eu fiz uma exposição. Eu não queria fazer desfile. Aí eles me obrigaram, na estação seguinte, seguinte, eles me disseram, agora tem que ter um desfile. Aí eu fiz, custou, custou três a quatro vezes mais do que a exposição, porque tudo é mais caro, e aí é uma coisa que você faz um desfile em janeiro, um em julho, e vai acumulando perdas, chegou uma hora que você não tem como continuar.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2011, Gustavo passou a integrar o grupo de membros permanentes, mas relata que a experiência foi difícil. Segundo ele, a exigência de cumprir todas as regras acabou se tornando insustentável.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque de um lado lado te dar muita visibilidade. Só que é uma faca de dois gumes porque você tem uma série de obrigações para respeitar e ao mesmo tempo a coleção que você faz do edifício de alta-costura não é o que você apresenta aos clientes do prêt-à-porter que eu tinha então, enfim foi um período péssimo da minha vida. Péssimo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atualmente, o estilista segue atuando na moda, mas de forma muito mais leve, dedicado ao prêt-à-porter na loja Lins Paris, no número 221 da rue Saint-Martin, nas proximidades do Museu Georges Pompidou, em Paris.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas voltando a Ocimar… para aquele garoto do ABC paulista que tinha o sonho de virar o maior estilista do mundo, ele havia alcançado o Olimpo da moda. </span><b><br />
</b><b><br />
</b><span style="font-weight: 400;">Em julho de 1998, Ocimar estreou na Semana de Alta-Costura. A apresentação aconteceu na luxuosa sede da maison, na Place Vendôme. Na passarela, o estilista mostrou a sua interpretação da obra do artista plástico venezuelano Jesús Rafael Soto, um dos pioneiros da arte cinética em meados do século 20. Daí vêm os vestidos de silhuetas gráficas e a escolha por tecidos papelados e paetês tridimensionais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma estola de seda desfiada criava a ilusão de pele sobre um casaco, enquanto uma novinha Gisele Bündchen dava os seus primeiros passos na carreira internacional. A trilha sonora, composta por clássicos da bossa nova, foi assinada por Michel Gaubert, um dos mais renomados diretores musicais da moda. Ele é especialmente conhecido por sua colaboração histórica com a Chanel, de Karl Lagerfeld aos dias atuais, com o novo diretor criativo Matthieu Blazy.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu acho que essa que eu mostrei para vocês foi a que é emocionante, porque o jeito que foi construído ali a Bossa Nova e não foi nem eu que fiz, foi o queridinho do Lagerfeld, que é o Michel Gaubert, que é um gênio de trilha, né? A gente só jogou pra ele os 200 CDs que o Ocimar tinha de bossa nova MPB, e ele pirou no estúdio com aquilo, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem comenta a trilha é Eduardo Corelli, um dos grandes amigos de Ocimar e colaborador na pesquisa musical conduzida por Michel Gaubert. Talvez você também conheça Eduardo por outro nome. Afinal, ele é um DJ histórico da noite brasileira: Selma Self Service, a primeira DJ drag queen do país.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu era a Selma Self Service. a primeira DJ drag do Brasil uma loucura na minha cabeça de aquariano de querer me vestir e fantasiar pra me esconder na timidez pra tocar e o Mauro Borges, que era do Massivo dono do Massivo falou, eu quero de quinta-feira duas quintas por mês mesmo sabendo que você trabalha no Detran mas duas quintas você consegue se montar e vir tocar aqui beleza”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sim, você ouviu corretamente: Selma Self Service trabalhava no Detran. Ou melhor, Eduardo Corelli ainda trabalha no Detran. São 37 anos divididos entre as picapes e o Departamento Estadual de Trânsito, onde hoje ele ocupa um cargo de diretor. E foi montado, durante uma noite no Massivo, que ele conheceu Ocimar, que estava acompanhado de Edson Cordeiro e Gisele Zelauy.</span><b><br />
</b><b><br />
</b><i><span style="font-weight: 400;">“E um dia chegou o Edson no Massivo justamente com quem? Com o Ocimar e com a Gisele Zelauy porque eles eram grudados era a turma grudada eu já sabia de revista da Ilustrada da, como chamava, a Joyce Pascowitch, quem era o Ocimar e quem era a Gisele Zelauy, que era a Gisele da época, cada época tem sua Gisele e ela era a Gisele daquela Época. Eu montada assim, vem o Edson Cordeiro na cabine quer apresentar um amigo eu falei, já sei quem é, estilista, brasileiro já sei conhece também a modelo que tá com ele daí ele subiu na cabine e falou com licença, deixa eu arrumar o botão do seu vestido eu falei, como você sabe que o botão tá abotoado errado eu fiz esse vestido era um Hervé Léger.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, como você deve imaginar, não foi simples para Edu Core lli quando colegas do Detran descobriram que ele era drag queen e atuava como DJ na noite paulistana. Edu passou a sofrer bullying e não podia usar nem o banheiro masculino nem o feminino. Tinha que sair do prédio, onde hoje funciona o MAC, para ir ao banheiro no Parque do Ibirapuera. Ele ficou tão abalado com a situação que, justamente naquele dia em que conheceu o estilista, havia pedido afastamento do órgão. Ao ficar sabendo disso, Ocimar fez a seguinte pergunta a Edu:</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“‘E você gosta de moda?’ Eu falei, eu adoro. Música, dá pra ver que você toca bem. Vamos comigo pra Paris? Foi assim. Foi assim na lata. Eu falei: Como? Eu tirei a mega sena. Eu falei: lógico”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nasce aí uma parceria musical que renderia várias colaborações de trilhas com o estilista – entre elas a do desfile comemorativo dos 30 anos do Iguatemi. Mas é daquela primeira apresentação de alta-costura, na Place Vendôme, que Edu guarda as melhores recordações:</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Pelo amor de Deus, tava o Mitterrand, gente. Tava babado. Eu tava lá, do lado do Michel Gaubert, montado de Selma, que depois eu toquei na festa que teve na casa dele. Tava um mar de modelada! E aí não cabia mais gente dentro, depois do pós-desfile. Foi maravilhoso. Foi incrível.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como deu pra notar o barulho em torno da semana de moda de alta-costura era – e é – imenso. O próprio Ricardo Pessoa de Queiroz comentou que a mídia espontânea gerada pelos desfiles era de um valor imensurável. Só que glamour e visibilidade apenas não pagam a conta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na primeira conversa que teve com sócio, o investidor fez uma analogia com a aviação: ele estava dando uma quantidade de combustível para fazer o avião de Ocimar decolar, e o estilista teria que fazer esse combustível render ao máximo, até que ele alcançasse a velocidade de cruzeiro e pudesse pilotar o avião com tranquilidade.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, como a gente viu, Ocimar já saiu queimando boa parte da sua querosene na mudança pra Place Vendôme, e o investimento previsto inicialmente foi consumido rapidinho. Então, em fevereiro de 1999, desembarca em Paris a advogada Maria Thereza Monte, enviada do Recife pelos investidores.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Fui para lá com uma função muito específica. Era um ano de contrato para permitir que a empresa, o grupo Ocimar Versolato, fizesse quatro eventos de moda, quer dizer, eventos, que eu digo, são coleções, de moda, no ano, as quatro coleções. E para ver se, a partir dali, o grupo continuaria a seguir com Ocimar Versolato ou se encerrariam as atividades por conta do limite de financiamento que tinha sido estabelecido por eles.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou seja, Maria Thereza foi a Paris pro vai ou racha. Elaborou um plano de negócios pra marca e tinha a missão de fazer com que esse planejamento fosse seguido à risca. E como Ocimar recebeu a nova integrante da equipe?</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele era uma pessoa que sabia ser muito encantadora, envolvente, de acordo com o que ele precisava nos momentos, na carreira dele.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Maria Thereza, por sua vez, que trabalhava há anos com consultoria de empresas, já tinha uma certa habilidade para lidar com situações delicadas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Quer dizer, eu sabia muito bem o meu papel ali, mas&#8230; O ingresso dentro daquele grupo e com o Ocimar Versolato, que era uma personalidade muito forte, então, era necessário uma pessoa que chegasse com um jogo de cintura para não ser&#8230;  Para não criar imediatamente um problema, que era tudo que não se queria à época. Eu precisava me instalar e me transformar em uma pessoa de confiança também de Ocimar.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final, Ocimar e Maria Thereza se deram muito bem e a advogada tem não apenas lembranças do trabalho, mas também de episódios de pura diversão. Como uma ida a Lisboa de última hora, pra assistir a um show de Ney Matogrosso com hospedagem no Ritz, a convite da filha de um banqueiro, e de uma festa de aniversário no apartamento de Ocimar, na avenue Montaigne, com Sidney Magal e outros sucessos da Discoteca do Chacrinha tocando a toda altura.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele era uma pessoa que… sabe um pouco ‘vida louca vida’, que você vive a mil por hora, você aproveita a sua vida a mil por hora, que dá a impressão mesmo de que alguma coisa dizia a ele que aquilo ele não ia ficar velhinho.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ricardo, que ia a Paris a cada dois ou três meses, também não teve problemas no trato com Ocimar. Mas ele acha que a personalidade centralizadora do estilista, que fazia questão de participar de todos os departamentos da empresa, acabou atrapalhando os negócios. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Acho que a gente talvez não tenha tido o know-how na época de enquadrar ele na condição de estilista e não deixar ele querer mexer em tudo. Isso é uma dificuldade. O criador não é para isso.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que acabou por determinar o fim da sociedade, no entanto, foi um fato bem específico, envolvendo a linha esporte da marca, focada em jeans. E quem relembra o caso é Maria Thereza.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Essa coleção dele, que era a primeira e a mais importante para o negócio, porque era o que ia sustentar a parte financeira do empreendimento, foi conceitualizada por ele e a produção dos protótipos e onde seriam produzidas as peças era na Índia.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha do país de produção foi motivada pelos bordados que Ocimar havia planejado para os jeans. Assim, o estilista, Maria Thereza e o chefe de produção foram até a Índia conhecer os ateliês e acertar os detalhes. Os protótipos foram feitos, enviados a Paris e apresentados pra venda. E a recepção foi ótima: a marca recebeu várias encomendas de lojas como Bergdorf Goodman, Neiman Marcus e a brasileira Daslu. Mas aí começou o pesadelo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A partir do momento em que as peças começaram a chegar da Índia e que nós começamos a distribuir para os compradores, começou a haver um problema que&#8230; não estava de jeito nenhum no que pretendíamos, que era uma diferença entre os números e o que seriam as peças vendidas.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trocando em miúdos: por um erro de modelagem, as peças que os compradores estavam recebendo não condiziam com o que havia sido apresentado nos protótipos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Houve um problema ali que foi um problema grave. A peça não estava vestindo do jeito que os protótipos vestiam. Então, as empresas que compraram, elas devolveram as peças. ‘Não vou comprar porque elas não estão de acordo.’Aí para a empresa foi um imprevisto pleno de consequências.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na época, Ocimar alegou que o erro havia sido da fábrica na Índia, não do time de Paris. O fabricante, por sua vez, disse que as peças foram produzidas seguindo exatamente os moldes enviados pelo ateliê da Place Vendôme. Para os investidores, o que ficou claro nesse episódio é que Ocimar e a equipe comandada por ele não estavam aptos a dar esse passo: de produzir roupas em maior escala pra tornar a marca viável comercialmente.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Em linguagem de negócio, a gente diz que o pior negócio é aquele que está quase dando certo. Porque no quase, você diz, não, vou apostar mais. Esse valor que eu tinha pré-determinado, a gente acabou investindo mais de três vezes o valor que eu propus inicialmente.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O erro na modelagem, no entanto, colocou um ponto final nas apostas dos investidores. E Ricardo foi a Paris comunicar a decisão a Ocimar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu mesmo falei para ele. Olha, como a gente combinou, meu investimento ia até aqui, e daqui para frente eu não sigo, vamos encerrar. Então é isso, investimento é isso, você faz, às vezes dá certo, às vezes dá errado. Eu fiquei com muita pena que não deu certo, porque eu reconhecia nele esse talento, tinha muita vontade que esse negócio desse certo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Maria Thereza também acompanhou esse encerramento, e se recorda dos momentos finais da sociedade que rendeu ao Brasil seu primeiro estilista na Câmara Sindical de Alta-Costura.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu me lembro que saímos do ateliê, Ricardo e eu, tristes, decepcionados um pouco com aquilo, mas ao mesmo tempo com aquela sensação de que tínhamos vivido na nossa vida um ano ímpar, uma coisa única.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa segunda queda bateu fundo em Ocimar. Em seu livro, o estilista conta que ficou angustiado, tinha insônia e sentia falta de ar repentinamente. Em uma viagem ao Brasil, foi diagnosticado com depressão profunda, acompanhada de uma síndrome do pânico. O tratamento incluía medicação e sessões de terapia e Ocimar decidiu que era hora de voltar ao país natal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Voltar em definitivo para o Brasil depois de tantos anos em Paris não foi uma decisão premeditada. Aconteceu naturalmente. Recordo-me muito bem de, nos últimos tempos, ao chegar a Paris, ser tomado por certa tristeza, um quê de melancolia, Em contrapartida, sempre que voltava ao Brasil me sentia ótimo.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, no ano 2000, Ocimar Versolato estava de volta a São Paulo, disposto a iniciar uma nova fase. Instalou-se em uma mansão na rua Panamá, onde atendia clientes que agora podiam encomendar ali, no Jardim Europa, vestidos sob medida do estilista formado em Paris. A depressão e a síndrome do pânico foram desaparecendo aos poucos, com o ritmo de trabalho e o apoio emocional da família e de amigos fiéis. Mas Ocimar também teve de lidar com as fofocas sobre os motivos do seu retorno ao Brasil e com o sumiço de amigos não tão fiéis assim, como lembra o cantor Edson Cordeiro.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu vi vários altos e baixos do Ocimar. Eu fui testemunha de como essas pessoas nunca mais apareceram, nunca mais ligaram, e como os convites deixaram de chegar pelo correio. Só quem ficou ao lado dele foram amigos muito íntimos, amigos verdadeiros, né? Porque eu fui testemunha desse circo, dessa indústria.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A arquiteta Raquel Silveira é outra amiga que acompanhou Ocimar dos anos 90 até os últimos dias. E conta que era difícil saber se Ocimar estava passando por apuros financeiros, porque ele era uma pessoa extremamente generosa. O estilista, inclusive, fez o vestido do terceiro casamento de Raquel, com o cantor Paulo Ricardo, em 2001. E não cobrou:<br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Não dava para saber. Ele alugava aquela casa maravilhosa, linda, nos Jardins, e era gente todo dia champanhe, todo dia. Sempre aquela figura generosíssima. Assim nunca na vida ele me cobrou um vestido. Nunca. Nem o de casamento.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Raquel falou também como era a postura do estilista durante os reveses na carreira e se lembra da boataria em torno do nome dele naquele início dos anos 2000.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele era uma pessoa muito forte nisso, porque falavam tudo, falavam que ele saiu devendo de Paris, que ele não sei o quê. Que ele não podia voltar em Paris, que não sei o quê. Que não podia entrar na Europa, blá, blá, blá, blá, blá, blá. É tão engraçado, né, que tinha muita gente que parecia que gostava da derrota dele.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No métier da moda brasileira, vamos combinar, Ocimar nunca fez questão de fazer muitas amizades. Em seu livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Vestido em Chamas</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, ele distribui várias alfinetadas nos colegas, às vezes recorrendo a pseudônimos como Graça Preá e Rinaldo Botelho. Atribui a Jean Paul Gaultier um comentário de que os criadores nacionais nem se dariam ao trabalho de comprar uma peça para fazer a cópia: vêm a foto de uma roupa em uma revista, copiam a frente e depois procuram uma parte de trás para completar a peça, criando uma mistura de Issey Miyake com Chanel. Conta ainda o caso de estilistas que teriam sido flagrados fotografando looks da Comme des Garçons no provador e ido parar na delegacia por causa disso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em fevereiro de 2001, no entanto, quando foi perguntado pelo repórter Francisco Chagas, do programa Over Fashion, se a moda brasileira seria muito influenciada pelo que vem de fora, Ocimar deu uma contornada na questão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar tinha realmente muito mais o que fazer. E nesse recomeço no Brasil precisava encontrar novos aliados entre os seus compatriotas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Um belo dia, meu telefone toca, André, André, esse é Ocimar Versolato, eu&#8230; O próprio. O próprio. Aí eu falei, oi, aí ele falou, eu quero fazer casa de criadores. Assim, tipo, nem se apresentou, nem precisava, né? Quero fazer Casa de Criadores, quero falar com você que eu quero fazer casa de criadores. Eu, ah, tá, claro, vamos conversar.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Você acabou de ouvir André Hidalgo, que fundou a Casa de Criadores em 1997, uma semana de moda que hoje está em sua 56a edição e nasceu com o propósito de funcionar como um celeiro de novos talentos da moda brasileira. Bem, até hoje André lembra do impacto que sentiu quando o estilista que já havia participado da semana de alta-costura parisiense pediu para integrar o line-up da sua CdC. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí, assim, quando ele falou que era para fazer Casa dos Criadores, eu falei, mas, Ocimar, você podia estar onde você quisesse, né? Tipo, por que você quer fazer Casa de Criadores? Ah, porque eu acho bacana. Ele era generoso também, em certos sentidos, sabe? E aí ele me disse que ele queria dar o aval dele para a nova geração. É isso. Quero dar o meu aval. Quero estar ali ao lado da nova geração. E ele era esperto. Ele queria ir onde estava também o novo, né? Essa movimentação do novo e tudo mais. E também porque ele tinha outros desafetos que não vêm ao caso aqui.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as conversas dos dois realizadas no casarão da Rua Panamá e no escritório de André, então localizado na Galeria Ouro Fino, Ocimar explicou que pretendia fazer uma apresentação dupla. Uma delas seria dedicada, claro, aos seus vestidos-assinatura. Já a outra marcaria o lançamento de uma nova linha, a O.V., com perfil mais comercial, focada em jeans e propostas tanto femininas quanto masculinas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ficou decidido que Ocimar abriria a edição seguinte da Casa de Criadores, a de número 10, realizada no estádio do Pacaembu, com a estreia da coleção de denim, e encerraria a semana com o desfile de looks noturnos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Corta para julho do mesmo ano e Ocimar fala com Francisco Chagas para o programa Over Fashion, pouco antes da apresentação da O.V. Como deu pra ouvir no papo, a coleção tinha 85 looks… E o bastidor dessa estreia do veterano de Paris na CdC foi, digamos, um tanto caótico, como lembra André. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Então, começava às 8 horas da noite, o desfile e tal, ok. Quando foi próximo desse horário, eu fui lá para dentro para a gente iniciar. Então, as pessoas já entrando. Eu falei, vamos começar o desfile. Quando eu entro, tem uma assistente minha com uma cara assim, transtornada. Aí, eu falei, o que foi? Aí, ela falou, André, vai lá no camarim.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vez de encontrar os modelos prontos, ou quase prontos, André se deparou com Ocimar ainda editando tudo, decidindo, naquele momento, o que cada um vestiria na passarela.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele olhava e falava assim, eu vou botar essa calça com essa camisa. Não, não, não. E aí, ele ia trocando, e ele ia estar fazendo a edição na hora. Mas, num processo que, querido, sabe que horas começou o desfile? Às 11 horas da noite. Ele era o primeiro. Depois dele, ainda tinham três ou quatro estilistas para desfilar. Todo o público, todo mundo esperando. As pessoas só não me mataram e saíram e foram embora porque tinha realmente muita expectativa em cima do desfile dele. Porque começou, te juro, Gabriel, começou às 11 horas da noite. Terminou mais de meia-noite.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a apresentação da linha jeans manteve a pompa e segurou a plateia, o desfile dos vestidos noturnos, sua marca registrada, não ficaria atrás.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O camarim estava servidíssimo. Aí, ele fez questão de ter champanhe no camarim pras modelos. Era muito Paris, assim, no camarim, mas muita champanhe. Muita champanhe pra os modelos já entrarem no clima e todas bebendo, celebrando. E ele recebendo muitos convidados no próprio camarim, muita cliente, muitas pessoas da imprensa também, né? E tinha champanhe também pros convidados, sabe assim? Com ele tinha que ser assim, né? É, era, e se não fosse&#8230; Não, ele tinha muito problema com pobreza.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para essa apresentação, o entorno da icônica piscina do Pacaembu foi transformado em passarela. E aquele desfile ficou pra sempre marcado na memória do evento.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Aí, o desfile dele na piscina foi apoteótico. Foi incrível. Foi super&#8230; Foi maravilhoso. Foi realmente muito bacana. Eu lembro que tinha um público muito estrelado. Muita socialite. E um público muito estrelado, assim. Das celebridades da época. Digamos assim, né? Porque realmente ele tinha um mailing muito interessante e diverso, né? Mas aí, foi assim, um festival de vestidos belíssimos.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Paralelamente à reestruturação da carreira, a volta de Ocimar ao Brasil marcou outra fase na vida do estilista. Ele virou um supertio.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Foi num Natal, que ele havia chegado de volta de Paris. Antes disso, eu não vi ele. Ele veio em outras oportunidades, mas a gente não vivia junto. A gente não tinha como se cruzar ali. Mas quando ele veio pro Brasil, eu encontrei ele num&#8230; Ele fez um Natal, chamou a família toda. E aí foi a primeira vez que eu vi ele, assim.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é Pedro Versolato, filho de Odamar, o irmão mais velho de Ocimar, que a gente ouviu no primeiro episódio. Pedro nasceu em 1987, o mesmo ano em que o tio se mudou pra Paris.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Antes dele ir pra Paris, ele me batizou, né? Eu sou o primeiro neto.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Pedro contou, nas rápidas passagens de Ocimar pelo Brasil na década de 90, eles acabavam não se encontrando. A imagem que ele tinha do padrinho era a de entrevistas que via na televisão. Ele só foi conhecer de fato o tio quando já era adolescente. E os dois se deram bem de cara.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Quando eu o conheci, ele me chamou pra ficar, tipo assim, no dia que a gente se conheceu, ele me chamou pra ficar na casa dele. ‘Fica aqui comigo aqui esse fim de semana? Fica aqui, no domingo você volta, tal. Aí tá bom. Aí a gente foi ficando e ele era uma pessoa, assim, ele&#8230; O trabalho era o primeiro lugar, na vida dele, mas ele se dedicava muito à família.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Yasmine Versolato, filha de Omara, que contou no episódio 1 como adorava ir com o tio a museus, tinha só 5 anos quando Ocimar voltou pro Brasil, mas também tem lembranças das festas de Natal na casa do estilista.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A festa de Natal era uma mesa cheia de frutas, toda a família, uma sala cheia de presentes pra todos. Era uma maravilha. Era incrível, era realmente incrível.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez uma das informações mais surpreendentes nessa apuração, pelo menos pra mim, foi o fato de Ocimar não só gostar de crianças, mas ter jeito pra lidar com elas. Ainda que fosse à maneira dele: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele tratava todos os sobrinhos como miniadultos. Ele falava com todos como se fôssemos adultos. Ele não tinha drama. Imagina fazer um drama com ele ou um escândalo. Não, não existia. Então, desde pequena ele ensinava etiquetas na mesa, os talheres, os copos. A hierarquia de sentar ele na ponta, a minha avó do lado. Logo vinham meus tios e as crianças na ponta.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o papel de Ocimar na formação dos sobrinhos foi muito além das regras de etiqueta. Tanto Pedro quanto Yasmine falam que o tio foi uma pessoa fundamental na vida deles. A relação era de pai e filhos, e Pedro chegou a morar com Ocimar em diferentes momentos, inclusive ainda durante a adolescência. Mais tarde, os dois trabalharam juntos em projetos, como o álbum</span><i><span style="font-weight: 400;"> Beijo Bandido</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Ney Matogrosso, em que Pedro fez o design gráfico. Já Yasmine conta que mora em Madri, onde trabalha como atriz, por causa do tio.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque ele me perguntou: ‘Onde você quer estudar, em que lugar você queria estudar, o que você queria estudar’. E eu falei, com a boca pequena, assim: ‘Olha, eu queria ser atriz’. E esperava alguma reação negativa dele, e ele falou: ‘Não, super, super vamos, vamos: em que lugar você quer estudar?’ Então tivemos várias opções assim, e no final foi Madrid, foi uma paixão à primeira vista.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Yasmine se mudou para Madri em 2016, um ano antes da morte do estilista. E, nesses anos de convivência com o tio, acumulou um baú de recordações que revelam um lado amoroso de Ocimar a léguas de distância do jovem estilista que queria subir a qualquer custo. Uma das lembranças mais antigas de Yasmine é também uma das mais ternas, e tem como palco o casarão imenso e com pouquíssimos móveis da rua Panamá:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Minhas primeiras memórias eram de nós dois dançando juntos valsa no meio do salão. Dançamos valsa, caíamos, levantávamos e íamos dançando.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No próximo e último episódio de Ocimar Versolato do Avesso:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ocimar, você inaugurou no ano passado sete lojas, 15 milhões de reais pra cima de investimento. Não foi ousadia demais pra você, num país com crise, com dificuldade, lançar uma grife de luxo já com lojas nos melhores shoppings, melhores endereços de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília?”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Foi um dia bem estranho, porque estava todo mundo lá, pediram uma reunião com todo mundo e, nessa reunião, disseram: ‘Muito obrigado, amanhã ninguém mais abre, ninguém mais precisa vir’.​ Foi bem brusco. Bem brusco.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí, no outro dia eu fui trabalhar e quando eu recebi um telefonema de manhã falando que ele tava, tinha tido um AVC e tava no hospital, né? E lá no hospital, parece que deu entrada com uma pessoa não conhecida, porque acharam ele a alguém ligou ah de madrugada falando que tinha uma pessoa passando mal, na rua tal, tal, tal.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sociedade relâmpago que abriu e fechou sete lojas no Brasil, a empreitada no ramo de cosméticos e a partida cedo demais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar Versolato do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil e faz parte da série Do Avesso, que resgata grandes nomes da moda brasileira. O primeiro biografado foi Clodovil Hernandes, que teve sua trajetória destrinchada em seis episódios, também disponíveis nas principais plataformas de áudio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do programa Over Fashion do canal do Youtube Over Fashion por Francisco Chagas. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Ocimar Versolato do Avesso: A escalada até a Lanvin  </title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/ocimar-versolato-do-avesso-a-escalada-ate-a-lanvin</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[admin]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Dec 2025 13:45:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[ocimar versolato]]></category>
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		<category><![CDATA[podcast ocimar versolato do avesso]]></category>
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					<description><![CDATA[No segundo episódio: as primeiras coleções que conquistaram o mercado internacional; a chegada à Lanvin, o gosto amargo da crítica e as amizades desfeitas pelo caminho; o desfile no Brasil com Vera Fischer, Hebe Camargo e Rita Lee na passarela; e os figurinos icônicos para Sônia Braga, Ney Matogrosso e Edson Cordeiro. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe style="border-radius: 12px;" src="https://open.spotify.com/embed/episode/5uGh0TDc9wsZRAMcwkCyM5?utm_source=generator" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-testid="embed-iframe"></iframe></p>
<p><b>Ouça Ocimar Versolato do Avesso em: </b><a href="https://open.spotify.com/show/0jZ7TKc4DvbeMsHkVXrA4Y?si=4284230fbec84b3b" target="_blank" rel="noopener"><b>Spotify</b></a><b> | </b><a href="https://podcasts.apple.com/us/podcast/ocimar-versolato-do-avesso/id1860897595" target="_blank" rel="noopener"><b>Apple Podcasts</b></a><b> | </b><a href="https://music.amazon.com/es-co/podcasts/9e3239fa-2feb-47bc-9d54-61217074fa72/ocimar-versolato-do-avesso" target="_blank" rel="noopener"><b>Amazon Music</b></a><b> | </b><a href="https://link.deezer.com/s/31QWLHrGKB8iqlxHj6X8C" target="_blank" rel="noopener"><b>Deezer</b></a></p>
<h3><b>Se preferir, você também pode ler este podcast:</b></h3>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí quando ele foi fazer esse desfile, ele me explicou, ele falou: ‘Vera, eu quero desconstruir a tua imagem, sabe? Eu quero botar você com uma&#8230; Uma roupa preta. Mas eu quero que você use uma peruca branca, parecendo uma coisa louca.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você tem o ouvido apurado, já deve ter adivinhado que Vera é essa. Sim, é a diva Vera Fischer, que conversou com a gente e relembrou o dia em que participou do primeiro desfile de Ocimar Versolato no Brasil, em 1996.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí ele sugeriu&#8230; Eu não sei se era uma saia longa ou uma calça pantalona longa, com aquele&#8230; Com uma coisa transparente preta, toda bordada por cima. Então ele falou pra mim assim&#8230; Ah, eu tenho um sutiã assim. Eu falei, vamos usar sem sutiã? Aí ele falou, você tem coragem? Eu falei: ‘Eu tenho! Eu estou fazendo uma coisa diferente.’ E foi um furor no dia do desfile! Porque as outras atrizes também estavam meio caracterizadas. Mas o meu chamou muito a atenção.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vera não exagera. A imagem imponente da atriz, com os seios à mostra sob o top transparente bordado, foi capa da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Caras</span></i><span style="font-weight: 400;"> e reproduzida por diversas publicações na época. Mas o fato é que o desfile, como um todo, foi um grande estouro. E serviu pra tornar o nome de Ocimar conhecido no país pra além do circuito da moda. Na TV, nas revistas, nos jornais, Ocimar Versolato era o brasileiro que tinha conquistado Paris.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama. Eu sou Gabriel Monteiro. E este é </span><i><span style="font-weight: 400;">Ocimar Versolato do Avesso</span></i><span style="font-weight: 400;">, o podcast da ELLE Brasil que conta a história do estilista nascido em São Bernardo do Campo, que alcançou o topo da moda, caiu e se levantou mais de uma vez, numa montanha-russa que continuaria até a sua morte, há oito anos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste segundo episódio, a gente vai acompanhar a escalada de Ocimar no mercado, que culminou com a sua contratação por uma das maisons mais tradicionais da França.</span></p>
<p><i>“Agora, o Ocimar fez um trabalho, fez um desfile aqui no Brasil, que foi uma das coisas mais geniais que eu já vi na minha vida. Olha, que eu já vi desfile, tá? Eu já vi tudo quanto é desfile que você puder imaginar. Eu já assisti, assim, os primeiros desfiles do John Galliano, do Alexander McQueen, já vi tudo isso. Comme des Garçons, na época áurea dos anos 80, de Yohji Yamamoto, já vi tudo. Já vivi tudo isso. Lagerfeld com Chanel nos anos 80, já assisti tudo isso. Mas o Ocimar fez um desfile aqui, que foi uma das coisas mais geniais e incríveis que eu já vi na minha vida.”</i><b></b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem fala aqui sobre o desfile que Ocimar fez em dezembro de 1996 em São Paulo é Mônica Mendes. E, como deu pra perceber, ela fala com conhecimento de causa. Mônica, que hoje comanda a agência de consultoria de marketing Reset, foi por muitos anos o braço direito de Eliana Tranchesi da Daslu, onde era diretora de marketing e PR nacional e internacional, além de ter assessorado diversas grifes de luxo no Brasil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desfile em questão foi realizado na histórica Estação Julio Prestes, hoje Sala São Paulo, em comemoração aos 30 anos do Shopping Iguatemi, com direção de José Maurício Machline. O evento teve 1.600 convidados, que receberam o convite em uma caixa cor-de-rosa e preta, juntamente com um boné de couro também preto, a marca registrada de Ocimar.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Na passarela de 75 metros, em formato hexagonal, 28 personalidades desfilaram criações do brasileiro, que haviam sido lançadas previamente em Paris. Além de Vera Fischer, que a gente ouviu no início do episódio, participaram do casting nomes como Débora Bloch, Fernanda Torres, Daniela Mercury, Hebe Camargo, Carolina Ferraz, Claudia Ohana, Christiane Torloni, Denise Fraga, Irene Ravache, Maitê Proença, Patricia Pillar, Rita Lee, Simone, Silvia Pfeiffer e Tônia Carrero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se o elenco era formado só por celebridades nacionais, a equipe de beleza veio toda da França, por exigência de Ocimar, e incluía o cabeleireiro estrelado Nicolas Jurnjack, como lembra Mônica:</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">“Os cabelos que o Nicolas Jurnjack fez nessa turma era uma coisa fora da realidade. Você olhava assim para elas e você falava meu Deus, eu não estou acreditando que estou vendo a Hebe Camargo com esse cabelo. A Rita Lee assim, com esse cabelo, com essa maquiagem. E ele fez elas desfilarem como modelo. Ele colocava a roupa de modelo, colocava tudo de modelo. Foi um desfile que eu fiquei chocada até hoje. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa sacada de tratar as atrizes como modelos, de fato, fez a apresentação ter todo um impacto na plateia. Rita Lee, por exemplo, entrou total na personagem, como mostra essa entrevista feita nos bastidores por Renata Ceribelli para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Vídeo Show</span></i><span style="font-weight: 400;">:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A ovelha negra Rita Lee teve que se concentrar bastante e levou até um incenso para energizar o camarim.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Renata Ceribelli) – Conta pra gente esse que estilo é esse de Rita Lee na passarela!</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">(Rita Lee) – É um estilo antipático. Porque eu, como manequim e atriz, sou antipática.<br />
</span></i><i>(Renata) – E como vai ser sua performance na passarela?<br />
</i><i><span style="font-weight: 400;">(Rita) – Eu não posso contar, absolutamente.</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">(Renata) – Nada, nem um trechinho? Uma ensaio assim, como você ensaia? Pelo menos a expressão do rosto…”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, a gente pode dizer, então, que esse desfile marcou o reconhecimento no Brasil do sucesso que Ocimar estava fazendo lá fora. E agora a gente vai retomar do ponto em que paramos no episódio anterior, para acompanhar como o estilista alcançou esse patamar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar estava formado no Studio Berçot, mas sem grana nenhuma e precisando ampliar os seus contatos. Ele começou então a fazer assistência para outros designers. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro deles foi Gianni Versace. Era 1988 e o italiano estava em Paris para fazer o figurino do espetáculo de música e dança </span><i><span style="font-weight: 400;">Java Forever</span></i><span style="font-weight: 400;">. A performance tinha como estrela a cantora e bailarina Zizi Jeanmaire, uma das grandes vedetes francesas da década de 1950. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A música que você acabou de ouvir é dela. Trata-se de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mon Truc en Plumes</span></i><span style="font-weight: 400;">, cantada ao vivo por Zizi no programa estadunidense The Ed Sullivan Show, em 1965. Se você não é dessa época, mas reconheceu a melodia, há uma explicação: essa faixa foi recentemente recuperada por Lady Gaga, durante as aberturas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Aliás, toda a performance original, que envolve leques de plumas, foi reverenciada pela Mother Monster na apresentação à beira do Rio Sena. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando à ligação entre Ocimar e Gianni: foi o estilista Antonio D’Amico, namorado e braço direito do fundador da Versace, que ficou responsável pelos ajustes dos looks de Zizi. Ocimar, por sua vez, o ajudou nessa tarefa. Os trajes eram todos bordados e chegaram a ser desfilados na apresentação de inverno 1989 da Versace. Em seu livro, Ocimar recorda que o peso das peças era tão grande, que foi um desafio para a dançarina usar os looks naquela época, aos 65 anos de idade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar trabalhou ainda como assistente de Antonio D’Amico e, consequentemente, Gianni, na primeira coleção de alta-costura da Versace em Paris. O desfile foi no Museu d&#8217;Orsay, em janeiro de 1989, no formato de um jantar intimista, como costumavam ser as apresentações da Atelier Versace. E toda a experiência próxima de Gianni fez o olhar de Ocimar em relação à moda do estilista mudar. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Cá entre nós, confesso que detestava a moda de Versace antes de conhecê-lo pessoalmente. Não tinha cabimento um estilista de peso como ele fazer aquelas coisas cafonas, que davam a impressão de a mulher ter saído na rua usando a cortina de casa de campo. Mas esse é o típico pensamento do estudante de moda que acha que entende de tudo. Depois, eu compreendi o motivo pelo qual Versace era considerado um mestre, e porque todos o reverenciavam. O temperamento e as atitudes dele eram de uma constante e colossal generosidade, refletida, inclusive, nos excessos de suas criações. Passei a achar a moda dele admirável.” </span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Foi outro couturier, porém, que ajudou Ocimar a consolidar seu nome em Paris. A indicação partiu de Marie Rucki, a diretora do Studio Berçot, que praticamente apadrinhou esse início de carreira do brasileiro. Segundo Ocimar, ela defendia que ele não começasse em uma grande maison, mas ao lado de um profissional reconhecido que ajudasse a engordar a agenda de telefones. No caso, Hervé Léger.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A jornalista Lilian Pacce, que também conheceu Ocimar por meio de Marie, recorda dessa fase:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E na verdade eu conheci Ocimar através da Marie, em uma dessas vezes que ela veio para cá. Ele veio meio que de assistente dela, porque ele foi aluno dela. E ok. Daí ele entrou no Hervé Léger e foi a Marie. Ele começou com o Hervé Léger, que é o rei do vestido bandagem, né? Há divergência se é o Alaia ou Hervé Léger, mas, na verdade, a moda do bandage mesmo, embora o Alaia fizesse, é do Hervé.”</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui vale a gente dar uma breve biografia do primeiro chefe de Ocimar. Hervé estudou história da arte na Escola de Belas Artes de Paris, mas abandonou o curso e virou chapeleiro. Em 1981, foi incentivado por Karl Lagerfeld a entrar na moda. Com Lagerfeld, Hervé atuou na Fendi e, depois, na Chanel. Ele também colaborou com a Lanvin e Diane von Furstenberg antes de inaugurar a própria butique, em 1984. Uma curiosidade: o sobrenome de Hervé, na verdade, era Peugnet. Foi o próprio Kaiser quem sugeriu que ele adotasse o nome Léger, derivado de “légèreté”, termo francês para “leveza”.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“Tomei um choque logo na chegada. Ele me recebeu vestido numa jaqueta de daim camelo com franjas enormes balançando nas mangas, calças jeans 501 da Levi &#8216;s e bota cowboy caramelo pespontada de salto chanfrado… muito estranho. Hervé me mostrou a coleção que havia preparado. A coisa mais patética que eu já tinha visto.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é a descrição de Ocimar, em seu livro</span><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> sobre a primeira vez em que viu Hervé Léger. O brasileiro segue ainda falando que a coleção, inspirada em hortaliças, parecia um festival de verduras: tinha um vestido de lycra com o decote bordado parecendo um alface, a mulher tomate e a mulher repolho. Mas, embora desdenhasse das criações do chefe, o fato é que, com o novo emprego, Ocimar alcançou um dos objetivos que tinha nesse trabalho: abrir portas. Isso fica evidente quando ele teve a oportunidade de representar Hervé no Festival de Cannes de 1990, vestindo estrelas do cinema em nome da grife.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem tem boas memórias dessa temporada em Cannes é a francesa Corinne Lucquiaud, que conheceu Ocimar no ateliê de Hervé, onde ela trabalhou na mesma época. Corinne é stylist e designer de chapéus – cria acessórios para desfiles de Rick Owens e Giambattista Valli, entre outros – e naquele início dos anos 90 se divertiu com Ocimar nas festas repletas de estrelas que rolavam durante o festival de cinema no balneário francês.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“One of the best, the funniest, you know, memory is the Cannes Film Festival, because we were between Anjelica Huston, Jack Nicholson, Ocimar and me. And I&#8217;ll never forget, I was wearing a rubber dress that I bought in New York, latex, like now…”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Corinne lembra de uma passagem particularmente divertida, em que eles estavam em uma reunião que tinha Anjelica Huston e Jack Nicholson entre os convidados. A noite acabou em gargalhadas com Ocimar caindo de smoking em cima de um canteiro de flores e o vestido de látex de Corinne se quebrando em pedacinhos quando eles voltaram para o apartamento que tinham alugado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tombo no canteiro de flores mencionado por Corinne é relatado no livro de Ocimar e rendeu outro episódio bem-humorado. O estilista levou apenas dois smokings na viagem: um preto e um branco. O preto foi destruído na queda no jardim. Restou, então, a outra alternativa pro jantar de encerramento. Vestido de smoking branco, ele acabou sendo confundido com os garçons – e penou a noite inteira para conseguir alguma bebida, já que o staff da festa achava que ele era algum colega folgado infiltrado no meio dos convidados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante os três anos em que Ocimar trabalhou com Hervé, a relação entre os dois passou por altos e baixos. Houve estranhamento no início, mas também jantares e baladas, que eles curtiram como amigos próximos. Ambos compartilhavam o interesse pela sensualidade nos vestidos e desenvolveram técnicas juntos, como a de esconder o zíper em modelos extremamente ajustados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o fato é que Ocimar tinha uma autoestima, digamos, bastante elevada, e não demorou a chegar à conclusão de que poderia ir muito mais longe sozinho. No processo de criação do ateliê, o cargo que ele exercia ia bem além de ser um mero assistente: Ocimar fazia croquis e criava peças que, no fim, levavam a assinatura do francês. Pelo menos era isso o que ele contava para a modelo Gisele Zelauy, que a gente já ouviu no episódio passado e conheceu Ocimar justamente em um desfile de Hervé. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E o Ocimar, na verdade, ele… Ah, ele falava assim, que o Hervé falava pra ele: ‘Ah, fica fazendo design, fica fazendo mais desenho, fica fazendo mais, dá mais, dá mais’. E foi pegando as ideias do Ocimar, os desenhos do Ocimar e assinando ele. Mas a ideia original veio do Ocimar. Por isso que o Ocimar, ele viu que ele tinha… que ele tava no lugar errado, que ele podia crescer muito mais, que ele não precisava ficar embaixo da asa de ninguém.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos 33 anos, então, Ocimar deixa o ateliê de Hervé Léger para criar sua própria marca. E aí entra em jogo outro grande talento do estilista: ele tinha o dom de atrair e convencer investidores. Uma das primeiras a quebrar o cofrinho e apostar no designer foi a própria Gisele, juntamente com o fotógrafo Fabio Toscano, com quem ela era casada na época. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Isso foi acho que em 93, quando ele me pediu dinheiro, que ele ia abrir a companhia dele. E eu e o meu ex-marido, a gente estava em Nova York já. E a gente… Eu acho que vai ser legal, investir nessa companhia, porque ele é supertalentoso. Nosso amigo, porque ele era amigo, assim, a gente, ele se mudou pro meu apartamento em Paris.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer dizer, Gisele e Fábio, não só investiram em Ocimar como cederam o apartamento para ele. E foi lá que o estilista criou a sua primeira coleção.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Com eu tinha um apartamento em Nova York e outro em Paris, ele acabou ficando com o apartamento de Paris, porque ele não tinha dinheiro, assim, pra ter um ateliê ainda. Aí ele abriu o ateliê quando a gente&#8230; Quando ele conseguiu todos os investors. O dinheiro não foi, não veio só meu, ele conseguiu vários investors. Aí ele abriu um ateliê dele. Eu não me lembro que rua que era, mas acho que era no Marré. Tudo novinho. Tudo começando, assim, sabe? Cheio de ousadia, cheio de hope.. E ele colocando toda a criatividade dele pra fora, e era maravilhoso como ele montava os vestidos.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gisele Zelauy teve ainda outra participação fundamental nessa arrancada de Ocimar na moda. Ela ajudou o amigo a conquistar os primeiros grandes compradores. E eles eram ninguém menos do que os buyers da Bergdorf Goodman, a luxuosa loja de departamentos de Nova York.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E ele veio pra Nova York e eu fiz, tipo, um meio, um minifashion show pras buyers do Bergdorf. Porque o que ele precisava era ter um department store comprando a roupa dele. E o Bergdorf bateu o olho nele e falou: ‘A gente quer você exclusivo.’”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma amiga que investe dinheiro na sua marca, cede o apartamento para ser seu ateliê e ainda ajuda na conquista dos seus primeiros compradores, é de se imaginar que Ocimar tenha ficado grato à Gisele Zelauy pelo resto da vida, né? Bom, não foi bem isso o que aconteceu. Mas isso a gente vai ver mais pra frente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por enquanto, vamos entender a importância que esses compradores da Bergdorf Goodman tiveram na ascensão de Ocimar. E quem explica como ele conseguiu furar a bolha da moda é Mônica Mendes.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele furou essa bolha porque a Bergdorf Goodman comprou ele. E essa bolha é furada exatamente assim, tá? Eu sei porque eu trabalho com moda há muitos anos, e trabalho com moda internacional há muito tempo. Eu furei essa bolha com a Daslu também, então eu sei como é que é. Quando você chama a atenção de um grande comprador, tá, um grande comprador já comenta, já fala que ela descobriu uma grande estrela.E aí a imprensa internacional toda&#8230; A americana, principalmente, a francesa e a italiana, são as três que contam, pra poder despontar um nome etc, já falam: ‘Epa, então a gente tem que estar de olho nisso’”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer dizer, o mercado e a imprensa internacional estão sempre em busca do próximo grande nome da moda. Nessa procura, Mônica explica, não importa de onde veio o designer ou qual a estrutura financeira por trás dele. Todo mundo quer descobrir aquela gema rara do novo talento, o jovem criador revolucionário, afinal, essa é uma indústria que precisa de novidade e sangue fresco para sobreviver. E em meados da década de 90, o nome de Ocimar Versolato estava em alta na casa de apostas da moda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, se encantar pelo estilista brasileiro, muitos dizem, era fácil. O primeiro desfile, em março de 1994, na semana de moda de Paris, inclusive foi todo feito na parceria: as modelos, o maquiador, o cabeleireiro e até quem entregou os convites trabalhou por amizade ou por acreditar no potencial do designer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na passarela, a coleção tinha principalmente vestidos de cashmere de lã, em tons de cinza, preto e padronagem xadrez, mas que valorizavam o corpo e deixavam a pele à mostra. Segundo o próprio Ocimar sobre a estreia no calendário de prêt-à-porter:  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Na primeira coleção que lancei em Paris, inspirada no jet set dos anos 1970, realcei os decotes, fendas e transparências da maneira mais sofisticada que pude, sem qualquer vestígio de vulgaridade e isso encantou o mundo inteiro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente aproveita a deixa aqui para apontar algumas características da moda de Ocimar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, tudo era feito em moulage, que é a modelagem construída diretamente no corpo da cliente – ou, claro, em um busto – de forma que o tecido é moldado, com o auxílio de pregas, pences, drapeados, torções, etc. No caso de Ocimar, todos relataram que ele fazia isso de um jeito muito ágil e surpreendente, como conta Mônica: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu vi ele em cena, sabe, fazendo vestido no corpo das mulheres. Era uma coisa surreal. Ele pegava uma musseline, colocava no corpo, ia drapeando aquilo na mão, fazendo uma moulage, costurando. Quando você percebia, primeiro que era um tecido plano e ele ia transformando aquele tecido plano num vestido em algo que você ficava, assim, era de cair o queixo. E nisso, eu vi ali a Naomi Campbell, ele fazendo isso na própria Naomi. E a Naomi Campbell saiu de lá falando pra todas os modelos que ela tinha encontrado um gênio, entendeu? </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outras assinaturas eram os pontos das costuras que não costumavam aparecer, os tecidos, em sua maioria, transparentes e leves, as alças, quando presentes, finíssimas. Muitos looks tinham um corset por baixo estruturando tudo, enquanto os recortes nas pernas e no colo eram bem angulares e as costas geralmente cavadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma crítica da jornalista de moda Erika Palomino para a </span><i><span style="font-weight: 400;">Folha de São Paulo </span></i><span style="font-weight: 400;">em dezembro de 1996, ela descreve o estilo de Ocimar da seguinte forma: “a roupa conquista pela riqueza de materiais, corte arrojado e preciso, o acabamento impecável, a sensualidade e a feminilidade à toda prova.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conversei também com Costanza Pascolato por telefone, que decidiu não participar do podcast, mas quis dizer rapidamente o que achava da moda do paulista. Ela afirmou que não chegava a considerá-lo um gênio, como muita gente dizia, mas reconhecia a sua qualidade de destacar o corpo de forma sexy.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por sinal, um dos motivos de Ocimar ter se destacado na cena internacional naquele momento foi que a sensualidade levada pelo brasileiro às passarelas estava na contra-mão das macrotendências do início dos anos 1990, como a desconstrução da forma e das noções tradicionais da feminilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um trecho da sua autobiografia, ele diz:  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A tendência grunge exerceu uma influência negativa sobre o sexo, então senti a necessidade de fazer alguma coisa sensual, com cortes, tecidos e cores, de maneira que a roupa refletisse um objeto de prazer tanto para quem veste como para quem olha. Em rápida análise, a década de 1980, em decorrência da Aids, distanciou o sexo das pessoas, tornou o prazer maldito, gerando uma moda assexuada, despojada, introvertida, espelho de um receio generalizado de se falar e de se fazer sexo, tranformando-o até numa experiência malvista. Eu achava isso uma bobagem, por razões simples e óbvias: à partir do momento em que se está bem informado, não faz sentido reprimir o instinto humano.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, durante aquela década, a moda precisou rever o que pensava sobre o desejo. Afinal, o mundo lidava com as perdas significativas da epidemia de HIV. Vale dizer, Ocimar não era o único atento a isso, mas tinha clareza sobre o assunto enquanto criava. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um brasileiro agita Paris: esse era o título do texto publicado em uma edição da ELLE Brasil, em 1994, assinado por Regina Guerreiro, então diretora de redação da revista: “Meu queridíssimo amigo Ocimar Versolato acaba de entrar com tudo nesse decantado Olimpo. Com a cara e a coragem, apresentou uma microcoleção (apenas 16 modelitos) para a imprensa mais esnobe do mundo, que é a de moda, claro. E… DEU CERTO!” </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Regina escreve aqui sobre o segundo desfile de Ocimar em Paris, em outubro de 1994, que a gente já deu um spoiler no primeiro episódio e é apontado por vários jornalistas como o melhor desfile da sua carreira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No verão de Ocimar, a lã fria, tão comum na fabricação de ternos, foi parar na construção de vestidos noturnos bem contemporâneos, assim como tecidos de camisaria, como conta a jornalista Lilian Pacce, que estava no hotel Lutetia naquele dia.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E era uma coleção deslumbrante, porque ele pegou só tecidos de camisaria. Ou seja, imagina assim, uma tricoline listradinha, branquinha. E fez roupas de festa, assim, que eram lindas. Você via que ali tinha um trabalho de modelagem, que era uma coisa impressionante. E era uma festa que nunca ninguém tinha visto. Porque ele estava usando tecido de camisaria para uma festa. Então, foi emocionante, emocionante.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lilian se lembra que ficou impressionada ao ver nesse desfile o fotógrafo Sebastião Salgado, que mais tarde se tornaria um grande amigo de Ocimar. Naquela ocasião, Sebastião havia sido contratado pela revista francesa Paris Match pra fazer registros daquele brasileiro em ascensão e estava na boca de todo o mercado de moda, inclusive nas agências de modelo, como conta Silvia Pintor.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu lembro que a minha agência falou, falou: &#8220;Você tem que ir ver o Ocimar Versolato&#8221;. Ele tá fazendo umas coisas lindas, ele tá cheio de menina que quer fazer o desfile dele. Eu falei: &#8220;Claro&#8221;. Aí eu fui e deu deu certo da gente trabalhar juntos. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Silvia Pintor foi um dos grandes nomes brasileiros nas passarelas internacionais nos anos 1990. Quem coleciona as edições da ELLE Brasil deve se lembrar de uma capa bem icônica que ela estampou, em janeiro de 94, fotografada por Ruy Teixeira. Silvia mora há 27 anos em Nova York e segue na carreira de modelo, mas agora é uma fit model, ou seja: ela participa da prova de roupas para a produção de marcas como GAP e Oscar de la Renta, pra ajeitar o caimento, ver se a peça não esta pegando aqui ou ali. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">“É um trabalho assim, muito mais técnico, mas eu adoro. Adoro, adoro. Porque não tem pressão. Nesses últimos 20 anos da minha vida, só o que eu faço é isso, e eu adoro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em março de 1995, no entanto, Silvia estava no olho do furacão fashion. E se lembra de quando participou do terceiro desfile de Ocimar, ao lado de outras tops, como Karen Mulder, Naomi Campbell, Patrícia Hartmann, Claudia Maison e Gisele Zelauy. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu nunca tinha ouvido falar dele, de repente ele estava em todos os lugares, né? De repente assim, cheguei a fazer o desfile, eu falei: ‘Nossa!’ Eu falei: ‘Gente, parece que eu estou fazendo Dolce &amp; Gabbana, parece que eu estou fazendo Chanel’ Todas essas meninas aqui, era incrível. Realmente, é… São poucos os que conseguem. Se tem uma estilista que consegue colocar numa passarela, num show, Linda Evangelista, Naomi, Karen Mulder, é, não tinha tantas, um estilista consegue isso, ele, ele vai ficar assim na boca de todo mundo da, da, da, da indústria fashion. É, ele tava muito Porque ele tava poderoso.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na nossa conversa com Lilian Pacce, ela comentou que o terceiro desfile é a prova dos nove de um estilista. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Se você lança três coleções e vai bem, quer dizer que, digamos, o seu caminho está garantido.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o brasileiro passou na prova. Um dos destaques dessa terceira apresentação foram os primeiros modelos de tailleur de Ocimar, que queria expandir a sua oferta de produtos, antes majoritariamente feita de vestidos. A essa altura, a grife já era vendida nas maiores multimarcas do mundo, como Sak&#8217;s, Bergdorf &amp; Goodman, Neiman Marcus, Barney&#8217;s, Harvey Nichols e Harrods. E, com esse sucesso todo, o nome de Ocimar passou a ser cotado para a direção criativa de diferentes maisons internacionais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em passagem pelo Brasil em 1995, Ocimar deu uma entrevista para o programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Roda Viva</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Cultura, e falou sobre as especulações em torno dele.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Não, porque é o seguinte, depois do desfile, do segundo desfile, teve várias pessoas que ligaram pedindo para eu trabalhar. E eu acho que a minha situação é muito frágil. Eu espero estruturar um pouco mais a minha própria história para poder fazer o trabalho para alguém. Senão a força se divide. Eu tenho que concentrar toda a minha força para o que eu estou fazendo. Ainda está frágil. E eu acho que isso daqui a duas estações eu posso assumir algum outro compromisso e desenhar uma coleção para uma outra Maison. Hoje eu não tenho condições.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo contou Ocimar pra bancada de entrevistadores, ele já havia sido convidado por cinco maisons. Entre elas, a Givenchy, que acabou contratando outro talento em franca ascensão na época: um certo estilista britânico que estava dando o que falar, chamado John Galliano.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A entrevista no </span><i><span style="font-weight: 400;">Roda Viva </span></i><span style="font-weight: 400;">foi ao ar em maio de 1995. E Ocimar não seguiu seus próprios conselhos de se estruturar mais antes de assumir outra marca. Apenas dois meses depois, o estilista foi confirmado na direção criativa da Lanvin.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso mesmo: aos 34 anos de idade, Ocimar Versolato assinou um contrato com a Lanvin, a maison de moda francesa mais antiga em operação. Fundada em 1889 por Jeanne Lanvin, a marca começou como uma casa de chapéus em Paris, mas expandiu para o vestuário feminino, linhas masculinas e perfumes. Ocimar substituiu a estilista Monique Morlotti no prêt-à-porter feminino. A alta-costura já não existia mais, pois foi encerrada em 1992. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vale aqui uma contextualização: naquele momento, a moda estava passando por uma série de mudanças na direção criativa das maisons, com o objetivo de trazer energia nova para as casas. E esses meados dos anos 90 tiveram ainda uma particularidade: havia mais estilistas não franceses do que franceses para apresentar as coleções de verão 1996 em Paris, que estava por vir: Chanel com o alemão Karl Lagerfeld, Givenchy com o britânico John Galliano, Dior com o italiano Gianfranco Ferré, e ainda o estadunidense Oscar de la Renta na Balmain e o brasileiro Ocimar Versolato na Lanvin. No final de 1996, John Galliano assumiria a Dior, enquanto o também britânico Alexander McQueen ficaria com o seu posto na Givenchy. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Internamente, a própria Lanvin também passava por reestruturações. A grife havia sido adquirida em conjunto, em 1990, pela L’Oréal e pela holding da família Vuitton, então chamada Orcofi. Em abril de 1993, os controladores demitiram o presidente em exercício após a marca acumular prejuízos de 50 milhões de dólares durante dois anos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um executivo da L’Oréal assumiu o comando, reduzindo o quadro de funcionários, vendendo uma mansão da Lanvin e fechando vários andares da boutique masculina. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em resumo, Ocimar Versolato tinha uma missão: ajudar a levantar a marca. Mônica Mendes, que acompanhou essa ida do brasileiro para a grife francesa, lembra bem do barulho que a notícia causou. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí, eu estive lá na Lanvin, nos primeiros dias dele de Lanvin, estive com ele, no ateliê. Foi uma notícia gigantesca, entendeu? Foi uma notícia monstruosa. Um novo estilista asssume uma casa como a Lanvin. Hoje é muito recorrente um estilista assumir uma casa. A dança das cadeiras é muito normal. Naquela época, não era assim. As pessoas ficavam muitos anos numa casa, entendeu? O Ocimar, quando assumiu a Lanvin, era quase como um&#8230; sei lá, entendeu? Uma entidade entrar numa casa que, meu Deus do céu, não tinha muito essas coisas. Era muito&#8230; Era tudo muito novo isso. Então, foi notícia, assim, no mundo inteiro, tá?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar, contam os amigos e familiares, dormia pouco e trabalhava muito. Virar noites na labuta era coisa corriqueira. E só assim mesmo para ele conseguir dar conta de tudo naquele auge em que vivia. Porque, ao mesmo tempo em que desenvolvia as coleções para a Lanvin e para a própria grife, Ocimar ainda arrumava tempo para se dedicar a outra paixão: a criação de figurinos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A convite do diretor Cacá Diegues, Ocimar criou os looks de Sonia Braga usados no filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Tieta</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1996. O estilista também teve uma de suas criações, um vestido preto de busto transpassado e drapeado e decote generoso, exibido pela atriz Teri Hatcher, no filme </span><i><span style="font-weight: 400;">007 – O Amanhã nunca morre</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 1997.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Ocimar criou figurinos principalmente para o palco. O cantor Edson Cordeiro, que conheceu o designer ainda em 1987, quando ele estava de mudança para Paris, conta que foi o primeiro homem a vestir Ocimar Versolato:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E o primeiro figurino que eu usei dele, tá até no YouTube, eu usei pro prêmio Sharp, que hoje é o prêmio da música brasileira, né? E eu canto “Vida de Bailarina”, era uma homenagem a Angela Maria. Foi o primeiro figurino, e aí ele fez vários depois disso.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você já era adulto ou foi adolescente no início da década de 90, como a Pat, deve ter na cabeça a imagem de Edson Cordeiro de cabelos cacheados pelo ombro, quando ele cantou a ária </span><i><span style="font-weight: 400;">A Rainha da Noite</span></i><span style="font-weight: 400;">, da ópera </span><i><span style="font-weight: 400;">A Flauta Mágica</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Mozart, no vão livre do Masp e deixou o público estarrecido com o alcance dos seus agudos. A apresentação pode ser vista no YouTube, inclusive no canal do próprio Edson, e vale ser conferida:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já se você nasceu nos anos 90, como o Gabe, é mais provável que tenha em mente o visual atual do cantor, com a cabeça totalmente raspada. A voz única, no entanto, que fez Edson Cordeiro ser chamado de “a oitava maravilha vocal do mundo” pela imprensa europeia, permanece poderosa. E o sapato de salto vermelho, criado por Ocimar para uma das turnês do cantor e amigo nessa época, faz justamente referência ao virtuosismo do artista.  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Foi até capa de disco. E a ideia era que no século 18, só a nobreza e os castrados, cantores que eram castrados pra cantar pra corte, tinham meio o direito de usar o salto vermelho, que era uma cor difícil de encontrar. Mostrava um certo status. A ideia é uma ideia histórica, assim, uma releitura moderna de algo barroco, que tinha a ver com a minha história de voz e tudo, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Ocimar, Edson é do ABC, mais exatamente, de Santo André, e foi apresentado ao estilista por um primo dele, que conheceu quando fazia o musical </span><i><span style="font-weight: 400;">Hair</span></i><span style="font-weight: 400;">, no final dos anos 80. A amizade perdurou até os últimos anos de vida do designer e Edson foi testemunha ocular de um momento crucial na trajetória de Ocimar. Foi ele que apresentou o estilista ao ídolo Ney Matogrosso.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí o Ocimar já era uma celebridade internacional, mas não muito conhecida no Brasil ainda. E eu lembro que eu conheci o Ney, era amigo do Ney, e falei: ‘Vamos ver um show do Ney?’ E o Ocimar falou: ‘Ah, vamos’. E eu circulava com o Ocimar em Paris, eu ficava na casa dele, eu via grand monde que ele frequentava, né? Aquela coisa toda. E quando eu apresentei, foi no Canecão, o Ocimar ao Ney foi a primeira vez que eu vi o Ocimar tímido na minha vida. Eu lembro, ele colocou a&#8230; se encostou na parede, colocou o pé na parede, fumando nervosamente, assim. Eu falei: ‘Olha, o Ocimar tá tímido, é o grande ídolo dele’. E daí veio uma grande amizade.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A parceria entre Ocimar e Ney, que começou em 1994, no show </span><i><span style="font-weight: 400;">Estava escrito</span></i><span style="font-weight: 400;">, rendeu figurinos icônicos, como o terno claro com forro vermelho, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Beijo Bandido</span></i><span style="font-weight: 400;"> e o macacão dourado, todo bordado com minilantejoulas, da turnê </span><i><span style="font-weight: 400;">Inclassificáveis.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente tentou muito falar com Ney Matogrosso pra este podcast. O cantor, que está em turnê nacional, pediu desculpas e não conseguiu participar. Mas ele fez um comentário no Instagram da ELLE, em um dos nossos posts sobre esta série: escreveu que Ocimar criou os figurinos mais belos que ele já teve. E para não ficar sem a voz de Ney aqui, resgatamos o trecho de uma entrevista que ele deu para Lilian Pacce, em que fala justamente do figurino dourado de </span><i><span style="font-weight: 400;">Inclassificáveis</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu vou falar pra vocês como foi esse macacão dourado. O macacão dourado, eu tava vendo um programa de televisão sobre uma civilização da América do Sul, né? E aí tinha lá um mito de um rei que tomava&#8230; Que uma época do ano ele cobria o corpo todo com pó, ouro em pó e mergulhava no lago de Titicaca pra oferecer esse ouro aos deuses. Aí eu achei essa ideia tão interessante. Aí a gente disse assim, Ocimar, olha que ideia boa, é um arquétipo assim latino-americano, né? Como é que a gente pode reproduzir isso? Eu queria uma coisa que fosse meu corpo, mas não fosse uma roupa, que fosse como no meu corpo. Aí ele veio com os materiais, que era um material muito transparente e elástico. E ele fez aquelas duas&#8230; Como chama isso? Pele? Segunda pele, né? Ele fez a segunda pele dourada e eu tirava essa segunda pele dourada e eu também queria alguma coisa relacionada&#8230; A índios brasileiros. Então a segunda pele de baixo era tatuada por um tatuador em motivos do Xingu. E a primeira era meu corpo de ouro, porque era uma segunda pele com um lugar pro sexo, para as nádegas, como se eu estivesse nu, né?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das canções do set list desse show era “Um pouco de calor”, de autoria do ator e diretor Dan Nakagawa, que ficou amigo de Ocimar por meio de Ney Matogrosso e acompanhou a criação dos figurinos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O Ocimar estava fazendo o figurino, fez o figurino desse show. Então a gente convivia diariamente, assim, sabe? E toda vez que o Ney vinha para cá, a gente se via, saía, jantava, saía para passear, balada, tudo. Não, balada o Ney não ia, né? Ia só eu e o Ocimar. Mas eu lembro de acompanhar ele fazendo, criando junto com o Ney, os figurinos. Eu acompanhei ele costurando na pele do Ney, assim, sabe? Mas ele era um gênio, Patricia, um gênio.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de presenciar todo esse processo de criação, Dan Nakagawa também testemunhou o papel central que Ney Matogrosso ocupava na vida de Ocimar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Central e que centrava o Ocimar. Era a única pessoa que o Ocimar ouvia, de verdade. É a única pessoa que o Ocimar parava, escutava e ouvia. Ele tinha um respeito pelo Ney, assim, que era só pelo Ney. Era a única pessoa que conseguia (falar): ‘Para, Ocimar. Olha o que está acontecendo. Põe o pé no chão. Entendeu?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mas, pelo jeito, seriam necessários uns três Ney Matogrossos pra segurar o gênio difícil de Ocimar nessa nova fase em Paris.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando assumiu a Lanvin, Ocimar sabia que a missão não seria fácil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em entrevista ao jornal Women’s Wear Daily, ele deu a seguinte declaração: “Será um processo complexo; temos uma quantidade enorme de trabalho pela frente. Meu objetivo é redescobrir o espírito de Jeanne Lanvin.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas depois de ser ovacionado em seus três primeiros desfiles, ele definitivamente não estava preparado para a repercussão negativa da sua estreia na maison francesa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desfile em questão foi em março de 1996, no Museé des Arts Décoratifs do Louvre. E aqui vai a descrição da apresentação pelo próprio Ocimar: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Não queria um espetáculo, mas o tiro saiu pela culatra. Apareceram duas mil pessoas se debatendo para tentar entrar. Quebraram a porta de vidro da entrada; o corpo de bombeiros e a polícia foram chamados. Teve gente que apanhou, gente que bateu, barricada, uma baixaria. Fiquei assustadíssimo. O desfile se desenrolou em clima pesado. As modelos adentraram à passarela de forma muito bizarra: passadas largas e retas, silhuetas punks, pernas totalmente de fora, parte de cima exageradamente volumosa e iroquais na cabeça.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, como deu para sentir, nem as expectativas de Ocimar foram alcançadas com esse desfile. Mas, para a crítica especializada, a sensação era ainda pior: a de que o ego inflou e a ambição o traiu: </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Daí tem o desfile da Lanvin, que foi uma das coisas mais chatas e equivocadas que eu já vi na minha vida. Acho que ele fez, assim, cento e&#8230; Cem mil looks. Era, assim, no mais de cem looks. E uma coisa, assim, antiga, sabe? Era o oposto da estreia dele, que era uma coisa tão moderna, sabe? Tão nova, tão&#8230; E aquela Lanvin era tão antiga… Eu fiquei muito arrasada. Arrasada como jornalista, arrasada como pessoa, como brasileira que está lá. Sabe quando você fica&#8230; Para vocês terem uma ideia, eu caí de febre. Eu&#8230; Eu terminei a crítica e eu caí de cama com febre, de tão arrasada que eu fiquei, por estar&#8230;Por não estar gostando daquilo. Sabe quando você&#8230; Você, como jornalista, fica muito arrasada. Como crítico, você se questiona muito. Eu lembro que eu, na matéria, eu falava assim&#8230; Não é fácil uma pessoa fazer duas coleções ao mesmo tempo. E coleções tão grandes. Eu ainda tentei, assim, de uma maneira, sabe? Tipo&#8230; Acho que talvez tenha sido demais. Para ele. Sabe? E, de fato, não foi bem. Deixou a desejar. E daí a marca dele também foi péssima. Sabe quando você fala o que aconteceu? Não é possível!”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lilian Pacce ficou entre a cruz e a espada. De um lado, ela torcia por Ocimar: sendo uma representante da imprensa nacional, queria levar boas novas sobre o compatriota para o Brasil. Por outro lado, o dever jornalístico chamava, e ela tinha que reportar o que havia acontecido. Ela escolheu a segunda opção e ganhou um inimigo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Bom&#8230; O Ocimar queria me matar. E eu recebi mil recados de vários amigos em comum. Tipo&#8230; O Ocimar não quer te ver. O Ocimar não sei o quê. Eu entendo, assim. Não foi a primeira vez que um estilista ficou chateado com uma crítica que não era positiva. E, geralmente, essas coisas duram seis meses. Depois de seis meses, você volta para o desfile. Você pode&#8230; Enfim… Pode durar um ano, ou dois. Mas, geralmente, quando as coisas entram no&#8230; No&#8230; No eixo, né?” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É, Ocimar não gostou nada do que leu. E o rancor do estilista durou bem mais do que uma temporada. Ele não convidou Lilian para o desfile grandioso de aniversário do shopping Iguatemi, no Brasil, que a gente descreveu no início deste episódio. Na temporada seguinte da semana de moda de Paris, o convite para o desfile da segunda coleção de Ocimar Versolato na Lanvin não chegou para Lilian Pacce.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Daí, chega em Paris a Anne Ruckie era assessora do Ocimar. E fala… Me enrola, me enrola, me enrola. Com um convite. Daí, ela fala&#8230; Ai, a sala está supercheia. Antes, eu ficava na primeira fila. A sala está supercheia. Não tem lugar, tal. Daí, eu falei&#8230; Anne, eu preciso saber, porque eu sou a jornalista que está aqui cobrindo os desfiles. E ele é o único brasileiro. Então, se eu não for convidada, eu preciso explicar para o leitor por que eu não estou falando do único brasileiro que desfila em Paris. Daí, ela volta. Fala… Ah, então, Lilian, infelizmente, eu só consegui um standing. Daí, você não vai querer, não é?” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E aqui uma rápida explicação. Standing, dentro do vocabulário dos desfiles, é algo como depois da última fila. Isso significa que a pessoa fica de pé durante a apresentação. Antes da publicação do fatídico texto, Lilian tinha lugar garantido na fila A, que é a primeira, para checar de perto as roupas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Falei&#8230; Não, eu vou. Falei&#8230; Eu vou, porque é meu papel. E acho que eu preciso estar presente, acompanhando a trajetória dele. Daí, quando eu cheguei lá&#8230; Ah, e daí, nessa estreia da Lanvin e terceira coleção dele, outros veículos de mídia também criticaram. Tipo, o New York Times. Tipo, Harold Tribune. Vários. Não lembro se foi o Figaro, Le Monde ou Liberation. Enfim, sabe? Foi uma coisa&#8230; No final, era um consenso. Mas, até eu ver que havia um consenso, você fica muito mal, não é? E&#8230; Bom… E daí, eu falei que eu ia, cheguei lá, realmente era um standing. Mas, quando eu vejo, todas as pessoas que tinham criticado estavam nos lugares que era ao meu lado. Mas, eu falei… Não é possível. É&#8230; Sabe? É muito complexo de tupiniquim. Querer exercer o poder em cima dos seus pares e baixar a cabeça para o imperialismo, não é?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como Lilian apontou, antes fosse só a crítica dela que tivesse sido negativa. A realidade é que vários jornais entenderam como equivocadas as decisões do estilista para a Lanvin, da trilha ao look. Em seu livro, Ocimar lembra até da crítica desfavorável de Laurence Benaïm, do Le Monde. Ela escreveu: “ele apunhalou as pessoas com um conceito hostil e agressivo”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No lado pessoal, Ocimar também dava motivos para comentários nada elogiosos. E enquanto escalava os degraus da moda, foi perdendo bons amigos no caminho.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele achava que ele tinha o right de insult. E ele falava o que ele queria. Ele não tinha medo de fazer inimigos. Ou talvez ele nem achasse que o que ele estava falando era tão venenoso ou tão detrimental.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa voz já ficou bem reconhecível, não é? Isso! É Gisele Zelauy, a Gisele La Belle. A modelo rompeu com Ocimar antes mesmo da ida dele pra Lanvin. E um dos motivos para isso foi que, apesar da ascensão da marca de Ocimar naqueles primeiros anos, ela nunca mais viu o dinheiro que investiu no negócio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gisele relata que o estilista teria feito um pedido de falência estratégica para não pagar a dívida. Abriu uma nova empresa e continuou a operar sem os passivos anteriores. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele decidiu que ele não precisava mais de ninguém que tinha começado com ele. Agora, eu vou para o next level. Então, para diluir o valor da minha ação, das pessoas que tinham dado dinheiro para ele e como ele é protegido pela lei por ser bankruptcy, foi o que ele fez. Eu nunca mais falei com ele. E o Fábio, meu ex-marido, na verdade, continuou amigo dele. E tentando meio que pegar. Nunca pegou dinheiro nenhum. Ele nunca pagou. Ele estava nem aí. Ele queria só o dele. Ele só pensava nele. E aí, ele começou nessa trajetória e ele sabia muito bem onde ele estava indo, quem que ele estava andando, quem ele precisava para subir mais.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A amizade, conta Gisele, acabou. Ela preferiu se distanciar de Ocimar, tomou aquilo como um cautionary tale, algo como uma lição de vida. E atribuiu as derrocadas que Ocimar sofreu ao longo da vida a esse padrão de comportamento que ela identificava ali no ex-amigo: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E ele achava&#8230; Who cares? I&#8217;m gonna use as many people as I can. Porque ele não tinha envolvimento emocional com ninguém. Ou tinha sempre alguém lá em cima pra puxar ele mais pra cima. Alguém vai me puxar mais pra cima e puxar. Aí quando chegou, não tinha mais ninguém pra puxar. Porque é aquela coisa. Tem um saying do Lincoln que diz. You can fool some of the people all the time. You can fool all the people some of the time. But you cannot fool&#8230;all the people all the time.” </span></i></p>
<p><b>E no próximo capítulo de Ocimar Versolato do avesso. </b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Na época que ele estava meio que saindo da Lanvin. Mas tava, em paralelo, já estava tentando desenvolver a Ocimar Versolato como marca. E aí eu falei, liguei para a minha irmã, que morava na França e pedi que ela procurasse ele, pra ver se ele tinha interesse no investimento e tal. Eu sabia que ele estava atrás disso, né?”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Houve um problema ali que foi um problema grave. A peça não estava vestindo do jeito que os protótipos vestiam. Então, as empresas que compraram, elas devolveram as peças. ‘Não vou comprar porque elas não estão porque elas não estão de acordo.’Aí para a empresa foi um imprevisto pleno de consequências.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Um belo dia, meu telefone toca, André, André, esse é Ocimar Versolato, eu&#8230; O próprio. O próprio. Aí eu falei, oi, aí ele falou, eu quero fazer casa de criadores. Assim, tipo, nem se apresentou, nem precisava, né? Quero fazer Casa de Criadores, quero falar com você que eu quero fazer casa de criadores. Eu, ah, tá, claro, vamos conversar.”</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">A saída da Lanvin, mais um investidor que reergueria Ocimar até chegar ao reconhecimento da Câmara Sindical de Alta-Costura, uma nova queda e a volta para o Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar Versolato do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil e faz parte da série Do Avesso, que resgata grandes nomes da moda brasileira. O primeiro biografado foi Clodovil Hernandes, que teve sua trajetória destrinchada em seis episódios, também disponíveis nas principais plataformas de áudio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do programa Roda Viva, da TV Cultura, Vídeo Show, da Rede Globo, do The Ed Sullivan Show, da CBS, da apresentação de Edson Cordeiro no vão livre do Masp publicada no <a href="https://www.youtube.com/@olindoestevam" target="_blank" rel="noopener">canal do Youtube de Olindo Estevam</a>, e da entrevista de Lilian Pacce com Ney Matogrosso exibida no <a href="https://www.youtube.com/lilianpacce" target="_blank" rel="noopener">canal do Youtube de Lilian Pacce</a>.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h5><span style="font-weight: 400;"><b>Leia também: </b><a href="https://elle.com.br/podcast/ocimar-versolato-do-avesso-episodio-um"><b>Ocimar Versolato do Avesso: O melhor aluno do Studio Berçot</b></a><br />
</span></h5>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Ocimar Versolato do Avesso: O melhor aluno do Studio Berçot</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 19:36:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No primeiro episódio de Ocimar Versolato do Avesso: a infância no ABC paulista, em São Bernardo do Campo; o encantamento por Ney Matogrosso; os primeiros fervos; a chegada a Paris; e o aprendizado com Marie Ruckie, no Studio Berçot.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe loading="lazy" style="border-radius: 12px;" src="https://open.spotify.com/embed/episode/2zW8JzM2mWG3VEL9yi9d8x?utm_source=generator" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen" data-testid="embed-iframe"></iframe></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
<strong>Ouça Ocimar Versolato do Avesso em: </strong></span><strong><a href="https://open.spotify.com/show/0jZ7TKc4DvbeMsHkVXrA4Y?si=e9e264bfde0847b4" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a> | Apple Podcasts | Amazon Music | <a href="https://link.deezer.com/s/31QWLHrGKB8iqlxHj6X8C" target="_blank" rel="noopener">Deezer</a></strong></p>
<h3><b>Se preferir, você também pode ler este podcast:</b></h3>
<p>Paris, 17 de outubro de 1994. O local é o luxuoso hotel Lutetia, um edifício histórico, de 1910, com fachada que mistura elementos de Art Nouveau e Art Déco.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse hotel-palácio, no bairro de Saint Germain dès-Prés, na margem esquerda do Sena, Ocimar Versolato apresentaria sua segunda coleção em Paris, para uma plateia com representantes dos mais importantes veículos de moda do mundo e compradores de peso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A primeira coleção, desfilada sete meses antes, havia sido um sucesso surpreendente, tanto de críticas quanto de vendas. E, naquela temporada, os olhares da moda estavam todos voltados para aquele estilista brasileiro de 33 anos, sempre de óculos e boné preto, que prometia ser a nova sensação do mercado. A expectativa era grande. E o desfile… foi um sucesso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama. Eu sou Gabriel Monteiro. E este é o primeiro episódio de Ocimar Versolato do Avesso, o podcast da ELLE Brasil que vai contar a história do primeiro designer brasileiro a desfilar na semana de moda parisiense, a assumir a direção criativa de uma maison internacional e a ser convidado para integrar o seleto calendário da alta-costura de Paris.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de quatro episódios, a gente vai acompanhar a trajetória dessa personalidade controversa, que alcançou o Olimpo da moda, caiu e se levantou mais de uma vez, numa montanha-russa que continuaria até a sua morte, há oito anos. E vamos também tentar entender por que, apesar do enorme talento e dessa lista de conquistas, Ocimar Versolato foi praticamente apagado da memória da moda brasileira. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“The location was classy, backstage was cramped. But the air was ripe with a Carnival atmosphere. How appropriate, you have to be Brazilian  to be able to pronounce the name Ocimar Versolato.”</span></i> <span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Esse é o trecho de uma reportagem do jornalista neozelandês Tim Blanks, exibida no programa Fashion File, da TV canadense. Naquele outubro de 94, Blanks registrou os bastidores lotados e a atmosfera de Carnaval, como ele definiu, do segundo desfile de Ocimar Versolato em Paris. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A coleção, batizada de Anjos do Inferno, transformava tecidos normalmente associados ao guarda-roupa masculino, como tricoline e lã fria, em vestidos com decotes, recortes e fendas que seduziram a plateia. Eram apenas 21 looks, mas eles foram o suficiente para firmar o nome do brasileiro entre as apostas mais quentes da moda naquele momento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sucesso ficaria ainda mais evidente no terceiro desfile, em março do ano seguinte, quando as criações do designer foram desfiladas por algumas das maiores modelos da época, entre elas, Naomi Campbell, Karen Mulder e a brasileira Gisele Zelauy. Gisele, la Belle, como a top ficou conhecida nos anos 90, foi uma das várias pessoas com quem a gente conversou para este podcast nos últimos três meses, na tentativa de montar esse quebra-cabeça complexo chamado Ocimar Versolato. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A modelo, que vive há muitos anos em Nova York, acompanhou de perto os primeiros anos de carreira do brasileiro em Paris e falou um pouco da dualidade que marcava a personalidade de Ocimar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele estava no caminho certo. As pessoas estavam abrindo as portas pra ele por causa do jeitinho dele, super naïf, assim, mais nice. Só que ele tinha uma língua acid. Aí, batia o veneno, ele virava, era outra pessoa. Como se ele fosse o Dr. Jack and Mr. Hyde. Ele tinha os dois lados que oscilavam no matter when. Ele não tinha um filtro. E ele era aquela coisa luz e sombra. Era superlight e o dark.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gisele conta que mesmo o lado dark de Ocimar era superdivertido. Essa, por sinal, foi uma característica citada por todos os entrevistados. O estilista tinha definitivamente um senso de humor afiado e, quando queria, sabia ser sedutor e carismático como poucos. Inteligência e talento, aqui, não foram colocados em dúvida por ninguém. Mas alguns entrevistados também apontaram um lado cruel e vingativo do estilista, que deixou muita gente magoada pelo caminho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de entrar nesses detalhes e se aprofundar no trabalho do designer, no entanto, a gente tem que voltar para o início de tudo. E a história de Ocimar Versolato começa no ABC paulista, em São Bernardo do Campo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Então, o Ocimar sempre foi diferenciado, né, Patricia? Sempre.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é Omara Versolato Calandreli, a única mulher numa família de seis irmãos: Odamar, Ocimar, Omara, Omar, Antonio e Francisco. E essa interrupção na sequência de nomes começados com a letra O tem uma explicação. Antonio e Francisco são filhos do segundo casamento da mãe, Maria Aparecida Versolato Calandreli.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pai de Ocimar, Odaci Calandreli, morreu em 1965, juntamente com o cunhado Roque, em um acidente de barco, durante uma pescaria em alto-mar na região de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. Na época, Odaci e Roque trabalhavam na empresa de móveis da família, que tinha fábrica e lojas próprias em São Bernardo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tragédia interrompeu a linha sucessória na tradição moveleira dos Versolato na cidade e deixou Maria Aparecida viúva aos 27 anos, com quatro filhos pequenos. Ocimar, o segundo mais velho, tinha só quatro anos de idade. Três anos depois, Maria se casou novamente e teve mais dois filhos com o médico e professor universitário Antônio Nunes de Oliveira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pra Omara, Ocimar nasceu com um dom, e mostrava suas habilidades desde pequenininho. Guardanapos viravam saias plissadas pras bonecas Susi da irmã. E, com a mãe, professora de corte e costura, o menino começou cedo a dar palpite nos moldes.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Pelo fato da minha mãe ser professora de corte e costura, então, ele era muito pequeno. Ele ficava de madrugada. Então, a mamãe tinha que apresentar algum trabalho, fazer alguma coisa, ele, desde pequeno, ele já dizia para minha mãe: “Não, mãe, e se você não fizer assim, fizer assim. Então, ele mudava o molde e explicava para minha mãe, entendeu? Então, ele nasceu com dom. É um dom. Então, a minha mãe olhava e falava: “Mas será que vai dar certo?” E a minha mãe fazia e dava certo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o comportamento precoce de Ocimar não se resumia à essa inclinação pra moda, como conta o irmão mais velho, Odamar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele era chato quando era criança. Assim, ele sabia receber pessoas em casa, com 5, 6 anos de idade. Então, tem algumas coisas assim no Ocimar que eram características de nascimento dele, de&#8230; Tipo, a minha avó fazia strudel. Putz, que é fantástico. E ele sabia o corte que tinha que dar no strudel. Sabe assim?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Odamar é artista plástico e, como Ocimar, morou boa parte da vida em Paris. Na longa conversa que a gente teve com ele no estúdio da Compasso, onde é gravado este podcast, Odamar levou recortes de jornal, convites de desfiles e fotos de Ocimar ainda criança. E lembrou também do papel que o avô materno teve na formação dos irmãos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Então, meu avô tinha uma educação de base normal, como todo mundo da época tinha. Qualquer pessoa comum tinha. Só que meu avô assinava algumas revistas que eram muito interessantes. Aquelas seleções de Reader’s. Assinava dois jornais, um era o Diário da Noite e o outro era o Jornal da Tarde. E tudo que vinha, assim, de arte, ele me passava. Ele segurava e falava: ‘Ó, lê aí, né?’ História de Rothko, Picasso, Sam Francis, tal. Isso tudo eu aprendi ali, com 5 anos de idade. E o Ocimar, em contrapartida, meu avô também passava pra ele o interesse que vinha. De coisas sociais, de atitudes que pessoas tomaram. Principalmente, vamos supor&#8230; Kennedy, não sei o quê&#8230; Tinha morrido, fazia pouco tempo, né? Mas já falava do assassinato, quem é que matou, quem não matou, tal, tudo. Ocimar gostava muito dessas coisas assim. E tinha, não sei se era o Faces ou o Life, que de vez em quando aparecia. Aí era a revista do Ocimar, né? Era Jackie O., o Onassis, ele não entendia como&#8230; Era o assunto dele, tá? E era diferente de uma criança.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diferença de idade entre Ocimar e Odamar é de apenas um ano: Odamar nasceu em 1960 e Ocimar é de primeiro de abril de 1961. Os dois ficaram especialmente próximos na adolescência, frequentando tanto baladas quanto programas culturais com a mesma assiduidade.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Assim, essa liberdade, eu e o Ocimar, a gente já começou muito cedo. Com 13, 14 anos. A sair. A ir pra noite. Frequentar. Ver. Principalmente peças de teatro. Eu sei que chegou uma época que eu não aguentava mais ver peça de teatro, porque o Ocimar… Assim&#8230; Caiu na cabeça dele que ele tinha que assistir tudo que era teatro. Falou: teatro. Vamos ver o que tá passando. Ele tava maluco com esse negócio de teatro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A morte do caixeiro-viajante, de Arthur Miller, e O Santo Inquérito, de Dias Gomes, foram duas peças que Odamar lembra que mexeram com o irmão. Ele acredita que Ocimar se conectava com algumas obras que remetiam à sua própria história, em especial, com o episódio da morte precoce do pai. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E o Ocimar, nesse quesito, ele mantinha essa coisa de sempre&#8230; retornar nas obras algum momento que pegasse ele. Que levasse ele pra aquele universo de perda. Pra aquela coisa de&#8230; Sabe? É&#8230; Não sou coitadinho. Sabe? Se é pra brigar, vamos brigar de igual. Vamos dar porrada um no outro e vamos embora. Um morre.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nada teria um impacto maior para aquele adolescente do ABC do que um show que os dois foram assistir em Santo André, nos anos 70.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu virei pro Ocimar e falei assim: ‘Olha, vai ter um show de uma banda nova, lá em Santo André. Ninguém sabe nada deles e tal. Você quer ir comigo?’ Ele falou: ‘Quero”. E a gente pegou o ônibus e fomos, num domingo à tarde. Chegamos lá… Nossa, eu achei demais aquilo. Mas o Ocimar não achou demais aquilo. O Ocimar achou aquilo a coisa da vida dele! O Ocimar estava em êxtase. De um jeito que eu nunca tinha visto ele. Não sabia nem que aquilo era um êxtase. Saímos, ele não falou nada. Eu falando – deu pra perceber que eu sou tagarela –, a gente saiu conversando, pegamos o ônibus. E aí ele virou pra mim e falou assim: ‘Eu já sei’ – a única coisa que ele falou depois do show – ‘Eu sei o que eu quero da minha vida’. ‘O que que é?’ ‘Eu quero ser igual aquele cara que cantou’.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Aquele cara” era Ney Matogrosso e a banda em questão era o Secos e Molhados, que poucos dias depois iria fascinar e escandalizar o Brasil com uma apresentação no Fantástico, o show da vida dominical da Rede Globo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A influência de Ney, que mais tarde usaria figurinos de Ocimar em seus shows e se tornaria um de seus melhores amigos, perdurou por toda a vida do estilista. E o impacto não foi só artístico. Ver Ney Matogrosso naquele palco, com o rosto pintado, o torso nu e um jeito de cantar e dançar que desafiava qualquer convenção de gênero, virou uma chave na cabeça de Ocimar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E o Ocimar fica assim, meu, você não segurava mais ele! Então, acho assim… Ele vem a ter a questão dos relacionamentos com 15, 16 anos. Mas eu percebi que ali, a sexualidade dele… Aquele show fez com que ele começasse a entender dali pra frente como se comportar sexualmente, tá? Mas eu sei que foi naquele show que a cabeça dele abriu. Que ele viu aquela roupa, que ele entendeu que era aquilo que ele queria fazer. Ele viu aquela maquiagem, ele viu que o cara não era um bobo. Não era um cidadão qualquer. Que ele tinha coisa pra dizer. E o Ocimar achava que tinha muita coisa também pra dizer. E isso eu achei, assim… Pra mim, é o momento do Ocimar. Como pré-adolescente, foi esse.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar, como conta o irmão mais velho, resolveu cedo essa questão da sexualidade. E pôde viver intensamente aquela virada pros anos 80, antes do surgimento da Aids, quando tudo parecia que ia dar certo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E a noite era muito viva. Tipo, as mães saíam com os filhos, né? Então, numa boate, você encontrava um filho de 18 anos com a mãe, que saía junto. E tudo era muito livre. Sexo era muito livre, muito aberto. Você podia fazer com quem você quisesse, a hora que você quisesse, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é Georges Robert. Filho de pai grego e mãe alemã, Georges viajou o mundo como professor de inglês, trabalhou na empresa da família, que comercializava gaiolas de ratos e camundongos, e teve por dez anos uma pousada LGBT+ em Maresias e hoje é artista plástico. E, muito antes de tudo isso, Georges foi namorado de Ocimar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Então, eu fui o primeiro namorado, acho que dele. Ele foi o meu, desculpe.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Georges conheceu Ocimar em 1981, na boate Off, que funcionou no Itaim Bibi, em São Paulo, até meados daquela década. Ele conta que o lugar tinha uma hostess na porta, que decidia quem podia e quem não podia entrar, no estilo do Studio 54, e que a pista parecia um iglu, com acrílicos pendurados no teto, simulando estalactites. E foi nesse ambiente meio Era do gelo que ele viu o estilista pela primeira vez.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Bom, aí eu fui conhecer esse lugar, e tava bem vazio. E aí eu vi um menino superbonito, que era o Ocimar, ele era lindo. E ele veio conversar comigo, a gente tinha um amigo comum, que se chamava Christos, que era o amigo dele, que por coincidência era grego, e meu pai é grego. Então, aí a gente começou a conversar. Só que eu não tinha experimentado nada, mas ele era lindo. Ele era magro e lindo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Georges tinha 18 anos na época e Ocimar era um pouco mais velho, tinha 20 anos. Em seis meses de namoro, com mais um tempinho de idas e vindas, Ocimar apresentou a Georges o circuito mais fervido de São Paulo, onde boates como a Nostro Mundo e a Homo Sapiens reuniam a comunidade gay, e drags lendárias, como Kaká di Polly, reinavam na noite.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele morava na Consolação, do lado do Nostro Mundo, que era uma boate que existia. E ele dividia o apartamento com um militar, que eu não me lembro do nome, mas era gay também, que não gostava de mim. E aí eu comecei a ir direto pro apartamento dele. Ele era amigo de modelos, e então eu fiquei amigo delas também. Bom, aí ele começou a me mostrar um monte de coisas. Primeiro, a vida gay, como era. Então, os gays se chamavam de entendidos. E como era pré-Aids, tipo 81, 82, era todo mundo liberal. Então os caras andavam de mão dada. E&#8230; não sei, foi uma época muito livre, né?”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as várias entrevistas que a gente fez pra este podcast, Georges foi o único ex-namorado com quem a gente conversou. E olha que não foi por falta de procurar. Apesar de Ocimar ter tido, sim, outros relacionamentos, a impressão que fica, e é confirmada por amigos e familiares, é que ele nunca teve um grande amor na vida, e que esse tipo de envolvimento sempre ficava em segundo plano. Ocimar foi um amigo presente, era extremamente ligado à família e, acima de tudo, muito dedicado ao trabalho. As relações amorosas não estavam na lista de prioridades. Georges também atribui essa falta de interesse a outro lado que já estava aflorando em Ocimar.  </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Um lado que estava aflorando, né? Que era o lado do dinheiro, o lado da ambição. E o lado de querer muito alguma coisa, mesmo sem medir muitas consequências, né? E ele ia em frente. Ia atrás do que ele queria, que era a fama, que era dinheiro, né? E isso era o mais importante, né, pra ele.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, Ocimar, de fato, sabia o que queria. Com 16 anos, ele já tinha aberto uma pequena confecção com o irmão, Odamar. Como não havia um curso de moda no Brasil, na época, ele entra na faculdade de arquitetura aos 18 anos e consegue um emprego em um escritório da área. Mas logo abandona os dois e volta a se dedicar à confecção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar e o Odamar passam a vender as peças para lojas de shopping e logo chamam a atenção de um cliente, que propõe um acordo de exclusividade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No livro de crônicas autobiográficas Vestido em Chamas, que lançou em 2005 pela editora Aleph, Ocimar conta que se tornou sócio do ex-cliente e que a empreitada ia muito bem. A empresa já contava com mais de 200 costureiras, e Ocimar desenhava os modelos, cuidava das modelistas e supervisionava as entregas. Em dado momento, no entanto, o sócio resolveu substituir Ocimar por outro estilista, por sugestão do diretor comercial, que achava que ele não tinha talento algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar conta que, ao ser perguntado pelo sócio qual era o sonho da sua vida, ele responde que era o de ser o maior estilista do mundo. O sócio dá a ele então um envelope lacrado e diz: “Parece que enfim chegou a hora de ser o maior estilista do mundo. Aí está tudo o que você precisa: passagem aérea e 3 mil dólares. Vá para Paris.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os irmãos Omara e Odamar acham que Ocimar deu aí uma romanceada nessa demissão, com a história da passagem e dos dólares no envelope. Mas fato é que, com esse acerto de contas, Ocimar finalmente começou a executar o plano que tinha há muito tempo, desde que assistiu a um desfile do Studio Berçot no quadro da jornalista de moda Cristina Franco, no Jornal Hoje, aos 13 anos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O Studio Berçot era, digamos, a escola de moda. Porque não tinha faculdade de moda. Mas… Não só de vanguarda, mas era aquela escola de moda que quem saía de lá virava um estilista como criador. Assim, uma pessoa que tinha um talento criativo, excepcional. Meio que a Saint Martins, hoje. Na época, era o Studio Berçot.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem explica aqui pra gente a importância do Studio Berçot é <a href="https://www.youtube.com/lilianpacce" target="_blank" rel="noopener">Lilian Pacce, uma das jornalistas de moda mais tarimbadas do país</a>. Mais pra frente, a Lilian vai falar sobre a complicada relação de Ocimar com a imprensa nacional e de como ela passou da fila A pra um standing, que é o lugar de pé, nos desfiles do brasileiro em Paris. Por enquanto, neste episódio, a Lilian vem só dar a dimensão do Studio Berçot e de Marie Ruckie, a francesa que dirigiu essa instituição por mais de cinco décadas.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E a Marie Rucki, ela tinha uma capacidade de extrair das pessoas essa potência. E ela percebia muito rapidamente. Sabe quem&#8230; Assim, porque ela deu muitas aulas aqui no Brasil, ela fez muitos cursos em parceria com a Rhodia. E ela me falava, não, esse vai, esse não vai. Ela já sabia quem que ia e quem que não ia. As qualidades e defeitos de cada um, sabe? Tipo, esse aqui, se superar tal coisa, vai para frente. Esse, não. As marcas procuravam o Studio Berçot para contratar as pessoas. Os estagiários, os assistentes e tal. Então, era muito dinâmico.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim que surgiu a oportunidade, Ocimar se matriculou em um dos cursos que Marie Rucki veio ministrar no Brasil nos anos 80. E vale aqui reproduzir a descrição que ele faz dela no seu livro:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Marie Rucki era uma mulher de meia-idade, rosto simpático e olhos afetuosos. Dona de instintos apurados para novos talentos, trajada em elegante saia de algodão, camisa masculina com nó na frente e sapatos baixos, Marie é um marco no universo da moda e sua aparência merece um comentário à parte. Ela mantém os cabelos bem cortados em estilo Chanel. Nunca usa joias ou calças. Está sempre de saia, todas com o mesmo comprimento, um pouco abaixo do joelho, respeitando, assim, um dos princípios de mademoiselle Chanel: nunca mostre os joelhos nem os cotovelos, pois são as partes mais feias do corpo da mulher.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante o mês que durou o curso, Ocimar não só se esforçou para se destacar nas aulas, como também acompanhou Marie em passeios por São Paulo, gastando todo o francês que estava aprendendo em aulas noturnas. Quando se despediram, Marie o incentivou a se matricular no Studio Berçot. E, em 1987, Ocimar deixou o Brasil para ir atrás do sonho de ser o maior estilista do mundo em Paris.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse início de vida na França, em paralelo às aulas no Studio Berçot, Ocimar virou um frequentador assíduo do Centro George Pompidou, onde passava tardes lendo livros de arte. Também fazia maratonas de visitas a galerias, exposições e filmes, pra tentar superar o desnível de conhecimento que sentia existir entre ele e os colegas franceses.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, ele realmente superou esse desnível e não só. Quando se interessava por um assunto, Ocimar estudava aquilo com obstinação, como conta a sobrinha Yasmine, com quem ele teve uma relação muito próxima, e hoje vive em Madri, na Espanha.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Viajamos muito juntos ele me apresentou muita coisa, mas principalmente esse gosto por ir a museus. Cada obra de arte ele sabe dizer o pintor, o ano, o porquê ele usou cada cor, porque ele usou a iluminação. Então, para mim, é uma maravilha ir com ele a qualquer museu do mundo, porque ele era como um audioguia! Ele sabia tudo, tudo, tudo. Ele era muito curioso, ele estudava muito, muito ele sempre estava buscando conhecimento – desde pedra preciosa até um Goya. Um dos nossos passeios favoritos aqui em Madri era ir ao Museu do Prado e entrar nas esculturas negras de Goya. Era o nosso programa favorito.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pra arcar com as despesas em Paris, Ocimar começou a fazer figurinos pra peças de teatro e, informalmente, roupas pra eventuais clientes. Mas esses bicos não fechavam as contas e o brasileiro não conseguiu mais pagar a mensalidade do Studio Berçot.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de três meses de inadimplência, Ocimar foi chamado à sala de Marie Rucki pra explicar o que estava acontecendo. Segundo seu relato no livro, Marie permitiu que ele continuasse a frequentar as aulas de graça e teria dito ainda que: “Nenhum desses milionários que estudam aqui tem talento, de forma que só servem para pagar o curso daqueles que têm, mas, normalmente, não podem pagar, como é o seu caso”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Studio Berçot fechou as portas em 2023, depois de 69 anos de existência, mas Marie Rucki continua viva e atuante. E a gente conseguiu entrar em contato com ela, por meio da sua filha, Anne Rucki, que também conheceu Ocimar e, inclusive, trabalhou com ele depois que ele se formou. A Marie respondeu as perguntas por email, por isso, a gente convidou a diretora editorial da ELLE Brasil, Susana Barbosa, pra ler as respostas dela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se você está fazendo contas aí pra tentar descobrir a idade da nossa entrevistada, já vou ter que avisar que não tem essa informação aqui. Por dever jornalístico, eu cometi, sim, a indelicadeza de perguntar quantos anos Marie tem e se continuava trabalhando após o encerramento do Studio Berçot. E ela respondeu na maior elegância: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Sim, continuo fazendo coisas que me interessam, especialmente um belo livro que está por vir. Já não tenho idade – isso não conta mais. Estou entre a Terra e o Céu.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre a conversa relatada por Ocimar no livro, Marie negou ter feito o comentário sobre os alunos milionários:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu jamais teria falado dessa maneira sobre quem quer que fosse. A situação financeira de uns e de outros não diz respeito a ninguém. Mas, no caso de Ocimar, devo ter dito que compreendia seus problemas financeiros e que ele poderia continuar mesmo assim.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre o estilo das criações do ex-aluno, Marie disse que Ocimar gostava mais da construção do que da matéria. Ou seja, era mais um arquiteto do que um pintor. E que se interessou imediatamente pelo brasileiro por uma razão simples: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele era capaz de trabalhar com habilidade e muito rapidamente. Conseguia materializar suas vontades, mas não no papel, que não era sua melhor forma de expressão. Isso me agradou muito, porque me fazia lembrar grandes estilistas daquela época.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de dois anos, Ocimar se formou e fez valer a bolsa de estudos concedida por Marie. Foi eleito o melhor aluno do Studio Berçot e, como tal, viajou a Zurique, na Suíça, para representar a França no concurso Reencontro de Jovens Talentos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais uma vez, o jovem de São Bernardo do Campo levou a melhor: conquistou o primeiro lugar com a bênção do convidado de honra do júri, o estilista Christian Lacroix. O concurso teve uma boa cobertura da imprensa e, com o nome em reportagens de jornais europeus, Ocimar já sentia o gostinho do que estava por vir. Pelo menos, da parte boa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu livro, ele relata que quando teve que fechar o ateliê de alta-costura, anos depois, se lembrou de uma das conversas que teve com Marie Rucki. Ela dizia que dinheiro e fama eram coisas boas, mas não podiam se tornar mais importantes do que a própria criação.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa passagem, Ocimar faz uma espécie de mea-culpa. Ele diz que Marie o fez prometer que ele não ficaria pretensioso como outros ex-alunos, que se tornaram estilistas famosos e se esqueceram dos amigos que fizeram parte desse processo. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Naquela oportunidade”, escreve Ocimar, “o sucesso para mim era algo muito distante, parecia impossível de acontecer. Contudo, aos poucos, foi acontecendo, e Marie sempre esteve presente ao longo dessa jornada, evidentemente me lembrando da promessa que havia feito. Infelizmente, não consegui cumpri-la. Segui a mesma trilha dos outros estilistas. É praticamente impossível ficar indiferente ao sucesso. Foi muita pretensão minha achar que poderia dar uma de superior, que tiraria essa situação de letra. E tudo isso serviu para que eu descobrisse que, no fundo, sou igualzinho a todos, e  que Marie era realmente um gênio!”</span></i></p>
<p>Eu reproduzi esse trecho do livro pra Marie Rucki. Perguntei se Ocimar a tinha decepcionado em algum momento e, caso tivesse, se ele tinha conseguido se redimir antes de morrer. E a resposta de Marie foi com a mesma elegância das anteriores.</p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ocimar era um homem simpático e espontâneo. Eu conhecia suas qualidades e, infelizmente, também suas fragilidades – a principal delas era a não aceitação do mundo da moda com suas regras implacáveis. Não tenho lembrança dessa conversa. Ocimar era muito jovem e não teve tempo de compreender as regras da sociedade.” </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No próximo episódio de Ocimar Versolato do Avesso:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu nunca tinha ouvido falar dele, de repente ele estava em todos os lugares, né? De repente assim, cheguei a fazer o desfile, eu falei: ‘Nossa!’ Eu falei: ‘Gente, parece que eu estou fazendo Dolce &amp; Gabbana, parece que eu estou fazendo Chanel’ Todas essas meninas aqui, era incrível. Realmente, é… São poucos os que conseguem.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“E aí quando ele foi fazer esse desfile, ele me explicou, ele falou: ‘Vera, eu quero desconstruir a tua imagem, sabe? Eu quero botar você com uma&#8230; Uma roupa preta. Mas eu quero que você use uma peruca branca, parecendo uma coisa louca. E aí ele sugeriu&#8230; Eu não sei se era uma saia longa ou era uma calça pantalona longa, com aquele&#8230; Com uma coisa transparente preta, toda bordada por cima. Então ele falou pra mim assim&#8230; Ah, eu tenho um sutiã assim. Eu falei, vamos usar sem sutiã? Aí ele falou, você tem coragem? Eu falei, eu tenho! Eu estou fazendo uma coisa diferente. E foi um furor no dia do desfile! Porque as outras atrizes também estavam meio caracterizadas. Mas o meu chamou muito a atenção.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Daí tem o desfile da Lanvin, que foi uma das coisas mais chatas e equivocadas que eu já vi na minha vida. Acho que ele fez, assim, cento e&#8230; Era, assim, mais de cem looks.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele achava que ele tinha o right de insult. E ele falava o que ele queria. Ele não tinha medo de fazer inimigos. Ou talvez ele nem achasse que o que ele estava falando era tão venenoso ou tão detrimental.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A estreia de Ocimar na semana de moda parisiense, a entrada na Lanvin e as tretas pelo caminho. Não perca!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ocimar Versolato do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil e faz parte da série Do Avesso, que resgata grandes nomes da moda brasileira. O primeiro biografado foi Clodovil Hernandes, que teve sua trajetória destrinchada em seis episódios, também disponíveis nas principais plataformas de áudios. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do programa Fashion File, apresentado por Tim Blanks e exibido pelas TVs CBS Television e CBS Newsworld, do Canadá, da abertura do Fantástico, exibido pela Rede Globo, e do quadro Ponto de Vista, apresentado por Cristina Franco, no Jornal Hoje, da Rede Globo.</span></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Clodovil do avesso: O pivô final</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-o-pivo-final</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Oyama]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Apr 2024 11:00:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[cacá rosset]]></category>
		<category><![CDATA[cida diogo]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil do avesso]]></category>
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		<category><![CDATA[dilma rousseff]]></category>
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					<description><![CDATA[Sexto e último episódio do podcast relembra a passagem de Clodovil pelo Congresso Nacional, a morte e o legado do estilista.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="Spotify Embed: 06- O pivô final" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/6w0JlnlI9XcnwQq6cCdvLW?si=-hoOV5ZCRhaFZ4Nx8QOpeQ&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p class="p1"><span class="s1"><strong>Ouça Clodovil do Avesso em:</strong> <a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Spotify</span></a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Apple Podcasts</span></a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Amazon Music</span></a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Google Podcasts</span></a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Deezer</span></a></span></p>
<p class="p2"><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">São pequenos detalhes, mas são eles que valem a pena. Assim como um vestido é feito de um pequeno detalhe, a grande vida de um ser humano é feita de pequenos detalhes também. Pode ter certeza disso. Até segunda-feira, se Deus quiser, tenho certeza que ele há de querer. Mudanças acontecerão e que elas sejam pra melhor, pra vocês e pra mim. Porque de nada adiantaria fazer televisão pra um povo infeliz. Eu não gostaria.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este é o trecho final do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa é sua</span></i><span style="font-weight: 400;">, transmitido em 14 de janeiro de 2005. Como anunciou Clodovil, mudanças aconteceram, mas não foram exatamente para melhor. Ele não retornou ao estúdio na segunda-feira porque foi demitido da Rede TV! devido a comentários ofensivos feitos à apresentadora Luisa Mell. Além de colega de emissora, Luisa, na época, era namorada de Amilcare Dallevo, simplesmente o presidente e co-proprietário da Rede TV!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após mais essa demissão, Clodovil amargou um período bem difícil. Sem salário e com diversos processos contra ele rolando na Justiça, a situação financeira do apresentador estava mais crítica do que nunca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E a coisa ficaria pior. Em setembro daquele mesmo ano, ele foi diagnosticado com câncer de próstata. Mas ainda não seria dessa vez que ele sairia de cena. Porque o destino reservava uma última guinada na vida de Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Gabriel Monteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E este é </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso</span></i><span style="font-weight: 400;">, o podcast da ELLE Brasil que conta a vida de Clodovil Hernandes, o menino do interior paulista que gostava de desenhar, se tornou um dos principais costureiros do Brasil, conquistou uma legião de fãs e haters como apresentador e foi eleito deputado federal com quase 500 mil votos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste último episódio, vamos falar da breve e intensa passagem de Clodovil pelo Congresso Nacional, dos últimos dias na capital federal e do legado deixado pelo estilista mais polêmico do Brasil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como a gente pode acompanhar nos episódios anteriores, demissões eram algo frequente na carreira de Clodovil. Mas essa última, da Rede TV!, comunicada por fax, foi especialmente dolorosa, como ele confessou a Silvio Santos, no programa</span><i><span style="font-weight: 400;"> Nada além da verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu perdi um trabalho que eu tinha adoração por ele. Eu nunca fiz nenhum trabalho na televisão que eu tivesse tanto amor como A casa é sua. As pessoas pensam que eu não gostava. Porque eu conheci a Vida Vlatt justamente nessa época. E nós fazíamos 4 horas e meia de TV por dia às gargalhadas, sem texto, tudo de improviso, porque era verdade. Existia uma coisa de amor no trabalho da gente e era todo santo dia. Foi quase um ano e eu ia com uma alegria pra televisão, uma vontade de chegar logo na emissora. E fui posto pra fora de lá por uma amante de uma das pessoas de lá. </span></i></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-clo-para-os-intimos">Clodovil do avesso: Clô para os íntimos</a></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Desempregado aos 67 anos, com um histórico de brigas por todas as emissoras por onde havia passado, não seria fácil para Clodovil conseguir uma recolocação profissional. Nos meses seguintes, ele só apareceria na TV no papel de convidado, como na ocasião em que foi ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Show do Tom</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por Tom Cavalcante na Rede Record, e protagonizou um célebre bate-boca com Cacá Rosset, que culminou com o diretor de teatro saindo no meio do programa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Cacá, você não tinha uma roupinha melhor pra vir, não?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Cacá Rosset): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, ué. Eu como sou mais pobre que você, eu não tinha uma roupinha melhor, infelizmente.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Gaste seu dinheiro melhor pra se vestir.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Cacá Rosset): </span><i><span style="font-weight: 400;">Ele já falou que eu sou maltrapilho, que eu sou mais pobre que ele…</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">E não tem cabelo também! Eu tenho!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Cacá Rosset): </span><i><span style="font-weight: 400;">Esse cidadão é o dono da verdade! </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não, quem me dera!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Cacá Rosset) </span><i><span style="font-weight: 400;">Ele é o dono da verdade. Ele é rico, ele é maravilhoso, ele tem cabelo! Eu sou uma porcaria!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em setembro de 2005, Clodovil voltou a ser notícia: o apresentador anunciou que estava com câncer de próstata. Ele falou sobre o assunto em uma entrevista a Gugu Liberato, gravada, a pedido dele, dentro da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, em São Paulo. E atribuiu o surgimento do tumor às decepções que teve na televisão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">O meu tumor de agora tem um nome. O meu tumor de próstata chama-se televisão.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Gugu): </span><i><span style="font-weight: 400;">Você acha que o tumor, ele vem de&#8230; Sofrimento, somatização?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Sofrimento, exatamente. Mas, no meu caso, esse não é para me fazer sofrer. Esse é para me fazer crescer. Porque morrer, todos nós estamos morrendo. Tonta da pessoa que morre de medo. Eu morro de vida. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Gugu): </span><i><span style="font-weight: 400;">Mas a televisão te fez sofrer muito?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Muito! Ce já pensou quantos calotes eu já levei, Gugu?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos prejuízos que Clodovil alegava ter sofrido foi justamente no seu último emprego, na Rede TV! Ele entrou com uma ação indenizatória contra a emissora, por demissão injusta, e perdeu em primeira instância. Mas aí entra em cena outra figura-chave dos últimos anos de Clodovil: a advogada Maria Hebe Pereira de Queiroz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela assumiu o caso e conseguiu reverter a decisão. Na época, a Rede TV! foi condenada a pagar 1 milhão de reais a Clodovil, mas ele não chegou a ver esse dinheiro. A emissora entrou com vários recursos e perdeu em última instância em 2012, três anos após a morte do apresentador. A indenização começou a ser paga em 10 parcelas ao espólio de Clodovil só no final daquele ano. Maria Hebe ainda entrou com uma segunda ação contra a Rede TV!, dessa vez de prestação de contas. Esse processo tramita até hoje na Justiça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas além de ser a advogada e, posteriormente, a responsável por administrar o espólio do estilista, Maria Hebe teve outra participação fundamental nessa história: foi ela que deu a Clodovil a ideia de entrar para a política.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Um dia eu cheguei na casa dele, e eu disse assim, eu falei para ele que eu ia abrir a geladeira, porque eu queria uma água gelada, o que nem era verdade, eu queria ver o que tinha lá, se ele tinha o que comer. Só tinha leite lá dentro. Aí eu disse, Clô, por que você não se candidata a deputado federal? Eu acho isso errado, mas a gente vê tanta coisa errada na política e ninguém entra lá com boas intenções. E ele tinha muito boas intenções, eu vou dizer para você.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A advogada conta que, quando sugeriu a candidatura, Clodovil só olhou para ela e não respondeu. Mas no dia seguinte, logo de manhã, já ligou querendo retomar a conversa.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">No dia seguinte, ele começou me ligando eram 10 horas da manhã. “Vem aqui”. Eu falava com ele, “eu estou chegando no escritório, eu tenho que trabalhar”. “Não, mas você vem aqui.” Quando era uma e meia, duas horas, ele ligou de novo. “Eu estou te esperando, você vem aqui, eu quero conversar daquele assunto.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Maria Hebe foi à casa de Clodovil no final do dia e explicou que, para se candidatar, a primeira coisa que ele precisava fazer era se filiar a um partido político. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E aí vem uma daquelas revelações surpreendentes de Clodovil: o apresentador disse que queria se filiar ao partido de Heloísa Helena, que, na época, era senadora pelo PSOL, sigla que nasceu de dissidentes do PT. Naquela eleição de 2006, Heloísa Helena foi candidata à presidência da república pela coligação Frente de Esquerda, que reunia o PSOL, o PSTU e o PCB.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, a advogada chegou a contactar o partido de Heloísa Helena, mas a conversa não foi muito animadora.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Contei que ele estava querendo sair candidato e que ele queria fazer exatamente isso, entrar no partido por causa da Heloísa Helena. Aí, ele falou assim: “Então, ele já leu o estatuto do partido?” Ele chamava Márcio, se não me engano. Eu falei: “Márcio, você está brincando. Você acha que o Clodovil vai sentar e ler o estatuto do partido? Se ele concorda ou não? Eu acho que você deveria muito bem filiá-lo, porque você vai fazer pelo menos mais um, dois ou três deputados em cima dele, porque é o coeficiente eleitoral, certo?” Aí, ele falou: “Mas ele tem que ler, não sei o quê”. Eu falei: “Então, eu vou conversar com ele”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela, então, avisou Clodovil que era melhor descartar a primeira opção de partido, mas já providenciou outro caminho.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Aí, eu peguei e falei: “Clodovil, sem condições de sair no partido da Heloísa Helena”. Aí, eu liguei para o Ciro Moura, presidente do PRN: “Ciro, você quer filiar o Clodovil? Você vai fazer no mínimo mais um deputado aí, ou dois, não sei o quê”. Ele aceitou na hora.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só uma rápida contextualização: o PRN, nas eleições de 2006, já havia sido rebatizado de PTC, Partido Trabalhista Cristão, e hoje se chama AGIR36.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, com a filiação e outras pendências resolvidas – Clodovil não fazia declaração de imposto de renda há anos, por exemplo –, era hora da campanha eleitoral. O partido não tinha muito dinheiro e o candidato, muito menos.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu falei para ele, Clô, você não precisa ter outro, você vai se eleger sozinho. Você se elege na hora. E eu vou dizer para você, nem campanha fez. Se tivesse feito campanha, tinha feito mais de um milhão. Ele não tinha nada. Ele um dia ganhou de um amigo um santinho, que era um santinho do tamanho de uma folha de ofício. Não dava para andar com aquele lá. Ele mal tinha santinho, entendeu? Porque não deram nada para ele, não tinha dinheiro, não tinha nada. O partido também não tinha dinheiro.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas apesar da escassez de recursos, Clodovil fez o que sabia fazer de melhor: aproveitou os poucos segundos a que tinha direito no horário eleitoral gratuito para fixar sua candidatura na cabeça do eleitorado, passando uma imagem de seriedade e comprometimento, sem deixar de lado um certo deboche. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu queria, eu prometo”. Sempre as mesmas palavras, né? Que coisa velha, que coisa antiga essa política brasileira, não é, menino? Agora, me aguardem, porque vai mudar tudo. Ah, vai. 3611 é meu número e vocês sabem disso. Agora, por que eu escolhi o 11? Meu amor, porque o 24 já era, agora é um atrás do outro!</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Esta figura bem educada, que verbaliza direito, vocês não pensem que eu sou passivo, não. Pisa no meu pé pra ver o que acontece. Eu não tenho talento nenhum pra prometer nada, mas tenho talento pra denunciar.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E então, no dia 1 de outubro de 2006, Clodovil Hernandes foi eleito deputado federal por São Paulo, com 493.951 votos. Foi a terceira maior votação do Estado e a quarta maior votação do país. Ficou atrás apenas de Paulo Maluf, Ciro Gomes e Celso Russomano. Embora não fosse uma bandeira levantada pelo candidato, ele foi o primeiro homossexual declarado a conquistar uma cadeira na Câmara de deputados.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu não sei o que é decoro com um barulho desses enquanto a gente fala. Não sei. O que seria decoro? Porque parece um mercado. Isso aqui parece um mercado, isso aqui representa o país. Eu não entendo que tanto barulho quando as pessoas estão falando. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia em que deu esse puxão de orelha nos coleguinhas da Câmara, Clodovil conseguiu a rara proeza de deixar o plenário em silêncio, e garantiu que faria muito mais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E Brasília nunca mais foi a mesma depois da passagem de Clodovil por lá, como ele prometeu na campanha? Não, né? Continua a mesma coisa. Mas durante aqueles dois anos e 76 dias de duração do mandato do estilista, o Congresso Nacional conheceu pelo menos um pouco mais de estilo e elegância.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia da posse, em contraste com a maioria dos eleitos, que vestiam os trajes escuros de praxe, Clodovil assumiu o cargo usando um terno branco de algodão com um brasão da República bordado no bolso, chapéu Panamá, sapato bicolor preto e branco e uma bengala de madeira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A reforma do gabinete foi outra medida de Clodovil que virou pauta. De acordo com o que foi noticiado na época, ela custou cerca de 200 mil reais e foi paga com recursos próprios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na recepção, foi colocado um tapete tibetano, um sofá de dois lugares e um retrato do parlamentar em papel reciclado, borra de café e barro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o destaque da decoração no espaço de 29 metros quadrados era uma cobra naja de metal que servia de base para uma mesa com tampo de vidro. A peça foi até assunto de uma entrevista dada por Clodovil no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Hoje em Dia</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Record, apresentado por Ana Hickmann, Edu Guedes e Britto Junior.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Ana Hickmann): </span><i><span style="font-weight: 400;">É verdade que você usa uma cobra na decoração?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, eu tenho uma cobra que segura a minha mesa, que é uma naja oriental que se chama Marta. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Britto Jr): </span><i><span style="font-weight: 400;">É uma homenagem?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">É uma homenagem à senhora Marta Suplicy.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ex-prefeita de São Paulo, como era de conhecimento público, foi um desafeto histórico de Clodovil e moveu uma ação contra o antigo colega da TV Mulher por comentários ofensivos feitos a ela em 2004. Essa foi uma das indenizações que o espólio de Clodovil teve que pagar em 2012. O valor, corrigido, ficou em torno de 230 mil reais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo durante sua curta carreira de parlamentar, Clodovil não conseguiu deixar de lado a paixão pela TV. E logo no início do mandato, embarcou em uma última aventura como apresentador: o programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Por Excelência</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV JB, dirigido pelo amigo José Augusto de Souza.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">E o projeto era assim, a gente queria fazer um reality show dentro da Câmara Federal, sabe? Pegar o telefone: “Ministro, o senhor está sendo gravado. Aqui é o deputado Clodovil, e eu queria saber a respeito da verba para o hospital de Ubatuba”. E isso causou um pânico dentro da Câmara Federal, porque deputados não gostam de gravações. Quando a gente entrou, eu, o cinegrafista e ele, dentro do cafezinho da Câmara, ele começou a entrevistar as pessoas aleatoriamente, o Conselho de Ética da Câmara foi acionado imediatamente para que aquilo não acontecesse mais.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O programa então, acabou tendo um formato mais tradicional, de entrevistas.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu quando pedi esse programa, a chance de poder entrevistar os parlamentares, as pessoas envolvidas com a política, era pra mostrar o coração dessa gente, que fica escondido em Brasília. O povo não sabe do coração das pessoas.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, na escolha dos convidados, Clodovil não discriminava nenhum espectro político. Dilma Rousseff, na época ministra-chefe da Casa Civil, a deputada Luiza Erundina e o então senador Fernando Collor de Mello foram alguns dos entrevistados do programa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em julho de 2007, no entanto, só quatro meses após a sua estreia, </span><i><span style="font-weight: 400;">Por excelência</span></i><span style="font-weight: 400;"> saiu do ar. O motivo? Pois é, Clodovil foi demitido de novo. Mas, na última demissão de sua vida, a causa não foi a língua solta do apresentador. Clodovil foi dispensado por faltar a várias gravações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já do cargo de deputado Clodovil não poderia ser demitido. Mas claro que em alguma confusão ele iria se meter. Em setembro de 2007, ele anunciou que estava deixando o Partido Trabalhista Cristão para se filiar ao Partido da República, o PR. O PTC não gostou da troca e entrou com uma petição no Tribunal Superior Eleitoral para que o deputado perdesse o mandato por infidelidade partidária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo se arrastou por quase todo o período de Clodovil no Congresso e só foi encerrado em março de 2009, dias antes de sua morte, quando o TSE julgou que a mudança de partido era justificável e manteve por unanimidade o mandato do apresentador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas a grande polêmica de Clodovil no Congresso foi o embate com a então deputada Cida Diogo, do PT. Cida foi ofendida pelo colega quando recolhia assinaturas no plenário para uma representação contra ele. O motivo dessa representação era a declaração de Clodovil, que a gente comentou no episódio 4, dizendo que as mulheres estavam ficando ordinárias e que trabalhavam deitadas e descansavam em pé. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com o relato da deputada, que ficou extremamente abalada na ocasião, Clodovil teria dito que Cida, abre aspas, era tão feia que não poderia nem ser puta, fecha aspas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil negou o uso do palavrão, mas admitiu que chamou a parlamentar de feia. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Se eu tivesse dito palavrão, ela teria me dado um tapa na cara, que é coisa que qualquer mulher faria. Eu não disse! Eu não tive nem tempo, ela saiu correndo, rodopiando. Eu falei: ela vai fazer cena lá em cima, dito e feito. Eu tenho obrigação de achá-la bonita por quê? Eu ainda disse: faça como eu, querida, vá para o hospital, se opere, vá pra Santé. Se cuide, eu tenho 70 anos e ninguém diz.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nós procuramos Cida Diogo, para falar sobre o episódio, mas a ex-deputada, que é médica, e hoje trabalha no Ministério da Saúde, preferiu não remexer no assunto, uma vez que envolve alguém que já morreu.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil nunca pediu desculpas à colega, mas teve, sim que se retratar em relação à declaração misógina que originou a representação de Cida e da bancada feminista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele escreveu um pedido de desculpas às mulheres, que seria lido no plenário, mas acabou sendo divulgado por escrito, porque Clodovil sentiu dores no peito e teve que ser internado em São Paulo. Na carta, dirigida ao povo brasileiro, ele dizia se arrepender por não ter sido atento e não ter se dado conta de que ultrapassava os limites do politicamente correto. E continuava, abre aspas: &#8220;Peço desculpas às mulheres. Elas sabem, pois me conhecem há anos – e não somente agora na figura de deputado federal – que sou assim, que às vezes me empolgo e falo demais, mas que isso não significa, em momento algum, desprezo ou desrespeito pelas mulheres”. Fecha aspas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nem só de polêmicas se fez a passagem de Clodovil pelo Congresso Nacional. Em pouco mais de dois anos de mandato, ele apresentou 55 propostas. Dessas, apenas duas se concretizaram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A primeira foi o projeto de lei que autoriza o enteado a adotar o nome da família do padrasto. O PL foi aprovado pelo Senado e transformado em lei ordinária em abril de 2009.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A segunda foi o PL que torna obrigatório o nome dos dubladores nos créditos das obras audiovisuais, transformado em lei em novembro daquele mesmo ano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os projetos que não foram aprovados, o que fez mais barulho foi a Proposta de Emenda Constitucional que reduzia o número de deputados federais de 513 para 280. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu pretendo diminuir o número de deputados na Câmara de deputados federais. Mas não sou eu que pretendo. É uma necessidade premente. É muita gente, é muita despesa, é muito tudo isso e muito desentendimento, quer a gente queira, quer não. Onde muita gente fala, toda casa que não tem autoridade, ninguém manda.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil conseguiu a assinatura de mais de um terço da Câmara para dar encaminhamento à PEC, mas, previsivelmente, a proposta não foi pra frente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro projeto que continua dando o que falar até hoje é o PL 580, de 2007, que regulamentava a união civil de homossexuais. Como a gente comentou no episódio 4, o projeto de Clodovil acabou recebendo emendas que distorceram a ideia inicial, de legalizar a união homoafetiva principalmente para fins patrimoniais, e acabou virando uma proposta para proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O projeto ainda está em tramitação na Câmara.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil tentou emplacar outros projetos pertinentes, como o PL 207, também de 2007, que obrigava o Estado a dar tratamento médico e psicológico às vítimas de violência sexual. A proposta acabou arquivada, assim como aquela que obrigava as escolas a divulgarem a lista de material escolar 45 dias antes do início do ano letivo e a que criava o Dia da mãe adotiva. Essas duas últimas chegaram a ser aprovadas na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara uma semana após a morte do deputado, mas, passada a comoção, caíram no esquecimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil também não conseguiu aprovar o PL que tornava obrigatório o exame de próstata para os trabalhadores com mais de 40 anos. A prevenção do câncer de próstata, por sinal, foi uma das grandes causas defendidas pelo deputado, que sempre falava no assunto nas entrevistas, como esta, dada a Rodrigo Faro, no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Hora do Faro</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que mostrou o dedo do meio para a plateia.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Então, eu posso falar sobre câncer no plenário porque eu tive. Porque as pessoas não têm coragem de falar de câncer. O homem é um bobo, ele tem medo deste dedo e leva a vida moral neste dedo. As pessoas fazem este gesto na rua por causa disso. Isso é um crime, gente. Vocês induzem homens a morrerem de câncer. Porque o único exame que detecta o câncer de verdade é este. O PSA, que é o exame pelo sangue, não diz que tipo de câncer você tem. E isto não faz absolutamente nada de imoral com o homem. Ao contrário, salva a vida dele, salva o pai de família.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das sequelas do câncer de próstata de Clodovil foi um quadro de incontinência urinária. Em agosto de 2008, ele se submeteu a uma cirurgia na uretra para corrigir o problema. O procedimento foi bem sucedido, mas dias depois o deputado teve uma embolia pulmonar, que o levou a ser internado na UTI. Ele se recuperou e retomou os trabalhos na Câmara.</span></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-lente-da-verdade">Clodovil do avesso: A lente da verdade</a></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">A saúde de Clodovil, no entanto, já não era a mesma há algum tempo. Além do câncer, ele teve episódios de hipertensão e um primeiro AVC em junho de 2007, que o levou a uma internação de sete dias e chegou a afetar temporariamente seus movimentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das hospitalizações necessárias, Clodovil também se internou várias vezes por conta própria. Quando assumiu seu mandato em Brasília, o deputado não tinha mais seu apartamento na República do Líbano e, quando voltava a São Paulo, se hospedava em uma famosa clínica de estética – e aproveitava para mexer aqui e ali, numa rotina de procedimentos que vinha se intensificando nos últimos anos, como ele havia contado a Gugu, no </span><i><span style="font-weight: 400;">Domingo Legal.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu fiz… Eu fiz o que aqui, Meu Deus? Eu fiz tanta coisinha aqui. Porque essas peles todas que envelhecem a gente, eu fui tirando aos poucos. Eu tirei quatro vezes. Ainda tem um pouco para daqui a uns 20 anos, quando eu tiver 90, eu resolver o que eu vou fazer, aí eu faço aqui. </span></i><i><span style="font-weight: 400;">Porque o que envelhece a gente é que a cara despenca. E você vê que a pessoa fica com cara de cebola, né? Todo mundo fica&#8230; Às vezes tem os traços bonitos, mas a cara despenca. Eu estou muito melhor agora do que quando eu tinha 30 anos, eu acho.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os problemas de saúde, entretanto, não impediram que Clodovil exercitasse como nunca seu lado anfitrião no Distrito Federal. O amigo Mauricio Petiz, que foi chefe de gabinete do deputado, como a gente contou no episódio passado, lembra que Clodovil costumava organizar dois jantares por semana. Um às quartas-feiras, em que recebia políticos, e outro às quintas, onde juntava senhoras da sociedade de Brasília, antigas clientes e outros amigos e conhecidos. E, como era do feitio de Clodovil, não era um jantar qualquer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>Ele não tinha essa percepção das divergências ou das diferenças políticas e tal, ele adorava o social disso tudo. Então ele fez um apartamento deslumbrante, as pessoas entravam, ficavam ensandecidas, porque afinal era um apartamento funcional que ele pôs abaixo, como pôs também o gabinete, e refez tudo aquilo. Tinha um piano de cauda, ele comprou o piano para o apartamento, e as pessoas jantavam com o pianista tocando. Então, assim, era todo um requinte, uma coisa que ele tinha, e ele curtia isto, ele adorava fazer isso, ele adorava mostrar para as pessoas que ele sabia receber, que ele sabia cozinhar, e ele falava, eu preparei isto, isto, isto, e fiz assim…</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia 15 de março de 2009, Clodovil estava especialmente empenhado na preparação de um jantar em homenagem a Michel Temer, que tinha acabado de ser eleito presidente da Câmara dos Deputados. O encontro foi marcado excepcionalmente pra uma terça.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Esse jantar que ele falava, ele falou que era o jantar da Vitória, e ele não veio para São Paulo, ele ficou em Brasília no fim de semana preparando tudo isso e tal. E tinha uma deputada amiga nossa, que é do Ceará, e ela é que ia levar as lagostas para ele preparar para o jantar. Ele falou comigo, era uma e pouco da manhã: “Você cobrou a deputada, porque ela não pode, não sei o quê, porque as lagostas, tal, tal, tal”. “Tá bom, amanhã cedo eu ligo e reforço”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A deputada, de fato, levou as lagostas para Brasília. Mas o jantar nunca aconteceu.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Sete e dez, algo assim, tocou o meu telefone e no identificador de chamada veio o telefone privativo do quarto dele, era o telefone fixo do quarto de Brasília. E eu falei: “Meu Deus, ele falou comigo à uma, já está ligando de novo”. E, na verdade não era, não era o Clodovil, era a empregada dele, que foi pegar a Castanhola para dar o remedinho, a Castanhola estava com uma infecção, estava tomando remedinho, então ela foi pegar a Castanhola no quarto e o Clodovil estava no chão, deitado no chão, de bruços. E ela me ligou e falou: “Seu Maurício, o deputado está dormindo no chão”. Eu falei: “Ah, então acorda ele e fala para ele ir para a cama”. “Eu chamei, mas ele não me respondeu”. Eu falei: “Então, chama o Klaus no quarto&#8221;, que o Klaus estava dormindo no quarto ao lado. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Klaus Agabiti era um dos amigos mais antigos e próximos de Clodovil, que infelizmente a gente não conseguiu entrevistar para o podcast. Nesses últimos meses em Brasília, ele e Maurício se revezam no apartamento funcional para não deixar o deputado sozinho, por causa dos problemas de saúde que ele vinha apresentando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Naquela segunda-feira, Klaus foi ao quarto, virou Clodovil de barriga para cima e viu que ele ainda respirava. De São Paulo, enquanto corria pra pegar o avião, Maurício acionou o serviço médico da Câmara, que enviou uma ambulância para o apartamento do deputado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil foi internado no Hospital Santa Lúcia, e o plano inicial era transferi-lo para o Sírio Libanês, em São Paulo. Mas o médico que atendeu o deputado avaliou que não havia condições do traslado ser realizado, porque o estado do paciente era gravíssimo.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Porque nos exames indicava que ele tinha quase 300 ml de sangue na caixa craniana, ou seja, foi um AVC que rompeu e estufou, começou a comprimir o cérebro, claro, de sangue espalhado ali. E aí, eles precisavam fazer um procedimento com perfuração, com duas cânulas, uma para injetar um solvente e outra para retirar isso, para tentar drenar um pouco esse coágulo. E tentou-se, claro, mas, assim, não obteve resultado. Eu não sei se drenou, se não drenou, eu só sei que ele continuou em estado gravíssimo.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por volta das 16 horas do dia seguinte, os médicos anunciaram a morte cerebral de Clodovil. Maurício ainda tentou autorizar uma doação de órgãos, mas o deputado sofreu uma parada cardíaca na sequência, que inviabilizou o procedimento.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Boa noite. Morreu hoje aos 71 anos o estilista e deputado federal Clodovil Hernandes. Ele foi internado ontem depois que sofreu um derrame. A repórter Poliana Abritta traz as informações de Brasília.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O velório de Clodovil foi realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo e reuniu amigos, fãs e vários políticos, como Valdemar Costa Neto e Michel Temer. E nesse traslado do corpo de Brasília para a capital paulista, o chefe de gabinete teve um último cuidado com o amigo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil não voava de Gol nem amarrado. Só fazia esse trajeto de TAM. Acontece que a TAM não realizava traslado de corpo. E mesmo com o deputado morto, Mauricio decidiu que não colocaria o amigo num voo da companhia aérea em que ele se recusava a voar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Aí, eu liguei no Palácio do Planalto e nós tínhamos tido uma reunião com a então ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, e expliquei a situação, e ela liberou um avião da FAB para fazer o traslado do corpo.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil partiu, mas as polêmicas e confusões envolvendo seu nome continuam vivas. Não faltam na internet teorias dizendo que ele na verdade teria sido assassinado, embora o laudo médico seja bastante claro e não exista nenhuma evidência de crime.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilista não deixou herdeiros. Seu último desejo era que sua herança fosse usada para criar uma instituição dedicada a cuidar de meninas carentes, como ele contou na última entrevista a Amaury Jr.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Vai se chamar Fundação para meninas Isabel Hernandes. E essa fundação vai tomar conta de meninas que estão abandonadas em casa. Porque essa coisa de meninas abandonadas na rua é muito vaga, né? As meninas que ficam em casa recebem homens em casa, fumam crack, as mães estão trabalhando por aí. E essas meninas precisam ser tiradas de casa e colocadas em um lugar em que alguém mostre a elas a beleza da vida, goste delas e não as obrigue a nada. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil tinha todo o projeto formatado na cabeça. A sede da fundação seria a casa de Ubatuba. As meninas chegariam às 7 da manhã e ficariam até 5 da tarde, aprendendo várias atividades, mas se não quisessem frequentar as aulas, não teriam que ir. Ele acreditava, no entanto, que, sem fazer pressão, e com o exemplo de outras colegas, todas as garotas acabariam estudando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que o apresentador não previa era que, antes de sua herança poder ser usada para a criação de uma fundação, ela teria que dar conta de pagar as suas dívidas. E elas eram várias: iam de salários de funcionários a indenizações estipuladas pela Justiça nas ações movidas contra ele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para levantar fundos para cobrir as dívidas que se acumulavam, foi realizado um leilão dos bens de Clodovil em 2012, que ganhou até reportagem de 6 minutos e meio no </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">De cara, já dava pra saber. Essas peças só podiam ser dele, Clodovil Hernandes. Agora, elas estão prontas pra ganhar um novo dono. E o Fantástico teve acesso exclusivo aos mais de 150 objetos, joias e móveis, que esta semana vão a leilão em São Paulo, três anos depois da morte de Clodovil.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre peças como uma gravata borboleta coberta de brilhantes, objetos de valor sentimental, como o medalhão com a foto da mãe, e baús e bolsas Louis Vuitton – incluindo duas falsificadas –, o leilão arrecadou mais de 370 mil reais, valor bem acima da expectativa inicial, de 80 mil reais.</span></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-moda-de-clo">Clodovil do avesso: A moda de Clô</a></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">A casa na Granja Viana também foi vendida para pagar dívidas. Já a famosa mansão de Ubatuba é um dos grandes enroscos do espólio. O imóvel foi a leilão no final de 2017 e ninguém se interessou por ele. Houve outro leilão meses depois, mas foi só na terceira tentativa, em agosto de 2018, que a casa foi arrematada por 750 mil reais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que logo depois a compradora, uma moradora de Campinas, pediu a anulação do negócio na Justiça, por se sentir ludibriada. O caso é que a mansão foi erguida numa região de preservação ambiental, o que gera uma série de restrições ao proprietário, como a proibição de ampliar a área construída.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pedido de anulação foi negado no tribunal, mas a nova proprietária até hoje não tomou posse do imóvel, que está abandonado desde a morte de Clodovil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por determinação da Justiça, uma parte da casa foi demolida em 2016, por estar em uma área de preservação permanente. O Ministério Público de São Paulo chegou a requerer a demolição total do imóvel, mas o pedido foi negado em março deste ano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atualmente, a casa de Ubatuba, que tinha mais de 20 cômodos e hidromassagem com uma vista absurda para o mar, está literalmente caindo aos pedaços. Apenas um funcionário, pago pelo espólio de Clodovil, vigia o local para evitar invasões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas se a herança física deixada por Clodovil está em ruínas, o que resta do legado imaterial do estilista? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para muita gente, ele foi um mestre. Apesar de várias de suas atitudes passarem longe das boas práticas indicadas pelo RH de qualquer empresa, todas as pessoas que trabalharam com Clodovil, entrevistadas pelo podcast, relatam que aprenderam muito com ele. E ter sobrevivido a um chefe desses acabou virando um baita trunfo no currículo, como diz Maurício Petiz.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Ah, Maurício faz qualquer coisa.&#8221; &#8220;Maurício qualquer coisa que você der a ele, ele vai destrinchar porque ele trabalhou com o Clodovil.&#8221; E o Clodovil era exatamente isso. Um dia ele falou alguma coisa que eu disse: “Clodovil, desculpa, isso não é possível, não dá, não consigo fazer.” Ele falou, pôs a mão na cintura assim e olhou para mim e fez assim: “Queridinho, eu não trouxe você aqui para fazer o possível. O possível, qualquer um faz, vai lá e resolve”. E esses desafios, a bem da verdade, me ensinaram, eu me superei em muitas coisas, eu aprendi muito e digo a você com toda tranquilidade: os meus pais me educaram, me formaram, tudo isso, mas o Clodovil foi quem me botou de pé na vida. Eu aprendi com ele quase tudo que eu sei.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois que Clodovil morreu, Maurício teve a ideia de criar um instituto pra preservar a memória do estilista. Ele chegou a organizar algumas exposições, mas por dificuldades financeiras e operacionais, o Instituto Clodovil Hernandes passou a funcionar apenas virtualmente, como um perfil no Instagram, que reúne fotos do estilista, de suas criações e artigos sobre ele, enviados por amigos, fãs e antigas clientes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A admiração que Clodovil ainda desperta no público também pode ser conferida na plateia do espetáculo </span><i><span style="font-weight: 400;">Clô, para sempre, </span></i><span style="font-weight: 400;">estrelada por Eduardo Martini, em cartaz no Teatro União Cultural, em São Paulo, A peça é a segunda produção em que Martini personifica o costureiro e apresentador. A primeira foi </span><i><span style="font-weight: 400;">Simplesmente Clô</span></i><span style="font-weight: 400;">, que rendeu a ele o prêmio Bibi Ferreira de melhor ator em 2022. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente foi conferir a atuação impressionante de Martini, que realmente parece Clodovil ressuscitado no palco, e conversou com ele depois do espetáculo, pra saber um pouco das impressões do ator sobre a figura que ele interpreta.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Clô fez muita coisa, muita cagada, fez muita coisa que ele… Sei lá por que que ele fez, eu também não estou aqui nem pra defender, nem pra criticar, vocês perceberam, né? Eu não tenho essa coisa, mas é ele, né? E eu estou aqui pra fazer um cara que era inteligentérremo, que foi um ícone, ele lançou o prêt-à-porter brasileiro, ele começou a criar coisas bonitas a preço barato, porque ele queria mesmo era deixar as pessoas bonitas.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">Político, ele foi bom? Não sei. Agora, na moda, não tem o que falar. O que ele tinha de gente atrás dele, o que ele casou de noiva, o que ele teve de histórias, não tem o que contestar. O cara desenhou, fez, aconteceu, foi, não tem o que falar.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A jornalista Lilian Pacce destaca outro ponto pouco lembrado na trajetória do costureiro.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Primeiro que eu acho que é importante a gente lembrar que ele é o primeiro, digamos, estilista de sucesso não branco, né? Acho que isso é muito importante, num meio em que o preconceito predominava e, de certa maneira, predomina até hoje. Ele, apesar da pele dele, apesar da cor dele, ele se impôs lindamente no mercado, né? O fato dele existir já era um enfrentamento ali, sabe?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem também destaca esse pioneirismo involuntário de Clodovil, que nunca foi de abraçar publicamente pautas de minorias, é Vagner Carvalheiro, professor do curso de Modelagem do Vestuário na ETEC José Rocha Mendes. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A gente poderia ser mais tolerante, principalmente com pessoas de gerações muito anteriores à nossa, que tiveram que desbravar o Brasil. Eu fico pensando, né? Ser gay no Brasil na ditadura, e vender roupas. Porque ele era gay, era assumido e fez sucesso. O auge da carreira do Clodovil é a época da ditadura, de 75 a 80, 82, 83 e tudo mais.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, em suas entrevistas e durante seus programas, Clodovil falou várias vezes sobre a morte, e a gente pensou em escolher a melhor declaração dele sobre o assunto pra incluir aqui. Mas, no final, decidimos encerrar este podcast com mais uma passagem contada pelo amigo Mauricio. Ela aconteceu na volta de um fim de semana em Ubatuba, em que eles haviam assistido ao filme </span><i><span style="font-weight: 400;">O Segredo de Beethoven</span></i><span style="font-weight: 400;">, que conta a relação de afeto e cumplicidade entre o compositor alemão e sua assistente, Anna Holtz.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Um dia lindo, lindo, ensolarado, e aquela serra, nós subimos aquela serrinha de Taubaté, pela Oswaldo Cruz, que ela é toda cheia de curvas, né? E aí, assim, estávamos subindo a serra, o motorista sentado à frente, eu e ele no banco de trás, e ele ouvindo a Nona sinfonia de Beethoven. Pôs lá o DVD e estava ouvindo, o CD, perdão, ouvindo a Nona sinfonia. E aquela coisa inebriante, porque o dia era um deslumbramento, tudo era lindo e a música linda, e uma hora eu falei assim – vou falar uma coisa feia, vou falar exatamente como eu falei. Falei: “Puta que pariu, Clodovil, por que que não nasce mais gente assim?” E ele: “Como você é tonto.” &#8220;Como assim?&#8221; Falou: “Maurício, gente assim não morre. Quanto tempo passou e nós estamos aqui ouvindo a obra e falando dele? Então, as pessoas só morrem quando a última pessoa no universo esquecer o nome dela.”</span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso é um podcast produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização, Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos dos programas </span><i><span style="font-weight: 400;">Nada Além da Verdade </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Domingo Legal</span></i><span style="font-weight: 400;">, do SBT; </span><i><span style="font-weight: 400;">Show do Tom</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hoje em Dia</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Hora do Faro</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Record; </span><i><span style="font-weight: 400;">A casa é sua</span></i><span style="font-weight: 400;"> e Amaury Jr., da Rede TV!, </span><i><span style="font-weight: 400;">Jornal Nacional</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede Globo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Por Excelência</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV JB; </span><i><span style="font-weight: 400;">Jornal do Terra</span></i><span style="font-weight: 400;">, do portal Terra, TV Câmara, da campanha de Clodovil no horário eleitoral gratuito de 2006 e da apresentação da Nona sinfonia de Beethoven pela Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo no Theatro Municipal.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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<credito_imagem_destaque>Arte: Gustavo Balducci</credito_imagem_destaque>
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			<media:title type="plain">Campanha de Clodovil (PTC) - Deputado Federal SP 2006</media:title>
			<media:description type="html"><![CDATA[Clodovil foi o terceiro deputado federal mais votado no estado de São Paulo em 2006, com 493.951 votos (2.36%), sendo eleito através do PTC. Alguns dos vídeo...]]></media:description>
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	</item>
		<item>
		<title>Clodovil do Avesso: Clô, para os íntimos</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-clo-para-os-intimos</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Monteiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Apr 2024 11:37:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[moda]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil do avesso]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil hernandes]]></category>
		<category><![CDATA[josé augusto de souza]]></category>
		<category><![CDATA[leão lobo]]></category>
		<category><![CDATA[mauricio petiz]]></category>
		<category><![CDATA[podcast clodovil do avesso]]></category>
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					<description><![CDATA[No quinto episódio de Clodovil do Avesso, o podcast da ELLE Brasil reúne depoimentos marcantes de amigos e inimigos. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><iframe title="Spotify Embed: 05- Clô, para os íntimos" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/1TVkPb3SQ0sOBu3iu9juyV?si=jNb53D3wRmyEm_lehoEFyA&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><strong>Ouça Clodovil do Avesso em:</strong> <a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Spotify</span></a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Apple Podcasts</span></a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Amazon Music</span></a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Google Podcasts</span></a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener"><span class="s2">Deezer</span></a></span></p>
<p class="p2"><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p class="p2"><i>É Clô para os amigos, vil para os inimigos e do para quem eu quiser.</i></p>
<p class="p2">Mais do que uma provocação, a apresentação de Clodovil era a perfeita definição de quem ele era.</p>
<p class="p2">Em seus 71 anos, ele colecionou amigos e inimigos, que se mantiveram fiéis aos seus sentimentos por ele até os últimos dias. E Clodovil fez o que bem quis do início ao fim da vida.</p>
<p class="p2">Mas, para além do apresentador e figura pública, quem era Clodovil Hernandes, afinal? É o que a gente vai tentar descobrir neste episódio.</p>
<p class="p2">Eu sou Patricia Oyama.</p>
<p class="p2">Eu sou Gabriel Monteiro.</p>
<p class="p2">E este é Clodovil do Avesso, o podcast da ELLE Brasil que mergulha na vida do costureiro, apresentador e político Clodovil Hernandes, que ainda hoje, 15 anos após a sua morte, rende lembranças, discussões e memes.</p>
<p class="p2">No episódio de hoje, antes do sexto e último capitulo da nossa história, reunimos casos e passagens marcantes na vida desse personagem contada por seus amigos – e também desafetos – para tentar entender um pouco melhor esse poço de contradições chamado Clodovil.</p>
<p class="p2"><i>Ele tinha uma dinâmica diferente. Ele se arrumava dos pés à cabeça. O banho dele era muito demorado, ele se esfregava quase arrancando sangue da pele. Depois ele se perfumava, depois ele se vestia. Tinha um baú Vuitton gigante na casa dele, com gravatas e foulards de seda. Ele abria aquilo e fazia assim, pá, pá, e nunca errava. As combinações que, se a gente for fazer, dá tudo errado. Mas ele dava certo e tinha uma estética muito apurada e muito avançada.</i></p>
<p class="p2">Este que você ouviu agora é José Augusto de Souza, que no episódio passado falou sobre os apuros e os aprendizados que teve com Clodovil na TV. José Augusto foi produtor e depois diretor de Clodovil no programa <i>A Casa é sua</i>, mas ficou próximo do estilista anos antes, ao ser apresentado por amigos em comum.</p>
<p class="p2">E essa estética apurada que ele menciona valia pra tudo na vida do estilista.</p>
<p class="p2"><i>Clodovil tinha peculiaridades, Patrícia. Ele falava: “Maria, me traz um copo d &#8216;água”. Normalmente, vinha um copo, um porta-copo, qualquer coisa. Não: era uma bandeja de prata, um paninho de linho, um porta-copo de prata, um guardanapo de linho, uma jarra e uma flor. “Clodovil, mas por que isso tudo?” Ele falou: “A água não desce se não for assim”.</i></p>
<p class="p2">José Augusto se lembra de um réveillon em Ubatuba, em que Clodovil disse ao amigo para chamar toda a família: mãe, irmã e sobrinhos. E mandou fazer um aparelho de jantar especialmente pra comemoração.</p>
<p class="p2">Não que faltassem louças naquela casa. José Augusto lembra que, em outra ocasião, propôs que eles fizessem um inventário de quantos pratos rasos ele tinha em Ubatuba. Clodovil, que adorava esse tipo de missão, topou na hora, e os dois passaram a tarde contando pratos. O resultado: o acervo particular de Clodovil tinha 1.800 pratos rasos. De quebra, a dupla achou perdida entre as louças uma caixa de champanhe Cristal, que foi prontamente bebida.</p>
<p class="p2">Champanhe, aliás, era uma das poucas bebidas alcoólicas que Clodovil tomava. O estilista não era de beber, sempre foi megacareta em relação a drogas e teve só uma fase em que fumou cigarro pra fazer a chique, com piteira, como contou a amiga Rose Benedetti. O único vício em que ele deu uma deslizada foi no jogo. Em determinada época, conta José Augusto, Clodovil foi contratado para frequentar um bingo. Só que, se ele ganhava, digamos 1.000 por noite, gastava 2.000 em apostas e perdia tudo.</p>
<p class="p2">Por sinal, uma característica inegável de Clodovil era a sua total inabilidade em lidar com dinheiro. Se você ouviu o episódio 1 de Clodovil do Avesso, deve se lembrar que, assim que ele ganhou a primeira remuneração na vida foi correndo torrar quase tudo numa malha.</p>
<p class="p2"><i>Eu ganhei 1 conto e 200 com aqueles desenhos que pra mim eram banais, entendeu? Eu saí de lá, eu sempre fui meio débil, saí de lá comprei uma malha de 900 mil réis. Mas sobrou um dinheirinho mesmo assim, né? Era uma malha que eu namorava há muito tempo, na vitrine da… Ce lembra da Mozano, que tinha na São João? Você não lembra, porque você era muito jovem!</i></p>
<p class="p2">Bem, em relação a dinheiro, o Clodovil maduro continuou tão inconsequente quando o adolescente. Com isso, somado às demissões frequentes, a saúde financeira do apresentador era uma verdadeira montanha-russa, relembra José Augusto.</p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-o-menino-que-desenhava">Clodovil do avesso: o menino que desenhava</a></h5>
<p class="p2"><i>Clodovil tinha momentos de depressão financeira, em seguida já vinha uma ascensão financeira e depois vinha outra depressão e depois vinha outra ascensão. Ele não era retilíneo nas finanças. E a gente viveu isso juntos de maneira muito divertida, muito engraçada. Eu lembro que um dia ele me ligou e falou: “Está com o visto americano em dia? Falei, estou. Falou: vamos para Nova York? Falei, nossa, que convite ótimo! Quando?</i></p>
<p class="p2"><i>Ele falou, hoje. Clodovil, são três e meia da tarde. Como é que alguém, em sã consciência, vai para Nova York hoje? Resumindo, fomos! Às onze horas da noite nós estávamos fazendo um tintim na primeira classe da VASP.</i></p>
<p class="p2">Mas mesmo nos momentos de depressão financeira, Clodovil, a bem da verdade, não se apertava.</p>
<p class="p2"><i>Lembro-me de uma dureza, eu e ele, Réveillon. “Vamos para Ubatuba, pelo menos lá nós estamos no castelo e não tem problema. Passe na delicatessen tal”. Não vou falar o nome da delicatessen porque a dona é conhecida em São Paulo. “Vamos lá.” “Clodovil, não acha melhor a gente parar em uma padaria, em uma coisa mais básica, porque na Delicatessen vai ficar pesado…” “Não!” Chegou lá na delicatessen, pegou um carrinho, botou duas caixas de champanhe Cristal no carrinho e um pote de caviar Beluga. Há 20 anos atrás isso custava quarenta e poucos mil reais. Chegou no caixa e falou: “Peça para a fulana vir me cobrar, se ela tiver coragem”. E o caixa passou as compras e nós fomos embora. Enfim, coisas do Clodovil.</i></p>
<p class="p2">Quem também conviveu com o apresentador na fartura e na dureza foi Maurício Petiz. Hoje secretário de Turismo em Praia Grande, no litoral paulista, Maurício foi uma das pessoas mais próximas dele, principalmente na última década de vida. Foi assistente pessoal do estilista, trabalhou com ele na Rede TV e, por fim, foi chefe de gabinete do deputado em Brasília. Presenciou os altos e baixos do amigo e fala desse jeito peculiar com que ele lidava com a conta bancária.</p>
<p class="p2"><i>Clodovil era perdulário, né? Ele não, assim, não sabia, nunca soube lidar com dinheiro. Você sabe que eu lembro um dia nós estávamos na Oscar Freire, saímos, acho que fomos tomar um sorvete, alguma coisa assim. E aí, vamos embora. Ele tinha R$ 500 no bolso. Lembro claramente disso. E aí a gente andou da Oscar Freire até Augusta, que ele queria ir numa livraria. Foi numa livraria que vende esses livros de arte. E ele comprou um livro que custava assim R$ 450. Ele só tinha R$ 500 até ele receber de novo. Eu falei: “Clodovil, você enlouqueceu? Compre o livro depois. Você passa aqui outro dia e deixa o livro reservado, no outro momento você passa e pega”. Imagina, R$ 450 para pegar o táxi e ir pra casa. E assim foi, pegou o táxi e foi embora. E no dia seguinte? Alguma coisa acontece. </i></p>
<p class="p2">E muitas vezes, realmente acontecia alguma coisa que salvava o dia seguinte de Clodovil.</p>
<p class="p2"><i>Mas ele vivia muito bem, sempre viveu muito bem, nas piores e nas melhores fases da vida. Ele falava assim, Maurício, mesmo nos piores momentos, eu sempre vivi entre sedas e cetins. Ele dizia exatamente isso. Então, os momentos difíceis dele, ele sempre driblou, ele sempre tirou de letra, e na verdade, o Clodovil sempre foi muito, eu diria, abençoado. As pessoas, sempre alguém chegava e vamos aqui, vamos lá, vamos jantar, vamos almoçar, vamos assim. Então, ele fazia essa travessia dos momentos ruins com muita galhardia. E eu penso, assim, eu não posso dizer a você, e eu convivi muito, que o Clodovil tenha vivido mal em algum momento da vida dele por falta de grana. Não, isso não. </i></p>
<p class="p2">Bom, a gentileza dos amigos justifica em parte a travessia suave de Clodovil pelos momentos de pindaíba. Mas há também outro fator que pode ajudar a explicar como o estilista não perdia a pose, mesmo com a conta bancária no vermelho.</p>
<p class="p2">Entre os desafetos, Clodovil tinha fama de mau pagador. E quem fala sobre isso é Wanderley de Oliveira Gomes, vizinho de Clodovil em Ubatuba, que conheceu o estilista ainda no início da carreira.</p>
<p class="p2"><i>É uma pena que Clodovil era, desculpe, mau caráter, ele era muito falso, muito mentiroso, fazia coisas que você nem sabe a metade da missa. Ele não valia nada!</i></p>
<p class="p2">Aos 80 anos, Wanderley continua morando na cidade do litoral norte de São Paulo e se reúne sempre com os amigos para bebericar bons drinques. Décadas atrás, no entanto, ele era uma figura-chave na noite paulistana. Wanderley foi um dos sócios fundadores da lendária boate Homo Sapiens, também conhecida como HS, um dos pontos de encontro mais fervidos da comunidade gay nos anos 80.</p>
<p class="p2">Clodovil chegou a frequentar a HS algumas poucas vezes, mas o início das desavenças com o vizinho da praia é mais antigo. Wanderley conta que tudo começou justamente por ele ter ido cobrar um pagamento que Clodovil devia à sua prima, Jaci, que fazia bordados para o costureiro.</p>
<p class="p2"><i>Ele não pagava, a Jaci que bordava para ele, eu fui na casa dele cobrar. Ele morava ali na Marques de Itu. Então, ele deve ter ficado com raiva, porque eu cheguei lá, ele falou: “Não, eu pago depois”. Como sempre, ele era um péssimo pagador, né? Morreu devendo pra Deus e o mundo. O que tem amigo meu com cheque sem fundo! Menina, ce não acredita. Daí, bom, ele esperava inaugurar açougue aqui em Ubatuba, daí ele ia no açougue, comprava as carnes, todo mundo ficava contente de receber o Clodovil, e daí ele não pagava. Teve um açougueiro ali, no Perequê-açu, que ele parou o carro e chamou tal para comprar, ele não desceu do carro, ele queria umas carnes. O dono do açougue perguntou: “O senhor vai pagar agora em dinheiro ou não?” Ele falou: “Ah, eu não trouxe nem o talão de cheque”. Ele falou: “Então, o senhor, por favor, vai buscar o dinheiro, porque eu não vendo para o senhor fiado”.</i></p>
<p class="p2">Ao longo de quatro décadas, a relação entre Wanderley e Clodovil teve alguns momentos de trégua, em que um frequentava a casa do outro na praia. Mas, na maior parte do tempo, o clima era bélico. E uma das maiores brigas foi quando Clodovil foi eleito deputado.</p>
<p class="p2">Wanderley conta que o apresentador havia fechado a rua de acesso à casa dele e de um outro vizinho, e incorporado a área à sua propriedade.</p>
<p class="p2"><i>Bom, ele fechou a minha rua e fechou a rua do Léo, para agregar à propriedade dele as duas ruas, e construiu um negócio. Que foi tudo demolido, porque embargaram a obra umas oito vezes. Levava todas as coisas embora e, no dia seguinte, ele começava tudo de novo.</i></p>
<p class="p2">O ápice da briga foi quando Clodovil estava com a casa cheia, comemorando a vitória pela eleição a deputado federal. Wanderley estava voltando da cidade e, com o acesso fechado, teve que subir a pé até sua casa. E reclamou.</p>
<p class="p2"><i>Sabe, achava que era o dono do pedaço. E ele gritou comigo, nossa. Ele falou: “Sou autoridade”. Eu falei: “Não, você vai estar autoridade quando você receber o diploma, mas vai estar, você não é autoridade, você vai estar autoridade, perdeu o cargo, não é mais autoridade”. Daí, ele falou: “Eu te meto a mão na cara!” Eu virei para trás e falei: “Olha, se você está pensando que eu vou descer ao seu nível, Clodovil, eu não vou”.</i></p>
<p class="p2">O fechamento da rua gerou sérios transtornos para Wanderley, que processou Clodovil e ganhou a causa. O acesso foi reaberto e ele recebeu uma indenização do vizinho. Mas, antes disso, teve que enfrentar situações bem difíceis – a pior delas, quando a mãe dele morreu e Wanderley teve que carregá-la no colo até o carro. Quer dizer, a mágoa com Clodovil é bastante justificável.</p>
<p class="p2"><i>Eu, quando eu falo alguma coisa dele assim, falo: “Deus que o tenha no fogo do inferno”. Juro por Deus. Toda vez. Aqui no condomínio, ninguém gosta dele. </i></p>
<p class="p2">Outro conhecido em comum que não guarda boas memórias de Clodovil é o apresentador Leão Lobo, que trabalhou com Wanderley como promoter, na época da HS. No episódio passado, ele já deu uma amostra sobre o que pensava a respeito do colega da TV. Mas naquele dia, no café da República, Leão compartilhou várias outras situações envolvendo o apresentador, incluindo até chute numa gata grávida.</p>
<p class="p2"><i>Mas eu vi um dia ele saindo, também com a bolsa, aí, de repente, ele vê uma gatinha, prenha. Aí ele chuta a barriga da gatinha e fala assim: “Na hora de fazer o gostoso, não gemeu. Agora fica gemendo aí”. Coisas assim que eu vi. </i></p>
<p class="p2">Na visão de Leão Lobo, Clodovil aparentava ser uma pessoa que tinha ódio do mundo. E traduzia esse ódio em falas sarcásticas que extrapolavam a tão famosa sinceridade e se tornavam, de fato, agressões gratuitas.</p>
<p class="p2">O próprio Leão ouviu esses comentários mais de uma vez. E a ofensa que culminou com o rompimento definitivo entre os dois foi logo após a saída de Clodovil da Rede Mulher. A emissora foi comprada pela Igreja Universal do Reino de Deus em 1999 e Clodovil foi demitido pouco tempo depois.</p>
<p class="p2">Na ocasião, conta Leão, ele próprio foi comunicado pela direção de que não estava na lista de cortes e que a demissão de Clodovil não estava ligada à sua orientação sexual, mas sim ao seu comportamento deselegante com as pessoas. Naquela mesma noite, Leão recebeu um telefonema do colega.</p>
<p class="p2"><i>Nesse dia eu cheguei em casa, estava deitado, eu tinha um telefone que era telefone fixo e ficava na cabeceira, a minha filha era pequenininha e ela estava deitada do meu lado. Tocou o telefone, eu atendi, estava contando história para ela, de repente eu atendi, aí ele falou assim: “Leão Lobo, aqui é Clodovil, tudo bem?” Falei: “Tudo”. “Você tem advogado?” Aí eu falei: “Tenho, por quê?” Aí ele falou: “Não, porque eles vão ter que trabalhar em conjunto”. E começou a falar, falar, falar, e não me deixava falar. Aí ele falou assim: “Porque você também foi demitido, não?” Aí eu falei: “Não, não fui, inclusive me chamaram hoje para explicar que eu não seria, que era uma coisa particular com você”. Quando eu falei isso, ele parou, deu uma gargalhada e falou assim: “Ah, claro, é que eu sou a má, você é a boa”. E começou a rir. E aí a minha filha ouviu a gargalhada e falou assim: “Quem é papai?” Aí eu falei assim: “Ah, é um amigo do papai”. Aí ele falou assim: “Quem está ouvindo a nossa conversa?” Eu falei: “É a minha filhinha”. “Filha? Desde quando que viado tem filha? Você cagou essa filha?” Aí eu falei: “Boa noite, Clodovil”. Desliguei na cara dele. Acho que foi a última vez que eu tive contato assim, mesmo com ele.</i></p>
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<p class="p2">Mesmo para os amigos, entender e tolerar o jeito de Clodovil nem sempre era fácil. Aliás, isso é algo em comum entre eles: todos os entrevistados, em algum momento, brigaram com Clodovil. Mauricio Petiz, por exemplo, teve uma briga  séria depois que o apresentador foi demitido da Rede TV. O motivo era que ele não admitia que Mauricio continuasse na emissora que o havia dispensado. O rompimento durou dois anos e foi o mais longo de todos, mas houve inúmeros outros atritos. E Maurício, que conhecia Clodovil a fundo, tem uma boa explicação para tanto conflito.</p>
<p class="p2"><i>Clodovil era muito inseguro, o Clodovil testava o afeto dos amigos o tempo todo. E alguns amigos se aborrecem, tem gente que se cansa. Eu fui testado, acho que um milhão e meio de vezes… Eu saía inúmeras vezes, eu saía na casa dele puto da vida, pensando comigo, eu não volto mais aqui, eu não preciso disso, não tenho que aguentar isso e tal, tal, tal. Eu tava no caminho pra minha casa, ele tocava o telefone e dizia: “Escuta, amanhã, a hora que você estiver vindo, passe na Cristallo e pegue não sei o quê, porque eu estou com vontade disso, daquilo”. Na verdade, era isso, era o pedido dele todo o tempo, o pedido de desculpas. E as brigas, na grande maioria das vezes, era isso que eu te falei, na intenção de testar o afeto das pessoas. Eu penso que, muitas vezes, ele não acreditava que as pessoas pudessem gostar dele de fato. Algumas, várias vezes, ele dizia assim: “É, agora você vai pra sua casa, tem sua mãe, tem sua avó e eu vou pra casa e eu tenho a Castanhola (que era a cachorra), eu tenho a castanhola e os empregados que estão lá porque eu pago.</i></p>
<p class="p2">Ao mesmo tempo em que testava o afeto dos amigos, Clodovil tinha dificuldades em demonstrar, ele mesmo, seu afeto pelos outros.</p>
<p class="p2"><i>O Clodovil nunca soube demonstrar afeto. Talvez, acho que por conta dessa, da condição da adoção, enfim, toda essa problemática que eu acho que ele se sabotava até algumas vezes por não se achar merecedor de tudo aquilo que ele alcançou. Mas na essência o Clodovil era extremamente carinhoso. Então, assim, ele sabia que eu gosto de arroz doce, por exemplo, e eu tinha tido qualquer embate com ele no dia anterior por alguma razão, no dia seguinte ele chegava e falava assim: “Escuta, fiz arroz doce para você”. Assim, era a forma de pedir desculpas, era a forma de acarinhar e ele não, assim, nunca, nunca eu me lembro, e ao longo de 20 e tantos anos, o Clodovil falar assim, ah, perdão, se eu te falei alguma coisa que ficou indigesta e tal. Não, para mim, para as pessoas que eram próximas dele, nunca fez, não sabia pedir perdão. Ele pedia perdão dessa forma e acarinhava as pessoas assim também. </i></p>
<p class="p2">Esse agrado com comidinhas, como pedido de desculpas, remete a mais um talento muito mencionado pelos amigos. A habilidade de Clodovil no fogão não era só para as câmeras. Ele de fato era um cozinheiro de mão cheia.</p>
<p class="p2">Além disso, outro fato é consenso entre os amigos. Clodovil era uma pessoa solitária. Embora ele próprio discordasse disso.</p>
<p class="p2"><i>(Clodovil): Eu não tenho solidão, não, ce tá maluco, Silvio. </i></p>
<p class="p2"><i>(Silvio Santos): Você não mora sozinho não?</i></p>
<p class="p2"><i>(Clodovil): Eu moro sozinho. Primeiro, eu estou com Deus a vida inteira. E, segundo, eu tenho boa música e eu sou uma pessoa que gosta de ler. Eu não sinto solidão. Solidão é pra gente que não tem nada na cabeça nem no coração. </i></p>
<p class="p2">Ainda que Clodovil lidasse bem com a solidão, ela se acentuou bastante após a morte da mãe, Isabel Hernandes, em 1986. Isabel Cristina Gonçalves, que foi o braço direito de Clodovil do final da década de 70 à virada para os anos 90, estava com ele nesse momento crítico.</p>
<p class="p2"><i>Foi muito difícil. Foi muito difícil. Ele não estava em São Paulo quando eu a levei pro hospital. Ele estava no Rio Grande do Sul e estava numa fazenda. E eu levei a Dona Isabel pro hospital de madrugada. E aí eu não tinha coragem, como é que eu ia avisar pra ele? Porque eu já cheguei com ela no hospital e já autorizei a cirurgia. Ela tinha uma úlcera no estômago que supurou. E eu cheguei no hospital e tive que autorizar e fazer todo aquele processo. E aí, de manhã, eu tive que dar a notícia pra ele, né? Que ela tinha feito a cirurgia, mas ali ela estava bem. Depois ela fez a segunda e fez a terceira, daí não deu mais pra salvar, né? Mas era uma coisa assim: tem que fazer um chemise pra mamãe, tem que botar as violetinhas aqui que ela gosta, tem que fazer a manga aqui que ela gosta, tudo era assim. Sabe? Voltava de viagem sempre, qualquer lugar. Era um presente pra ela. Isso aqui é da mamãe, isso é seu, isso é da mamãe. Sabe? Era uma coisa assim. Ele sofreu muito, muito, muito, muito mesmo. Nossa, foi muito triste. Porque eram os dois só, né? Não tinha ninguém.</i></p>
<p class="p2">Muitos anos após a morte de dona Isabel, Clodovil fazia questão de mencionar a mãe em todas as oportunidades. E em uma de suas últimas entrevistas, para Amaury Jr, revelou que seu único medo era de não encontrá-la depois que morresse.</p>
<p><i>E eu não tenho medo de ninguém, de homem nenhum, de nada, nada, nada. Só uma coisa eu tenho medo. E eu vou pedir uma energia positiva pra muita gente que gosta de mim nesse momento. Uma energia assim, de emanar uma coisa boa. Porque a única coisa que eu espero da vida agora é que eu me encontre com ela no astral. Porque pode ser que no astral, no dia que eu me for, eu me perca por alguma razão e não a veja de novo. E eu tenho tanta saudade do cheiro dela, você não faz ideia.</i></p>
<p class="p2">Apesar de, aparentemente, se abrir em entrevistas e ter dado a cara a tapa em sua vida pública, Clodovil, contraditoriamente, era bem reservado em relação aos seus próprios sentimentos, conta o amigo Mauricio Petiz.</p>
<p class="p2"><i>As relações de amigos eram estreitas e pouquíssimas. As fragilidades, os anseios, e até as frustrações, de alguma forma, só era para muito poucos, era uma coisa muito reservada, e quando ele percebia, quando ele se dava conta que ele estava, de alguma forma, exposto, ele mudava de assunto. Do nada, estamos conversando, e o assunto, ele se comoveu, por alguma razão, e a coisa começava a ficar que ele se sentisse frágil, ele: “Ah, então, vamos fazer pipoca?” E saía.</i></p>
<p class="p2">Rei das perguntas indiscretas para seus entrevistados, Clodovil era a pessoa mais reservada do mundo quando se tratava de sua própria vida amorosa. O que se sabe é que ele teve um único amor na vida. O apresentador jamais revelou o nome da pessoa publicamente e os amigos que sabiam da história também nunca quebraram esse pacto de silêncio.</p>
<p class="p2">(Clodovil): <i>Amores a gente não revela. A gente deixa assim, porque fica só a magia, a beleza das notas musicais, e toda uma vida passada, né? Sim… Amor discreto para uma só pessoa…</i></p>
<p class="p2">Mas algumas informações a gente conseguiu para esse podcast. Quem indiretamente promoveu o encontro entre Clodovil e seu grande amor foi o empresário Bento Cabral Olivieri, fundador da tradicional casa de trajes a rigor Black Tie, de São Paulo, e dono da loja Casamento Ideal, em Sorocaba.</p>
<p class="p2"><i>A pessoa que ele mais gostou, indiretamente eu apresentei, não é? Ele não fala quem é, eu também não vou falar. Foi uma pessoa, sabe? Ah, me apresenta um advogado, que eu estou saindo da Bandeirantes e estou precisando de um negócio. Claro, vou te apresentar um advogado. Nesse local de advocacia, tinha um advogado que ele conheceu e foi o amor da vida dele.</i></p>
<p class="p2">O  ápice da paixão foi uma viagem que os dois fizeram para Paris. O relacionamento acabou, mas, muitos anos depois, o antigo amor ressurgiu, pouco tempo antes da morte de Clodovil. Quem conta essa passagem é Mauricio Petiz.</p>
<p class="p2"><i>Ele se apaixonou uma única vez, eu me recordo disso, assim, viveu essa paixão, e depois terminou, acabou, o rapaz casou-se, foi viver a vida dele. E aí, eu que abria os e-mails do Clodovil em Brasília, e um dia chegou um e-mail, e quando eu vi o nome, eu conhecia a pessoa, claro, era ele cumprimentando o Clodovil, dizendo assim: “Parabéns, Clodovil, agora você vai fazer o que você sabe melhor, cuidar de gente. E aí, eu, saudades, fulano de tal”. E aí eu dei, imprimi o e-mail, dei a ele, e ele ficou, assim, mexido e tal, ligou, ligou pro rapaz, e o rapaz foi a Brasília, eles se encontraram, eu não sei o que aconteceu, porque eu vim embora pra São Paulo, mas assim, ele teve a possibilidade de reencontrar, e neste programa, que eu te falei que foi o último programa que ele fez do Amaury, em um determinado momento, ele fala que ele nunca acreditou que ele tinha sido amado, e que neste reencontro que ele teve em Brasília, ele ouviu isto da pessoa. “Nossa, eu te amei muito” Então, isso pra ele ficou uma coisa assim, talvez de um, de um, eu não sei se de um alívio, por não ter se sentido nunca gostado, sabe.</i></p>
<p class="p2">Essa entrevista citada por Maurício pode ser vista no Youtube. É a mesma em que Clodovil canta <i>Ilusão à to</i>a, de Johnny Alf, que você ouviu agora há pouco. E aqui a gente reproduz o trecho em que ele fala do reencontro.</p>
<p class="p2"><i>E eu amei essa pessoa. Mas eu não sabia que ela também me amava. E agora ela surgiu de novo, me mandou um email lindo no Natal e me disse uma coisa como eu nunca ouvi na vida. E eu já estou velho, tenho 71 anos de idade. Ele me disse outro dia: “Eu amo muito a minha mulher”. E casou com a mesma mulher que era namorada dele. “Eu amo muito a minha mulher, amo muito os meus filhos”. Ele tá muito rico, porque aprendeu tudo comigo. “Mas eu tenho certeza que nenhum deles eu amo como eu amei você.”</i></p>
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<p class="p2">Bom, mas se tem um ponto em que o Clodovil da vida pública era tal e qual o Clodovil na esfera privada é no quesito sinceridade. E também na absoluta incapacidade de engolir sapo. Ele perdia a cliente, perdia o emprego, perdia o amigo, mas não levava desaforo pra casa.</p>
<p class="p2">E a gente finaliza esse episódio com duas histórias que ilustram bem a personalidade de Clodovil. A primeira é contada por Isabel Cristina Gonçalves e aconteceu no auge do sucesso da carreira do costureiro, quando o ateliê na rua Itália funcionava a pleno vapor e Clodovil era uma estrela na TV.</p>
<p class="p2"><i>Um ex-ministro que já morreu, a esposa dele foi ao ateliê, provou, provou e tal, e levou o vestido para casa, para mostrar para o marido. E ficou com o vestido no final de semana. </i></p>
<p class="p2">Nesse mesmo final de semana, conta Isabel, teve uma festa no Gallery, promovida pela colunista social Alik Kostakis – e o ouvinte atento deve se lembrar desse nome: Alik foi a amiga que cedeu o jazigo da família para abrigar os restos mortais de Dener. Outro parênteses: o Gallery era a casa fundada por José Victor Oliva, que funcionava na Haddock Lobo e era o lugar mais badalado de São Paulo na época.</p>
<p class="p2">Bom, a esposa do ministro foi a essa festa com o vestido de Clodovil. Só que quando Isabel ligou para ela na segunda-feira, a cliente omitiu esse fato e disse que não ficaria com a peça, porque o marido não tinha gostado. Ela só não contava com um detalhe: havia sido fotografada com o vestido. E o costureiro viu.</p>
<p class="p2"><i>Abrimos o jornal, tinha uma foto dela desse tamanho com o vestido. Aí, ele guardou a folha do jornal. </i></p>
<p class="p2">Nem Isabel nem Clodovil falaram sobre o flagra no telefone. Mas esperaram a devolução da peça.</p>
<p class="p2"><i>Aí, o ministro foi lá. Eu recebi, falei: “Seu Clodovil, o ministro está aqui”. Ele desceu, e aí ele disse: “Não entendi por que não querem receber o vestido. A minha mulher não quer ficar com o vestido”. Patrícia… Ele com as duas mãos para trás, assim, com o jornal. O ministro, na frente dele, ele abriu o jornal. Ele pegou o jornal e disse: “Tá aqui, ó! A sua mulher usou, dia tal. Está aqui, na folha do jornal. Aqui, na foto. Ponha-se daqui para fora!”</i>. <i>Abriu a porta do ateliê, aquela porta de vidro. Abriu e botou o ministro para fora. E o ministro ficou dentro da calçada, da corrente, do estacionamento. Ele aos gritos na Cidade Jardim. Ele dizia: “Para fora! Aqui é meu ainda, para fora da corrente!” Ele botou o ministro para fora. Olha, o pessoal do Bolinha, do lado, dos restaurantes, choravam de rir. Porque ele, com aquele dedo dele, que ele fazia assim, com o dedo, botou o ministro para fora do ateliê. Ele era muito engraçado, mas muito engraçado! Ele fazia umas coisas que você dizia assim: “Meu Deus do céu, que louco!” Mas era a cara dele, entendeu?</i></p>
<p class="p2">Já a segunda história é relatada por Olivieri Cabral, da Black Tie. E se passou num período em que Clodovil estava fora da TV, depois de mais uma demissão, e extremamente sem dinheiro. Pra tentar reerguer o estilista, Olivieri pensou em lançar um projeto de roupas assinadas por Clodovil em parceria com a Black Tie. No relato a seguir, o nome da cliente foi ocultado, porque a gente não quer que nosso entrevistado perca a amiga.</p>
<p class="p2"><i>Eu tinha uma amiga, que o sonho da vida dela foi fazer o vestido com o Clodovil quando ela fosse casar. Ela ficou sabendo: “Nossa, o Clodovil com a black tie. Eu quero que ele faça meu vestido”. </i></p>
<p class="p2">Essa amiga era e é muito rica. E Olivieri viu a chance de Clodovil tirar  o pé da lama. Nessa época, o costureiro não tinha nem mais ateliê próprio, mas Olivieri combinou que eles receberiam a potencial cliente com toda a pompa e circunstância na sala dele, na Black Tie.</p>
<p class="p2"><i>Chegou a e a mãe dela. “Ai, Clodovil, mas que bacana te conhecer.” “Ai, obrigado, não sei o quê”. E começou. “Então, como que você é,?” “Olha só, uma pessoa romântica assim, assado.” E ele com papel, Montblanc. “Então, me conta, como é que você é.” Então, ele&#8230; Ah, sim, não sei o quê. Mexeu e virou e mostrou. “Ah, nossa, que coisa linda, Clodovil”. A mãe: “Ah, minha filha, mas o decote está muito&#8230; Está muito sexy para você. O papai não vai gostar”. Aí, o Clodovil já olhou e tal. Pô, tudo bem. Falou: “Vamos fazer um segundo, então?” E num segundo… Pá, pá, pá… A mãe, pá. No terceiro, ele já fez meio olhando para mim. </i></p>
<p class="p2">Olivieri sentiu o clima fechando e se preparou pra tempestade. E ela veio. Na terceira versão, a mãe da noiva pôs novamente defeito na criação do costureiro.</p>
<p class="p2"><i>A mulher falou umas coisas para ele. Ele falou assim: “Olha, quem está casando aqui não é a XXX, é a senhora”. Aquele jeitão dele. “Só que eu não estou fazendo um vestido para ela, eu estou fazendo para você. Então, desculpe, eu não vou fazer para você. Eu quero fazer para ela”. Aí ela falou uma coisa também. Ele foi até a porta e falou assim: “Olha, a porta é o caminho da não sei o quê. Desculpe, eu tenho 69 anos, eu não vou mudar a minha essência. Pá, pá, a senhora não sabe o que a senhora quer, a sua filha sabe muito bem o que ela quer. Então, na hora que ela resolver, ela vem até mim. Por favor”. Abriu a porta. “Ai, meu Deus” “Clodovil, a gente acabou de perder 200 mil reais!” </i></p>
<p class="p2">Nem a cliente nem a mãe voltaram pra fazer o vestido com Clodovil.</p>
<h5>Leia também: <a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-lente-da-verdade">Clodovil do Avesso: A lente da Verdade. </a></h5>
<p class="p2">No próximo e último episódio de Clodovil do avesso:</p>
<p class="p2"><i>Um dia eu cheguei na casa dele, e eu disse assim, eu falei para ele que eu ia abrir a geladeira, porque eu queria uma água gelada, o que nem era verdade, eu queria ver o que tinha lá, se ele tinha o que comer. Só tinha leite lá dentro. Aí eu disse, Clô, por que você não se candidata a deputado federal? Eu acho isso errado, mas a gente vê tanta coisa errada na política e ninguém entra lá com boas intenções. E ele tinha muito boas intenções, eu vou dizer para você.</i></p>
<p class="p2">(Clodovil): <i>Eu tenho obrigação de achá-la bonita por que? Eu ainda disse, se opere, faça como eu. Vá pra Santé. Eu tenho 70 anos e ninguém diz.</i></p>
<p class="p2">(Mauricio Petiz):<i> Tocou o meu telefone e no identificador de chamada veio o telefone privativo do quarto dele, era o telefone fixo do quarto de Brasília. Era a empregada dele que foi pegar a Castanhola para dar o remedinho, a Castanhola estava com uma infecção, estava tomando remedinho, então ela foi pegar a Castanhola no quarto e o Clodovil estava no chão, deitado no chão, de bruços.</i></p>
<p class="p2">Os problemas de saúde, a breve e intensa carreira como deputado e os últimos dias de Clodovil em Brasília.</p>
<p class="p2">Clodovil do Avesso é um podcast produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização, Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa.</p>
<p class="p2">Esse episódio usou trechos dos programas <i>Show de Calouros</i>, <i>Nada Além da Verdade</i> e <i>Em nome do Amor</i>, do SBT; e Amaury Jr., da Rede TV!.</p>
<h5 class="p2"><strong>Leia também: <a href="https://elle.com.br/moda/podcast-mergulha-na-vida-de-clodovil">Novo podcast da ELLE Brasil mergulha na vida de Clodovil Hernandes.<span class="Apple-converted-space"> </span></a></strong></h5>
<p class="p1">
]]></content:encoded>
					
		
		
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<credito_imagem_destaque>Arte: Gustavo Balducci</credito_imagem_destaque>
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		<item>
		<title>Clodovil do Avesso: a lente da verdade</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-lente-da-verdade</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Oyama]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2024 10:50:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[antono abujamra]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil do avesso]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil hernandes]]></category>
		<category><![CDATA[clovis bornay]]></category>
		<category><![CDATA[dener pamplona de abreu]]></category>
		<category><![CDATA[dercy gonçalves]]></category>
		<category><![CDATA[Hebe Camargo]]></category>
		<category><![CDATA[homofobia]]></category>
		<category><![CDATA[marília gabriela]]></category>
		<category><![CDATA[moda brasileira]]></category>
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					<description><![CDATA[No quarto episódio, o podcast da ELLE Brasil fala sobre o sucesso e as demissões de Clodovil na TV, as polêmicas e a homofobia sofrida e reproduzida por ele. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="Spotify Embed: 04- A lente da verdade" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/2sd0EOE7TckPmVvV1J2vgB?utm_source=oembed"></iframe></p>
<p><strong>Ouça Clodovil do Avesso em: </strong><a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener">Apple Podcasts</a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener">Amazon Music</a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener">Google Podcasts</a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener">Deezer</a></p>
<p><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Meus queridos amigos, meu Brasil querido, boa noite! </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Olha, abre o jogo, olha para aquela lente, que é a lente da verdade e me diz uma coisa.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ai, que vontade de vomitar, Eufrásia, para com isso, para! </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Por hoje é só, mas eu não quero ficar com esse programa tão sério dessa forma. Quero me divertir muito, quero que vocês se divirtam, porque, acima dos problemas importantes da moda, eu quero que a moda seja muito engraçada.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foram quase 30 anos na televisão. Não dá pra dizer “ininterruptos”, porque sempre tinha uma demissão no meio do caminho. Mas Clodovil, sem dúvida, foi um dos apresentadores mais populares da TV brasileira, que impôs um estilo próprio, lançou bordões e alcançou uma fama que atravessou gerações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo da carreira, ele entrevistou centenas de pessoas das mais diferentes profissões. A atriz Fernanda Montenegro, a cantora Elza Soares, o educador Paulo Freire e os ex-presidentes Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff são algumas das personalidades que encararam as perguntas diretas e retas do apresentador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ser entrevistado por Clodovil não era pra qualquer um, afinal, a sinceridade sem limites era a sua marca registrada. E, muitas vezes, foi também a sua desgraça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E eu sou Gabriel Monteiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E este é <em>Clodovil do Avesso</em>, o podcast da ELLE Brasil que mergulha na vida de Clodovil Hernandes, o costureiro que virou apresentador, virou deputado e ainda hoje, 15 anos depois de sua morte, continua a despertar paixões e polêmicas.</span></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-moda-de-clo">Clodovil do avesso: a moda de Clô</a></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste episódio, a gente vai destrinchar o caso de amor entre Clodovil e o microfone, que começou antes ainda da sua entrada na televisão, lá no rádio, no final dos anos 1960. E vamos falar também sobre o peso da homofobia na vida do homem e da figura pública. Homofobia não apenas sofrida, como também muitas vezes reproduzida por ele mesmo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Antonio Abujamra): </span><i><span style="font-weight: 400;">Estilista, crítico, temperamental, inquieto, homossexual: como foi a ditadura pra você?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Ah, tem coisas duras melhores que a ditadura.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil estreou como apresentador durante a ditadura militar, em 1968, na rádio Jovem Pan, em São Paulo. No quadro </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil, o Divino</span></i><span style="font-weight: 400;">, dentro do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Show da manhã</span></i><span style="font-weight: 400;">, o jovem figurinista dava dicas de moda às ouvintes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas não demorou muito para a língua solta do costureiro colocá-lo em apuros, como aconteceria muitas e muitas vezes depois. Em setembro de 1968, Clodovil teria criticado a roupa que a então primeira-dama Iolanda Costa e Silva havia usado na recepção da primeira-ministra da Índia, Indira Gandhi.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2003, no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Provocações</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por Antonio Abujamra, Clodovil relembrou o episódio:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Antonio Abujamra) </span><i><span style="font-weight: 400;">1968, ato institucional número 5, Jovem Pan, você criticou as roupas da mulher do general Costa e Silva e foi demitido. Você esperava outra coisa?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, eu não critiquei a roupa dela. Eu critiquei a atitude dela. Ela recebendo a Indira Gandhi, ela parecia uma espanhola enlouquecida, com vestido de veludo azul-marinho, com cetim azul-marinho. Uma espanhola louca, pior que uma brasileira enlouquecida, pelo menos ela tava de candomblé.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Roupa ou atitude, o fato é que nem bem havia começado sua carreira de apresentador e Clodovil já foi tirado do ar. Mas o motivo oficial não foi a crítica à senhora Costa e Silva, não. De acordo com notícias divulgadas na época, Clodovil foi proibido de apresentar seu quadro porque o seu timbre de voz era, abre aspas, afeminado, e atentava contra os bons costumes. Fecha aspas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer dizer, a Censura não estava nem interessada no que ele dizia, mas não gostou da forma como ele falava. Clodovil tentou reverter essa decisão na Justiça, mas não conseguiu, como relata essa nota publicada no periódico carioca </span><i><span style="font-weight: 400;">O Jornal</span></i><span style="font-weight: 400;">, em 16 de outubro de 1969, com o título: “Censura não foi com a voz de Clodovil”.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O Tribunal Federal de Recursos negou provimento a agravo do costureiro Clodovil Hernandes, que aparecia em programa de rádio em São Paulo, intitulado Clodovil, o Divino. Clodovil recorreu ao TFR depois de ver indeferido pelo juiz da 4ª Vara Federal de São Paulo mandado de segurança que impetrou visando, como agora, liberação para levar ao ar seu programa interditado pelo Departamento Federal de Censura. O veto da Censura ocorreu porque esse serviço, colocando um de seus funcionários na escuta, constatou que Clodovil realmente estava indo de encontro aos bons costumes dando inflexões à voz bastante comprometedoras. Por esse motivo, foi enquadrado no item c do Decreto 20.945, que enquadra as pessoas por divulgar ou induzir aos maus costumes.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil perdeu esse round, mas não ficaria longe do microfone por muito tempo. Em 1971, foi chamado para ser jurado de uma das atrações com maior audiência na TV da época, o programa Flávio Cavalcanti.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, não demorou muito para ele já ser cooptado pela concorrência. Ainda em 1971, Clodovil foi convidado para integrar o júri do Programa do Chacrinha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil estava na TV, nas capas das revistas, na boca do povo. Mas não era todo mundo que estava achando bonito esse sucesso todo, não. Em 1972, alguns colunistas especializados em notícias da televisão começaram uma campanha acirrada para tirar o costureiro da telinha. Aliás, não só ele. O colega Dener Pamplona de Abreu e o museólogo e carnavalesco Clovis Bornay também estavam na mira dos supostos defensores da moral. Um telegrama enviado por um grupo de senhoras mineiras dá uma dimensão dos ânimos dessa parcela da população: na mensagem, elas pediam, abre aspas, a imediata saída desses homens indecorosos e indesejáveis das nossas salas de visita, fecha aspas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gritaria foi tamanha que a Censura Federal emitiu um ofício a todas as emissoras de TV recomendando a não exibição de Clodovil, Dener e Clóvis Bornay em seus programas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na reportagem intitulada “Os indesejáveis fora da TV”, publicada no periódico </span><i><span style="font-weight: 400;">O Jornal</span></i><span style="font-weight: 400;">, em maio de 1972, o texto fala da recomendação da censura e traz uma enquete feita com pedestres no centro do Rio de Janeiro. Aqui a gente traz só uma amostra das opiniões colhidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abre aspas: As autoridades agiram certo. Tanto Dener como o Bornay e o Clodovil na televisão eram sérios riscos pra nossa juventude. Se os espectadores já estavam imitando falas como lixo e luxo, imagine só se eles continuassem. Daqui a alguns dias, estava todo mundo imitando os gestos dos três, fecha aspas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A entrevistada é identificada como Dona Etelvina Chaves, mãe de três filhos homens.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Mas, apesar dos protestos dos conservadores, Clodovil na TV era um caminho sem volta. Nos anos seguintes, ele não teria um quadro fixo, mas faria várias aparições na sala de visitas da família brasileira, em programas de auditório e até novelas – além de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mulheres de Areia</span></i><span style="font-weight: 400;">, que a gente citou no episódio passado, Clodovil também fez uma ponta no sucesso </span><i><span style="font-weight: 400;">Marrom Glacê</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Cassiano Gabus Mendes, e exibiu seus dotes musicais cantando o hit Ma Melo Melodie, da cantora franco-egípicia Dalida, no </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra participação marcante do costureiro na TV foi no programa 8 ou 800.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No show de perguntas e respostas apresentado por Paulo Gracindo, na Rede Globo, Clodovil respondeu perguntas referentes à Dona Beja, a personagem histórica que encantava os homens no século 19 e virou uma das personalidades mais influentes de Araxá, em Minas Gerais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O costureiro gabaritou todas as perguntas sobre a cortesã, ganhou o prêmio máximo, de 800 mil cruzeiros, e saiu aclamado do programa. O problema é que Clodovil não contava com o imposto sobre o prêmio, que reduziu a bolada pra 566 mil cruzeiros. O vencedor ficou indignado e se recusou a receber o valor descontado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos mais tarde, Clodovil diria que não participou do programa só pelo dinheiro. Ele disse que, com essa demonstração de cultura geral, ele queria mudar a imagem que as pessoas tinham de um costureiro. Tanto que ele fez questão de levar sua mãe, Isabel Hernandes, para a final do programa, para mostrar que sim, ele também tinha família. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas a grande consagração de Clodovil viria mesmo com a estreia da <em>TV Mulher</em>, na Rede Globo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apresentado por Marília Gabriela e Ney Gonçalves Dias, o programa estreou em abril de 1980 e foi um marco na televisão brasileira. Nas manhãs de segunda a sexta, a TV Mulher trazia diferentes quadros, que abordavam assuntos como direitos femininos e orgasmo, passando por astrologia, carreira, filhos e também moda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para falar sobre esse último tema, o escalado era justamente Clodovil Hernandes. Em seu quadro, o costureiro recebia cartas de telespectadoras perguntando sobre dicas do que vestir e outros dilemas fashion. Clodovil também fazia croquis de modelos a pedido do público. Quer dizer, nem sempre o pedido era atendido, como no caso da Ilza, de São José do Rio Preto, que queria uma sugestão de traje social e acabou ganhando um sermão.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Tenho 11 anos, 1,46 de altura, 70 de busto, 78 de quadril e 67 de cintura. Sou morena de cabelos castanhos escuros… e aí ela quer um traje social e aquelas coisas: um casamento e beijos e recepção e mais não sei o que com 11 anos de idade. Ô, Ilza, passa a mão no seu caderninho, vai pra mesa, estuda bastante, que com 11 anos ce não tem nada que fazer traje social, tá entendendo? Tem que fazer outro departamento. Tem que estudar pra ficar bonita, maravilhosa, porque não é esse o pique, não. Com 11 anos a gente não pede nada disso. A gente pede outra coisa. Boneca, coisa de menina, realmente. Sapatinho de pulseirinha, meinha, vestidinho de algodão. Faz um calor louco em Rio Preto. Agora, você com 11 anos vem pedir traje social? Estudar é bom, viu? Vai estudar.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mas quando o pedido fazia sentido pra ele, Clodovil, sim, desenhava croquis ao vivo, sugeria tecido e acessórios. Os desenhos recebiam a assinatura do estilista e eram enviados para a casa da telespectadora. E aqui a gente tem outra grande contribuição de Clodovil para a moda brasileira. Nessas manhãs na Globo e, posteriormente, nos programas vespertinos em outras emissoras, ele fez muita gente descobrir a moda como profissão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele ajudou a popularizar essa ideia. Crianças assistiam Clodovil na TV, antes ou depois da escola, e viam, pela primeira vez, um estilista em ação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma dessas crianças, por exemplo, era ninguém menos do que Alexandre Herchcovitch, um dos maiores nomes da moda nacional contemporânea.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Pra mim, pessoalmente, eu não recebi nenhuma influência dele em moda, na roupa que ele fazia. Mas ele era o único estilista na televisão quando eu era criança. Então, eu esperava ele aparecer na televisão, nos diversos programas que ele fazia, porque ele recebia cartas de telespectadores e daí ele lia, daí ele desenhava na hora, dava uma sugestão. Então, era a única coisa que eu via de moda quando era criança. Era o Clodovil. Então, ele era a referência de como ser estilista. Pra quem hoje tem 50 anos, e quando tinha 10, 12 anos, ou um pouco antes até, era o Clodovil que aparecia na TV.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi também nessa época da </span><i><span style="font-weight: 400;">TV Mulher</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Clodovil fez a sua mais bem-sucedida incursão no teatro. Com </span><i><span style="font-weight: 400;">Seda Pura e Alfinetadas</span></i><span style="font-weight: 400;">, escrita pela dramaturga e ex-modelo Leilah Assumpção, ele foi sucesso de público e crítica, interpretando um costureiro no palco. Uma curiosidade: a peça foi também o primeiro trabalho de grande repercussão da atriz Lilia Cabral, recém-formada na Escola de Arte Dramática da USP.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, então, nesse comecinho dos anos 80, Clodovil era sucesso nos palcos, tinha lançado a sua linha de jeans, que a gente comentou no episódio passado, e era uma celebridade das manhãs com a </span><i><span style="font-weight: 400;">TV Mulher</span></i><span style="font-weight: 400;">. Só que, nos bastidores da Globo, o clima não era de festa. Na verdade, era uma verdadeira guerra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de ter só um quadro no programa, Clodovil se sentia e se comportava como o dono da atração, e batia de frente com a âncora Marília Gabriela, às vezes, em pleno ar. As brigas eram de conhecimento geral e culminaram com a demissão de Clodovil em 1982.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente procurou a Marília pra contar um pouco sobre essa época, mas ela agradeceu e preferiu não dar entrevista pro podcast. Em 2015, no entanto, ela falou sobre esses bastidores em um bate-papo com o dramaturgo e escritor Aguinaldo Silva.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Marília Gabriela): </span><i><span style="font-weight: 400;">E ele era despudorado, entrava no ar e tentava derrubar a âncora no ar mesmo, entendeu? Aí eu saía, dizia que não ia mais fazer, houve de um tudo lá. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Aguinaldo Silva): </span><i><span style="font-weight: 400;">Essa inimizade com o Clodovil perdurou?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Marília Gabriela): </span><i><span style="font-weight: 400;">Olha, o Clodovil era muito cruel. Não quero incomodar os fãs do Clodovil, que ele era divertido, tinha talento, ele era um estilista sensacional. E ele tinha um talento, ele tinha o dom da palavra. Ele era uma pessoa, que teve uma existência… Que teria sido melhor se ele não tivesse sido tão cruel. Ele era capaz de crueldades imensas.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a saída da Globo, Clodovil não demorou a conquistar outro espaço na grade televisiva. Em 1983 ele é contratado pela TV Bandeirantes para ter finalmente um programa só seu, batizado com seu nome. Mas a lua-de-mel dura pouco e o ex-global Clodovil logo começou a se queixar das condições de trabalho para as câmeras. Nesse mesmo ano, o apresentador troca a Bandeirantes por uma emissora nova, que chegou trazendo grandes expectativas: a Rede Manchete, de Adolpho Bloch.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil primeiro comanda o Manchete Shopping Show, que traz o formato de programa feminino para o horário vespertino. E, em 1985, passa a apresentar </span><i><span style="font-weight: 400;">Clô para os Íntimos</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Nós faremos um programa, como sempre pra cima, pro alto, tentando mostrar pra vocês coisas bonitas, como sempre com muita frescura. De frescura eu gosto, faço questão, aliás, entendeu? Mas de uma maneira saudável, não aquela frescura doente, que é um outro departamento.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(narrador):</span><i><span style="font-weight: 400;"> Clô para os íntimos, segunda a sexta, uma da tarde.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Rede manchete!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No cenário com vitrôs coloridos e teto de vidro, Clodovil desenhava croquis e recebia nomes como o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, o dramaturgo Augusto Boal e a atriz Nicete Bruno. Mas claro que a calmaria não seria eterna.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1988, foi promulgada a nova Constituição Brasileira, após 20 meses de trabalho da Assembleia Nacional Constituinte. O clima era de euforia, afinal, a elaboração da chamada Constituição Cidadã marcava o fim definitivo do longo período em que o Brasil passou sob as ordens do regime militar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, mas Clodovil, que já havia sido censurado lá atrás, na ditadura, pegou ainda um rescaldo de autoritarismo ao chamar a Constituinte de prostituinte, por causa dos acordos e negociações realizados para a aprovação do texto final. Em entrevista a Antonio Abujamra, ele relembrou o episódio.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O poderoso é um merda qualquer. O líder é líder. É como a andorinha: não é dona de nada, porra nenhuma e as outras vão todas atrás dela. Isso que eu acho maravilhoso. Agora, poder… Quando eu falei naquela época na televisão, que eu disse assim: mas, escuta aqui, isso é uma constituinte ou uma prostituinte? Ulysses Guimarães ligou pra Manchete e disse assim: “Tire esse viado filha de uma puta do ar hoje!”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Antonio Abujamra): </span><i><span style="font-weight: 400;">Eles</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">tiraram?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Claro!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1988, então, Clodovil estava novamente desempregado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A virada dos anos 80 para os 90 não foi fácil para Clodovil. Ele já havia sofrido a perda da mãe, Isabel, em 1986, por causa de uma úlcera supurada. Estava fora da TV e a carreira na moda também estava em declínio, com o fechamento do ateliê na rua Itália, depois das tentativas frustradas de emplacar seu prêt-à-porter. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1990, pra complicar ainda mais a situação, Clodovil passou a ser alvo de boatos de que estaria com Aids. A onda de notícias falsas era tão grande que ele se viu obrigado a convocar uma entrevista coletiva para apresentar seus exames e desmentir publicamente o diagnóstico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem também ajudou Clodovil a esclarecer a situação na época foi Marília Gabriela, que deixou as velhas rusgas de lado e convidou o ex-colega da </span><i><span style="font-weight: 400;">TV Mulher</span></i><span style="font-weight: 400;"> pra uma entrevista no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Cara a Cara</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Bandeirantes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Mas essa coisa de fazer uma coletiva, pagar pra uma coletiva, pra mostrar que eu não tenho uma doença, pra poder sobreviver, é uma violência brutal. Você não pode imaginar o que eu passei. E outras coisas que aconteceram ao lado disto, né? Enfim, acontecem coisas que a gente envolve, outras coisas, outras pessoas. E desaforos e contratos que se perdem, coisas que eu&#8230; Porque eu sobrevivo do meu trabalho, né? Por exemplo, os meus shows no Nordeste agora estão com um problema porque parece que lá dá de meia-meia hora na FM.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Marília Gabriela): </span><i><span style="font-weight: 400;">Que você tá com a Aids.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">É.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas em 1992, finalmente, os ventos favoráveis voltaram a soprar para Clodovil. Ele foi recontratado pela TV Manchete e passou a apresentar o programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil Abre o Jogo</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde lançou o bordão que ficou famoso:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Olha aqui praquela lente, que é a lente da verdade, e abre o jogo aqui. Vem cá. Aquela vermelha ali.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dessa nova temporada na Manchete ter durado pouco tempo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil abre o jogo </span></i><span style="font-weight: 400;">trouxe algumas das melhores entrevistas feitas pelo apresentador. Como esta, com a também apresentadora Hebe Camargo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Mas essa coisa é uma coisa. Quando que pinta esse romance com você com o Lelio, do romance no sentido físico mesmo? Não é todo dia?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Hebe Camargo):</span><i><span style="font-weight: 400;"> Magine! Magine! E quem disser que é todo dia está mentindo! Ah!</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">É de mês em mês, semana em semana, como é?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Hebe Camargo): </span><i><span style="font-weight: 400;">Ah, três vezes, assim… Uma no verão, outra no outono e outra no inverno. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um ano depois do retorno, Clodovil deixa de novo a TV Manchete e aí começa uma peregrinação de emissora em emissora, com uma alternância de contratações e demissões em intervalos de 1 ano, em média. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre 1993 e 2002, o apresentador passa pela CNT, pela Bandeirantes, pela Rede Mulher e pela TV Gazeta, incluindo idas e vindas pra mesma emissora, em alguns casos. Nesse meio tempo, brigou com colegas de canal, como Adriane Galisteu, com colegas de bancada, como Christina Rocha, se divertiu com vários entrevistados, constrangeu outros tantos e, pelo menos uma vez, topou com uma convidada ainda mais sincerona que ele. Foi Dercy Gonçalves, entrevistada por Clodovil em 2002, na TV Gazeta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Vou te dar as flores, Dercy. Vou jogar tudo no chão?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Dercy) </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai me dar flor? Puta que pariu, eu tenho ódio de flor. Me dá. Eu acho que flor… Não gosto! Eu dou pra você. Ce me dá?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Ce tem ódio de flor por quê, Dercy?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Dercy): </span><i><span style="font-weight: 400;">Por que que eu quero flor? Daqui a pouco fede a defunto, cara!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Mas o gesto não vale nada, Dercy?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Dercy): </span><i><span style="font-weight: 400;">Seu gesto é você estar aqui, comendo comigo.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Ah, isso é.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2003, Clodovil estreia o programa </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa é Sua</span></i><span style="font-weight: 400;">, na Rede TV, e dá início a um de seus períodos de maior popularidade, desde os tempos da Rede Manchete. Popularidade e também polêmica, porque quanto maior o Ibope, mais solta ficava a língua de Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O amigo José Augusto de Souza, que foi produtor e depois diretor da </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa é Sua</span></i><span style="font-weight: 400;">, lembrou dos apuros que a produção passava.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">E ele já sabia como eu estava reagindo. Uma vez, ele pegou um ponto eletrônico, jogou dentro do copo d &#8216;água e falou, nesse momento estou livrando o diretor do processo. Aí tinha as brigas com a prefeita Marta na época. Teve uma época que a gente chegou na situação que o programa tinha um processo por programa.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, Clodovil conseguia segurar três horas e quarenta minutos de programa ao vivo, de segunda a sexta feira, sem deixar a peteca cair.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Era incrível. “O Clodovil, o convidado, não veio”. “Me arruma uma caixa de alfinete e um pano.” Aí ele montava um vestido com o alfinete no ar e a audiência ia para o segundo lugar. Eu aprendi muito. Ele foi um mestre. Eu aprendi a fazer televisão com o Clodovil. Foi o mestre dos mestres. Totalmente soberano. Aqui rendo, nesse momento, todas as homenagens à capacidade do Clodovil de fazer televisão. Ele sabia e gostava.</span></i></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Quem também conta que aprendeu muito de televisão com Clodovil, apesar dos pesares, é a atriz Vida Vlatt, a Ofrásia, de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa é Sua</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Era bem difícil. Porque tinha um temperamento muito difícil. Ao mesmo tempo em que foi um desafio pra mim, né? E foi uma época em que aprendi tudo o que eu teria que aprender sobre televisão eu aprendi com ele.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O quadro de Ofrásia e Clodovil era todo na base do improviso. Inclusive aquela famosa festa de aniversário, que virou um enterro, ou melhor, meme, com Clodovil estourando os balões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Achei tão lindo o que você fez! Uma decoração linda, viu? Linda, a decoração. Eu adorei a decoração. Achei chique, realmente!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Ofrásia): </span><i><span style="font-weight: 400;">Tem presente. Presente!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As brigas e provocações no ar às vezes também aconteciam na vida real, conta a atriz.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a gente brigava. Ele queria brigar. Clodovil, às vezes, ele queria brigar. Ele não bebia, mas sabe gente que bebe e quer brigar? Ele tinha isso. Quando ele queria brigar, ele conseguia. Mas depois ficava tudo bem.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma das maiores brigas que Vida e Clodovil tiveram foi justamente quando ela pediu demissão do programa após um ano, por causa de desentendimentos com o diretor na época.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Nossa, ele ficou uma fera. Ficou puto comigo. Brigou comigo. Falou: “Você é um absurdo você fazer isso”. Eu falei: “Clodovil, eu não estou contente, eu não estou satisfeita. Eu falei, bom, não adianta eu querer conversar com você. Outra hora a gente vai conversar”. E fui embora. Aí, depois de um tempo, a gente voltou a se falar. Ele não era assim, de ficar guardando o rancor. Porque também era sempre ele que brigava com a gente. Não era a gente que brigava com ele.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vida Vlatt acabaria voltando pra </span><i><span style="font-weight: 400;">Casa é Sua</span></i><span style="font-weight: 400;"> meses depois, mas Ofrásia não trabalharia mais com o antigo patrão. Sim, porque Clodovil havia sido novamente demitido. Durante meses, o apresentador foi atormentado pelos colegas do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Pânico</span></i><span style="font-weight: 400;">, que queriam porque queriam que o estilista calçasse as chamadas sandálias da humildade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cerco a Clodovil incluiu perseguições de carro pela Marginal, plantões na porta do prédio do apresentador e em sua casa, em Ubatuba, além de abordagens nos corredores da própria Rede TV.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil por diversas vezes se queixou do assédio e fazia reclamações no ar contra os humoristas e contra a própria emissora. Mas o motivo final da demissão não foi o embate com o </span><i><span style="font-weight: 400;">Pânico</span></i><span style="font-weight: 400;">, não. Foram comentários ofensivos que ele havia feito contra a colega Luisa Mell.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mais uma vez então, a língua incontrolável de Clodovil tirou o apresentador do ar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o caso é que as falas problemáticas do estilista não eram dirigidas somente a uma ou outra personalidade. Muitas vezes, ele acabava ofendendo todo um grupo de pessoas, em especial, minorias das quais ele mesmo fazia parte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2005, Clodovil foi condenado a pagar uma indenização de 20.800 reais, em um processo por injúria qualificada por preconceito racial, por ter chamado a então vereadora Claudete Alves, do PT, de “macaca de tailleur” em uma entrevista à Folha. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O apresentador também comprou briga com entidades israelitas ao insinuar que os judeus manipularam o Holocausto e teve que se retratar publicamente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não faltaram também acusações de misoginia contra Clodovil, por declarações como aquela dada já como deputado, em Brasília, em que dizia que as mulheres trabalham deitadas e descansam em pé.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Mas no rol de falas polêmicas, as de maior repercussão, provavelmente, foram em relação à homossexualidade. “Gay homofóbico” é uma definição constantemente aplicada a Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O apresentador era um crítico da então chamada Parada Gay, hoje Parada do Orgulho LGBT+, e dizia não se orgulhar de ser homossexual. Por diversas vezes declarou que, se pudesse escolher, não seria gay. Como nessa entrevista no programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Jô Soares Onze e Meia</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma coisa que me deixa muito feliz. Porque eu nunca tive nenhum grilo em ser homossexual. Sempre disse isso muito claro e abertamente, porque realmente isso é um processo que me foi doado. Eu não pedi pra nascer homossexual.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Jô Soares): </span><i><span style="font-weight: 400;">Você foi um dos primeiros a assumir…</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Mas assumir é uma coisa tão feia, né?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Jô): </span><i><span style="font-weight: 400;">Tudo bem, então a aceitar…</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">A entender. A encarar a coisa da maneira que tem que ser. Porque é assim. Eu, se eu pudesse escolher, eu não seria homossexual, sem sombra de dúvida. Mas eu não seria brasileiro, não seria tanta coisa… Se eu pudesse escolher, eu ia ser um machão, na Alemanha, com um… Claro, de olho azul, muito rico, com 450 mulheres pra atender o sistema. Mas não é assim, a vida não é isso. Você é aquilo que você tem que ser.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fala parece meio ambígua, não é mesmo? A impressão que fica é a de que, quando Clodovil conversava sobre a sua sexualidade, ele agia, ao mesmo tempo, com naturalidade e bastante julgamento. Um ouvinte atento percebe, por exemplo, que ele falava de homofobia reproduzindo uma máxima homofóbica, ou, quando mencionava o racismo, acabava, ele próprio, sendo alguém que reproduzia uma expressão racista, como esse tal desejo de ter olho azul para atender o sistema. Era como a fala do oprimido e do opressor numa mesma sentença. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso aconteceu também em outra entrevista, no ano de 2003, quando o costureiro foi sabatinado por uma plateia bastante jovem, no </span><i><span style="font-weight: 400;">Programa Altas Horas</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Serginho Groisman, na TV Globo. Em meio a um pensamento sobre liberdade, Clodovil divagou, como era de costume, até chegar a um conselho bem questionável aos presentes: o de que eles não falassem abertamente sobre as suas sexualidades. </span></p>
<p><em>Se vocês tiverem alguma preferência na vida, disfarcem o mais que vocês puderem. É mentira que o mundo gosta das coisas expostas. As pessoas que fazem isso pagam um preço muito alto por isso. Eu, se eu tivesse um outro tipo de voz, um outro tipo físico, não tivesse essa pele sem pelos e tal, e tivesse características bem masculinas, eu seria o mais masculinizado possível, se vocês querem saber. Porque as pessoas sofrem mais. Eu não gostaria de ter um filho parecido comigo, porque ele iria sofrer. Eu, casualmente, não sofri, mas ele sofreria. Porque o mundo finge que aceita, que acha bonito, mas é tudo porque é um circo, não é verdade. Tem que se esconder tudo, fazer tudo de uma maneira muito discreta, muito velada. Porque é assim que é melhor pra viver. Acreditem no que estou dizendo. Não liberem nada, não contem nada. Essa história de chegar em casa e contar tudo&#8230; Conversa! Não contem nada. Vocês só contem, sem mentir, aquilo que perguntarem a vocês.</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Poucos minutos depois, Clodovil então revela que ele só havia aceitado a sua homossexualidade muito recentemente, aos 60 anos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu vou fazer 66. Então, há seis anos que eu aceito a homossexualidade. E antes eu não aceitava. Em ninguém. Mas não por crítica. Mas por achar que estava errado diante de Deus. E não está.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele odiava os gays. Ele humilhava, ele achava todas ridículas, medíocres. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem você acabou de ouvir falar é o jornalista Leão Lobo, que tem ao menos 30 anos de carreira com colunas sobre o mundo dos famosos, em programas de TV. Nós nos encontramos com o Leão num café no bairro da República, em São Paulo, uma região que ele conhece bem, onde vive desde a infância. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro encontro com o costureiro, lembra Leão, foi bastante pacificado, em um jantar num restaurante grã fino, em São Paulo. Na ocasião, Clodovil pediu que ele fizesse uma ponte com o seu então patrão da época, Silvio Santos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O jornalista conta que o dono do SBT até convidou o costureiro para participações em seus programas, mas nunca, de fato, desejou contratá-lo. Daí em diante a relação entre Leão e Clodovil nunca foi das melhores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eles até chegaram a dividir o mesmo ambiente de trabalho, mas, entre alfinetadas em um elevador da TV Gazeta e uma demissão da Rede Mulher que deixou Clodovil engasgado, Leão afirma guardar as piores memórias possíveis do estilista e apresentador.</span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele sempre estava do lado errado, na minha opinião. Politicamente. Ele era sempre contra os gays. Ele era contra a liberdade de expressão. Era contra isso. Era contra. E virou deputado e não fez porra nenhuma. Não fez nada por nós, por ninguém. Ele só achincalhava, xingava. Dizia que tudo era um horror lá. Que as pessoas eram mal vestidas.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o DJ e figurinha carimbada da noite paulistana, Johnny Luxo, conheceu Clodovil em 2002, quando o costureiro ligou para ele, o convidando para uma participação em seu programa da época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Johnny conta que, por medo de ser gongado por Clodovil, ele se preparou para o encontro. Pediu emprestado um vestido da mãe da apresentadora Didi Wagner, Tânia Wagner, que havia sido criado por Clodovil na década de 1980. E ainda gravou um CD com músicas francesas para o estilista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Deu certo! O encontro profissional evoluiu para uma amizade, a ponto de Johnny ser chamado para almoços na famosa casa de Clodovil em Ubatuba e, meses depois, a criar trilhas para o programa de Clodovil na Rede TV, em 2003. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, mesmo sendo de gerações diferentes, Johnny recorda que um trocava experiência com o outro. Clodovil dizia para ele que amava Billie Holiday. E Johnny, por sua vez, convenceu Clodovil a ir a São Paulo Fashion Week e, enfim, ver um desfile de um estilista contemporâneo. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">E aí eu falei, olha, vai ter desfile do Alexandre, seria incrível se você fosse, vamos? Daí ele pensou um pouco e acabou topando. Isso foi o verão 2003, 2004. Aí eu passei na casa dele na República do Líbano, naquele predinho, peguei ele e fomos pra Bienal, que era onde ia acontecer o desfile do Alê. Ele levou um buquê de copo de leite pra entregar pro Alê no final do desfile. Quando a gente chegou na Bienal, foi uma loucura, um acontecimento, parecia a Princesa Diana chegando em algum lugar. Assim, enxurrada de fotógrafos, imprensa toda atrás dele, até a gente entrar na sala de desfile, até começar o desfile. Aí rolou o desfile, ele amou, quando o Alexandre entrou na fila final, ele levantou e entregou o buquê de flores pro Alê durante a fila final.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O episódio faz pensar no quanto o preconceito anda acompanhado do desconhecido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se antes Clodovil detonava os estilistas de gerações posteriores à sua, Johnny conta que ele ficou encantado pela produção de Alexandre Herchcovitch. Tanto, que depois também convidou Alexandre para um ou outro evento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para Johnny, esse desconhecimento de Clodovil podia ser facilmente combatido com um simples convite, uma mão amiga que o levasse a olhar o mundo com novos olhos e talvez o fizesse mudar de opinião. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele era uma bi como qualquer outra bi, falava de boys, de coisas que qualquer bi fala, entendeu? Eu acho que o que pegava e o que causava, sei lá, impressões erradas era quando ele tinha que falar alguma coisa sobre casamento gay, sobre parada gay, que eram assuntos que ainda não eram falados com tanta frequência e naturalidade naquela época, entendeu? Era muito diferente. E também não acho que essa era uma pauta que ele falava com os amigos dele. Assim, eu acho que se eu tivesse tido mais tempo de convivência com ele, com certeza a gente teria falado sobre esses assuntos e talvez eu até tivesse levado ele numa parada gay, entendeu? Porque ele nunca tinha ido, ele meio que se mostrava um pouco assim, ele tinha um certo, não digo preconceito, mas eu acho que era a mesma história do São Paulo Fashion Week, que faltou alguém chegar pra ele e falar assim, vamos que vai ser interessante.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre memórias divergentes de quem o conheceu, o que nos importa aqui é o que ficou na história. E um episódio lá da infância de Clodovil é importante para entender como a sua relação com a homossexualidade tinha, mesmo, muitas camadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma entrevista à revista Isto É, de 2003, ele recordou: aos 13 anos, voltava de uma missa, num domingo, quando viu o próprio pai na cama com outro homem. No caso, o outro homem era ninguém menos que o irmão de sua mãe, o seu tio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outra entrevista à mesma revista, mas desta vez em 2009, Clodovil afirmou que, naquele dia, não conseguiu fazer muito a não ser se sentar no chão e pensar, abre aspas, meu Deus, a minha mãe não é amada por ninguém. Fecha aspas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Clodovil, ele nunca revelou ao pai ter presenciado o ocorrido, isso, mesmo nos momentos em que uma faísca de ódio era uma tentação que o fazia querer soltar o segredo. E quando isso acontecia? Alguns anos depois, por exemplo. Durante um almoço, Domingos Hernandes encurralou o filho, questionando-o sobre a sua sexualidade. Clodovil falou sobre o episódio em 1978, em entrevista ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Lampião da Esquina</span></i><span style="font-weight: 400;">, o primeiro jornal de circulação nacional feito para a comunidade gay, que circulou entre o final dos anos 70 e início dos 80. E quem dá voz a essa memória de Clodovil é o nosso editor de beleza Pedro Camargo: </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quando eu tinha 18 anos, meu pai falou comigo sobre o assunto pela primeira vez. Eu tinha vindo da fazenda, estávamos na cidade, e à mesa, eu, ele e minha mãe para o jantar. Ainda hoje me lembro: tinha salada de agrião. Aí meu pai perguntou: “Então meu filho é fresco?” Eu quase caí duro. Imagine: minha mãe sentada com a cara dentro do prato, acho que ele tinha falado antes com ela. Aí eu perguntei: “mas quem foi que disse isso?” Ele disse o nome da pessoa e eu comentei, “mas então você acredita num estranho?” Ele continuou: “Pouco importa que seja um estranho, porque é verdade”. Então eu lhe disse: “Verdade ou não, o meu afeto por você não muda nada. Agora, se o seu afeto por mim mudar, o problema é só seu”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O jornalista Carlos Minuano que, em 2017, lançou a primeira biografia de Clodovil, o livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Tons de Clô</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma que, em suas entrevistas, ele percebeu que a aceitação da sexualidade de Clodovil tinha mais nuances do que ele poderia imaginar e isso estava atrelado não só com o momento em que o costureiro viveu, como também por sua história particular.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele era desafiado o tempo todo nesse sentido por ser gay. Sempre tinha alguém fazendo piadinha, uma risada, e os trejeitos dele. Então, essa carcaça, esse jeito dele duro também com as pessoas, provavelmente foi uma forma de ele se defender desses ataques que ele sofria no meio. Acho que, no fundo, ele nunca se aceitou. Não conseguiu se entender com a sexualidade dele. Acho que, no fundo, ele veio de uma família católica e, ao mesmo tempo, aquilo tudo era uma coisa muito confusa para ele, essa própria religiosidade. Acho que isso afetou muito a vida dele.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar das várias afirmações ao longo da vida sobre ver diferenças entre a união hetero e homoafetivas, em 2007, quando foi eleito o primeiro deputado federal assumidamente homossexual do Brasil, Clodovil foi o autor do Projeto de Lei 580, cujo objetivo era justamente legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com o passar dos anos, porém, o projeto foi reeditado por outros deputados a ponto de o texto atual ser contrário à ideia do texto original. No final do ano passado, uma proposta incluída no relatório, apresentada pelo deputado Pastor Eurico, revertia o projeto de tal maneira que ele passou a proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara dos Deputados aprovou o texto alterado com 12 votos a favor e cinco contra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto ainda está em tramitação, mas já há entendimentos de diversos especialistas de que essa PL é inconstitucional. Desde 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que as uniões entre pessoas do mesmo sexo se equiparam, no âmbito do direito civil, às uniões entre pessoas de sexos opostos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando apresentou seu projeto, Clodovil visava legalizar a união homoafetiva principalmente para fins patrimoniais. A ideia é que em caso de morte de uma das partes, o companheiro ou companheira ficasse protegido juridicamente e tivesse assegurado o direito aos bens adquiridos durante a união. Como qualquer outro casal. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Ou seja, a visão de Clodovil em relação ao amor de duas pessoas do mesmo sexo podia ser manchada por traumas, lembranças difíceis, muita homofobia interna, mas, ainda assim, ele a compreendia de alguma forma, a sentia e a respeitava do seu modo. E isso fica claro em outra memória, sobre a morte de seu pai, contada naquela mesma entrevista ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Lampião da Esquina</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Meu tio morreu de morte natural. Logo depois, meu pai anunciou em casa que tinha visto meu tio, que este tinha vindo buscá-lo e que ele sabia que ia morrer logo. O resto da história eu não presenciei, foi minha mãe quem contou. Meu pai começou a trabalhar muito, porque sabia que meu tio morto viria buscá-lo, e queria deixar a família na situação melhor possível. Aí aconteceu que um dia ele saiu de casa e sofreu um acidente, voltou todo machucado. Era perto do Natal, eu fui passar o Natal em casa e o encontrei todo machucado. Bom, dias depois ele saiu para ir à cidade, mas voltou da porta e anunciou: eu voltei para vestir uma roupa de fulano – o meu tio morto –, porque sei que não vou voltar pra casa e quero morrer vestindo uma roupa dele. Pois bem: ele saiu e, a caminho da cidade, sofreu um acidente a poucos metros do local onde tinha sido acidentado da outra vez, e ali mesmo morreu, vestido com a roupa do meu tio. Os dois foram inclusive enterrados lado a lado. Agora você vê: essa é uma história belíssima, eu acho; que filho da puta vai me impedir de encarar essa história de amor como uma coisa natural e bonita? Eu podia ter jogado tudo isso na cara dele naquela noite, do jantar, porque eu era muito novo e via o mundo com outros olhos. Mas não fiz isso, e bendita a hora, porque depois aprendi que há coisas que a gente não pode julgar. Há histórias, relacionamentos entre pessoas, que ninguém tem o direito de sujar. Isso ninguém contou pra mim: isso eu vivi, é coisa minha.</span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">No próximo episódio de Clodovil do Avesso:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Clodovil nunca, ele nunca soube demonstrar afeto. Mas na essência o Clodovil ele era extremamente carinhoso. Então, assim, se ele sabia que eu gosto de arroz doce, e eu tinha tido qualquer embate com ele no dia anterior por alguma razão, no dia seguinte ele chegava e falava assim, escuta, fiz arroz doce para você. Assim, era a forma de pedir desculpas, era a forma de acarinhar.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">É uma pena que Clodovil era, desculpe, mau caráter, ele era muito falso, muito mentiroso, fazia coisas que você nem sabe a metade da missa. Ele não valia nada!</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Lembro da gente numa dureza, eu e ele, Réveillon. “Vamos para Ubatuba, pelo menos lá nós estamos no castelo e não tem problema. Passe na delicatessen e tal. Vamos lá”. “Clodovil, não acha melhor a gente parar em uma padaria, em uma coisa mais básica, porque na Delicatessen vai ficar pesado.” “Não!” Chegou lá na delicatessen, pegou um carrinho, botou duas caixas de champanhe Cristal no carrinho e um pote de caviar Beluga. Chegou no caixa e falou: “Peça para a fulana vir me cobrar se ela tiver coragem” E o caixa passou as compras e nós fomos embora!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Amigos e também desafetos relembram casos e histórias de altos e baixos na vida de Clodovil. Não perca!</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso é um podcast produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização, Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos dos programas </span><i><span style="font-weight: 400;">8 ou 800</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">TV Mulher</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Altas Horas</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede Globo; </span><i><span style="font-weight: 400;">Flávio Cavalcanti</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Chacrinha</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Tupi; </span><i><span style="font-weight: 400;">Provocações</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Cultura; </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil abre o Jogo</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Clô para os íntimos</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede Manchete; </span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa é sua</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede TV!, entrevista de Marília Gabriela por Aguinaldo Silva; promulgação da Constituição; </span><i><span style="font-weight: 400;">Jô Soares Onze e Meia</span></i><span style="font-weight: 400;">, do SBT, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cara a Cara</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Bandeirantes e programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil</span></i><span style="font-weight: 400;">, da TV Gazeta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Participação especial: Alexandre Lupi, na leitura da notícia sobre a censura a Clodovil, publicada em <em>O Jornal</em>, em 1969.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/moda/podcast-mergulha-na-vida-de-clodovil">Novo podcast da ELLE Brasil mergulha na vida de Clodovil Hernandes</a></h5>
]]></content:encoded>
					
		
		
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<credito_imagem_destaque>Arte: Gustavo Balducci</credito_imagem_destaque>
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		<item>
		<title>Clodovil do Avesso: a moda de Clô</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-moda-de-clo</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Oyama]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Mar 2024 12:24:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil do avesso]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil hernandes]]></category>
		<category><![CDATA[dener pamplona de abreu]]></category>
		<category><![CDATA[lilian pacce]]></category>
		<category><![CDATA[moda brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[rose benedetti]]></category>
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					<description><![CDATA[No terceiro episódio, o podcast acompanha a tentativa de Clodovil de migrar para o prêt-à-porter e sobreviver na moda brasileira. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="Spotify Embed: 03- A moda de Clô" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/4WNpSY06YuWCyQXZfOvDf9?utm_source=oembed"></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ouça Clodovil do Avesso em: </strong><a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener">Apple Podcasts</a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener">Amazon Music</a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener">Google Podcasts</a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener">Deezer</a></p>
<p><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 9 de novembro de 1978, Dener Pamplona de Abreu morreu após passar três dias internado no hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo. O costureiro foi vítima de uma cirrose hepática, agravada pelo consumo excessivo de álcool. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos 41 anos, o maior antagonista de Clodovil na moda estava desgostoso com os rumos que sua vida profissional tinha tomado. Os tempos em que criava os vestidos mais cobiçados pelas celebridades e pela high-society brasileira haviam passado, e ele tentava pagar as contas desenhando vestidos de noiva para lojas da rua São Caetano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dener foi sepultado no jazigo cedido pela amiga e colunista social Alik Kostakis, no cemitério do Morumbi. Na discreta nota publicada no J</span><i><span style="font-weight: 400;">ornal do Brasil</span></i><span style="font-weight: 400;">, no dia seguinte ao enterro, chama a atenção o seguinte trecho, abre aspas: “segundo seu mordomo por mais de 16 anos, Pedro Villa, ele estava adoentado há muito tempo, mas ‘aos parentes e amigos nunca dizia que estava doente e se apresentava sempre alegre’. Clodovil foi um dos poucos colegas de profissão que compareceu ao velório e ao enterro, mas não quis falar”. Fecha aspas.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">Oito meses após o falecimento do antigo rival, Clodovil deu um depoimento ao jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli publicado na revista <em>Manchete</em>, em que fazia um balanço da carreira e mencionava o fim melancólico do costureiro paraense.  O título da reportagem foi tirado de uma fala do entrevistado, que dizia: “Não vou deixar que façam comigo o que fizeram com Dener”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E eu sou Gabriel Monteiro</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E este é <strong><em>Clodovil do Avesso</em></strong>, o podcast da ELLE Brasil sobre a vida de Clodovil Hernandes, que ganhou fama como costureiro nos anos 60 e 70, conquistou uma legião de fãs e desafetos como apresentador de TV e deu mais uma guinada no fim da vida, quando foi eleito deputado federal por São Paulo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste terceiro episódio, a gente vai acompanhar as estratégias desse personagem para sobreviver na selva fashion, entender o contexto criativo em que ele atuava e conversar com gente da área para decifrar: afinal, como era a moda de Clodovil?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No episódio anterior, nós contamos que os grandes ateliês de moda do Brasil, como o Madame Rosita, Boriska, La Signorinella e a Casa Canadá passaram a contratar novos desenhistas, por volta da década de 1950. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ideia era captar os desejos do tempo, mas não necessariamente abandonar um padrão: que era o de olhar pra França, mais especificamente, Paris. E isso não era exclusividade do nosso velho complexo de vira-lata, não, viu!? Era assim em quase todo o mundo. A moda europeia ditava. O design parisiense era o grande parâmetro de estilo a seguir. E ponto final. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou seja, quando a primeira geração de costureiros do país foi se estabelecendo por aqui, criando uma roupa sob medida, que atendia as vontade de uma elite, essas clientes endinheiradas, em geral, não estavam muito interessadas, assim, em originalidade. Elas queriam mesmo era se vestir como as mulheres do outro lado do oceano. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses profissionais, então, se preocupavam em oferecer qualidade, primavam por um acabamento de excelência em trajes de gala, vestidos de festa, mas não exatamente um design original. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste contexto, a primeira geração de costureiros brasileiros ganhou a fama pouco lisonjeira de copiadora. E, apesar de não ser uma completa mentira, há um ponto mais complexo nessa discussão: eles estavam atrelados a um tipo de produção específica, que era o sob medida. O objetivo era atender os desejos da cliente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, antes de entrarmos mais profundamente em uma análise da assinatura de Clodovil Hernandes na moda, vale aqui um parênteses pra gente entender o que é alta-costura, sob medida e prêt-a-porter. Então, a gente convidou o nosso diretor de moda, o Lucas Boccalão, para esclarecer rapidamente a diferença entre esses termos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A alta-costura nasceu na França, no final do século 19, por meio de um costureiro, Charles Worth. Ele criava roupas ultra sofisticadas e feitas sob medida para uma clientela exclusivíssima. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No começo do século 20, um sindicato foi criado na França para diferenciar esse tipo de criação e nascia, assim, a Chambre Syndicale. Ela era a dona de uma patente, a couture, que apenas marcas que atendiam a uma série de regras podiam receber. Costurar a roupa completamente à mão, provar mais de uma vez na cliente e ter um número específico de artesãos em um ateliê localizado em Paris são algumas dessas regras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou seja, não se faz alta-costura em nenhum outro lugar do mundo. Trata-se de uma patente francesa. O sob medida, por sua vez, pode ser feito em qualquer outro lugar, mas essa roupa, mesmo que feita em padrão altíssimo de qualidade, não chega a ser chamada de couture. Na Itália, até existe um nome para esse tipo de produção, é alta moda. E, nos EUA, convencionou-se chamar de high fashion. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adicione a isso o fato de que, nos anos 1960, enquanto o Brasil começava a fundamentar a ideia de um costureiro por aqui, que fazia uma roupa sob medida, o mundo via outro tipo de produção de moda explodir: o tal do prêt-a-porter, ou, do francês, o pronto para vestir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse termo passa a ser designado às roupas produzidas em série, usadas pelos baby boomers, os jovens pós-guerras. Na moda internacional, nomes como Pierre Cardin e Saint Laurent são exemplos de designers que investiram no prêt-a-porter e começaram a atender a uma demanda maior de clientes e a produzir um tipo de roupa mais casual. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer dizer, apesar do termo alta-costura ter sido amplamente utilizado no Brasil, inclusive pelo próprio Clodovil, o que se produzia nos ateliês não era alta-costura, mas, sim, o sob medida, que vem a ser um modo de produção em que o desejo do cliente fala mais alto do que a criatividade do próprio costureiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, apesar das limitações criativas, essa roupa produzida nos ateliês começa a carregar um nome. Você dizia, por exemplo, que o seu vestido de noiva foi assinado por Clodovil Hernandes, que usou um longo José Nunes para determinado evento e que havia encomendado um Ronaldo Ésper para o seu aniversário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então dá para dizer que a produção de Clodovil tinha um estilo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, exatamente pelo tipo de produção, não um estilo, mas, certamente, características próprias. E, para responder isso, vale ouvir o Vagner Carvalheiro, professor do curso de Modelagem do Vestuário na ETEC José Rocha Mendes. Vagner se apaixonou por moda ainda na infância, justamente por causa de Clodovil. Após a morte do costureiro, o professor foi atrás de croquis e peças criadas por ele para entender mais o seu trabalho e analisar as características da sua produção. </span><b> </b></p>
<p><em>&#8220;Esse primeiro momento da moda no Brasil é um momento muito de construção. De, obviamente, tecidos importados, uma estética importada. Mas, especificamente no caso do Clodovil, ele buscava muito atender às expectativas e conhecer a cliente. Ele buscava saber o que a cliente desejava, e ele buscava aliar aquilo que ele entendia de beleza, bem-estar, de lifestyle, em cima dos desejos da cliente. Eu não posso afirmar que o Clodovil era minimalista, mas ele era objetivo nas roupas dele. </em></p>
<p><em>Assim, 80% das roupas que o Clodovil criou daria para ser usada em qualquer época. Eu não vejo as criações do Clodovil muito datadas. Lógico, tem peças características de determinadas épocas, mas as roupas do Clodovil poderiam ser usadas hoje sem problema algum.&#8221;</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vagner destaca ainda aspectos práticos pensados por Clodovil. Ele cita, por exemplo, um vestido de noiva que, apesar de ficar extremamente volumoso no corpo, podia ser dobrado e guardado em uma sacola. Ou outro modelo em que o próprio avesso do vestido virava a sacola para guardar a peça.</span></p>
<p><i>&#8220;O Clodovil era uma pessoa muito à frente do seu tempo. Isso é um fato inegável. A gente teve várias cabeças pensantes aqui no Brasil, mas pensa, uma cabeça que faz um vestido de noiva com bolso, ou um vestido de festa com bolso, na década de 70, pra mulher ficar super confortável. Aquele momento que não sabe onde colocar a mão no bolso, pra você ter uma ideia. Um estilista que surpreende. Tem um caso curiosíssimo de uma socialite que compra uma joia e chama ele pra um jantar pra ele desenhar um vestido pra ela usar com essa joia. E aí ele faz um vestido todo fechado na frente. E ela fala, e aí, onde eu vou usar a joia? E aí ele faz, usa por trás. Então ele sabe quando você usa nas costas, e ele fez um decote profundo nas costas pra usar essa joia nas costas.</i></p>
<p><i>Então eu acho que isso era uma sacada do Clodovil muito grande, essa modernidade. Eu tomo essa liberdade de dizer que o Clodovil era muito moderno na maneira como ele enxergava o corpo da mulher e na maneira como ele trabalhava. E o avesso da roupa é muito impecável, o Clodovil realmente primava por qualidade.&#8221; </i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, você acabou de ouvir uma das poucas unanimidades dos entrevistados envolvendo o Clodovil. Ele era amado por uns, odiado por outros, mas todos concordavam sobre uma coisa: Clodovil priorizava o acabamento e fazia isso olhando o avesso da roupa, cada costura, cada detalhe. Não à toa, o avesso foi parar no nome desse nosso podcast. </span></p>
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<p><i>&#8220;Ele várias vezes olhava o vestido, levantava pra ver por dentro, quer dizer, aprendeu direitinho, muito bem feito, bem acabado e tal.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem falou agora sobre essa história de acabamento checado pelo avesso foi a Isabel Cristina Gonçalves, que cria roupas sob medida em seu ateliê no Jardim Paulista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Isabel é natural de Florianópolis, Santa Catarina, e se mudou para São Paulo quando tinha 19 anos. Dois meses depois de chegar à capital paulista, ela leu um anúncio de jornal que mudou a sua vida: um costureiro que ela admirava de longe, que ela acompanhava todos os desfiles no programa da Hebe Camargo, estava à procura de uma secretária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na porta do ateliê de Clodovil, Isabel entrou em uma fila com mais de 50 mulheres e passou o dia inteiro. Quando deu 11 horas da noite, no entanto, a gerente do ateliê avisou que não entrevistaria mais ninguém. Isabel já estava de saída e nem pensava em voltar, mas, nessa hora, ela chamou a atenção de uma senhora de cabelos brancos, que passava por lá. Era outra Isabel, a Isabel Hernandes, mãe de Clodovil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por motivos que nem ela própria sabe explicar, Isabel Cristina caiu nas graças de Isabel Hernandes. Acabou conquistando a vaga e, ao longo dos 15 anos seguintes, ela seria muito mais que uma secretária. Ela se tornaria o braço direito e pau-pra-toda obra de Clodovil.</span></p>
<p><em>&#8220;Eu comecei a trabalhar na segunda-feira. Perguntei, o que eu vou fazer? Ele falou, vai ficar colada em mim. Cuidar da minha agenda e aprender. E ele me ensinou tudo.&#8221; </em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando assumiu o novo emprego, Isabel, que tem formação em Biologia, não sabia nem costurar. Gostava de moda, mas não entendia nada do assunto. Mas Clodovil estava disposto a dar um curso intensivo para a nova pupila.</span></p>
<p><em>&#8220;Dois meses depois, eu estava recém-casada, ele falou, mandei tirar duas passagens. Nós vamos para Paris sábado. E aí eu fui. Fiquei dois dias andando com ele, todas as as ruas, todas as lojas, com uma coisinha, uma agenda, anotando. “Aqui compra capellini. Sabe o que é capellini, minha filha? Não? É chapéu. A gente compra o chapéu, leva pra São Paulo, aí tem uma pessoa que faz o molde. Nessa viagem pra Paris, a gente andava na rua e ele dizia para mim, preste atenção, a mulher europeia não tem o corpo da brasileira. A mulher europeia é longilínea, ela tem o corpo longo e a brasileira não tem. A brasileira tem um corpo curto, quadril e busto. Aqui, para fazer uma roupa, a gente tem que descer sempre um centímetro da cintura, porque senão ela fica curta de corpo. A mulher é curta de corpo. E é mais pura a verdade.  Eu faço as roupas, aí o cliente diz assim, alongou o meu corpo, mas é porque a gente corta um pouquinho abaixo da cintura para alongar o corpo.&#8221;</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Isabel, muitas vezes aquilo que as pessoas entendiam como uma arrogância de Clodovil, era, na verdade, a sua exigência falando mais alto. </span></p>
<p><i>&#8220;Quando eu assumi o ateliê, ele disse para mim, eu vou te ensinar tudo a respeito de tecido, a interpretar, um desenho, tudo. Uma coisa fantástica. A inteligência dele era de&#8230; Sabe, você ficava embevecida ouvindo ele falar. Você já deve ter escutado isso. Ah, ele não era difícil? Não, difícil ele não era. Ele era exigente. E era muito exigente e com razão. Sabe? Ele fazia um arranjo de flores. Ele dizia assim, a flor tem que estar virada pros seus olhos pra admirar. A flor não pode estar de costas. Então, eu olhava e dizia, ele tem razão, é isso mesmo. A flor tem que estar virada pra você. E assim tudo, tudo. Então, eu amava ele e a gente falava, a gente se entendia pelo olhar, pelo bom dia, por tudo.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra pessoa que conheceu Clodovil como ninguém, foi Rose Benedetti. Isso mesmo, a mulher responsável por difundir a bijuteria no Brasil como um acessório de luxo, em meados dos anos 1970. Rose conheceu Clodovil quando ela tinha só 15 anos de idade. </span></p>
<p><em>&#8220;Ele trabalhava numa boutique lá em Higienópolis. Eu fui com a minha mãe ver um desfile de modas. E ele era o designer desse desfile. E aí eu consegui conhecer o Clodovil menino. Tinha acabado de chegar do interior. E aí eu fui atrás dele, na Baronesa de Itu.&#8221;</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil fez o vestido de casamento de Rose, assim como o modelo de azul petróleo usado pela designer na abertura de sua loja no Rio de Janeiro. Depois, vestiu Rose também para o casamento de seu filho. Mas a relação dos dois foi muito além das trocas cliente/costureiro. Virou uma amizade intensa, que perdurou até a morte dele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu escritório, em meio a fotos de Clodovil jovem, uma série de croquis do costureiro e até mesmo com um modelo de vestido feito no ateliê Clodovil em mãos, Rose lembra como os desfiles do amigo foram fundamentais para impulsionar sua carreira. </span></p>
<p><i>&#8220;Quando eu comecei a fazer bijoux, ele me perguntou. Eu falei, eu estou fazendo bijoux. Aí ele falou: “magine, ce não vai aguentar fazer bijoux!” “Vou, sim, ce não aguenta? Eu também vou aguentar!” Aí ele falou: “Manda aqui pra eu ver”. Aí eu mandei numa caixa de papelão as coisas que eu estava fazendo. Eu fiz 75. Aí eu não tinha nem firma. Tinha só uma coisa de artesanato, né? Aí quando chegou lá, ele desfilou. Ele desfilou para a imprensa. Então estava o Fernando de Barros, a Costanza Pascolato, e um monte de gente da época. E aí eu falei, meu Deus, vai arrebentar tudo. Vai cair tudo no chão. Tava num nervo só. Quando acabou o desfile, ele foi pro microfone e agradeceu as pessoas que colaboraram. Então, o sapato é Beneducci, de não sei quem. E a bijoux é da Rose. Aí a Costanza estava lá. Ela trabalhava na Abril, na revista Cláudia. Aí ela falou, que Rose que é? Ele falou, a Rose que era Gebara, virou Benedetti. Aí a Constanza falou, mas eu conheço a Rose do tempo de escola, né? Aí ela levou as minhas coisas e publicou na Cláudia. Aí estourou, né? Aí eu tive que abrir empresa, etc. Começou tudo da Rose.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E Clodovil mostrou que tinha um faro afiado ao acreditar no talento da amiga. Rose Benedetti virou sinônimo de bijoux de luxo no Brasil, a ponto de atrair até interesses estrangeiros. Mais especificamente, da maison Yves Saint-Laurent. A grife francesa queria comercializar seus acessórios no país, mas como as importações, na época, eram proibidas, era preciso ter alguém que produzisse as peças aqui. E Rose foi a escolhida. Ela buscava os originais em Paris, reproduzia em seu ateliê, mandava para a aprovação da matriz e, depois, distribuía no Brasil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com Clodovil, então, a relação que começou como cliente/costureiro e evolui para amizade, ganhou ainda mais um elo: a de parceiros profissionais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os trabalhos que os dois desenvolveram juntos, Rose cita o figurino para o lendário Dzi Croquettes, a trupe comandada pelo coreógrafo Lennie Dale, que levava a plateia à loucura com suas apresentações irreverentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, eu não sei você, mas eu e o Gabe/eu e a Pat ficamos chocados de saber que, em plena ditadura militar, Clodovil desenhou roupas para um dos grupos de dança mais transgressores, revolucionários e afrontosos que já passaram por este país. E esse é só um dos muitos fatos que a gente desconhecia sobre ele.</span></p>
<p><i>&#8220;Ninguém reconheceu o Clodovil, né? Eu acho que ninguém reconheceu o trabalho que esse cara teve, gente. Era muito bom.&#8221;</i><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, antes das polêmicas do apresentador ofuscarem o trabalho do costureiro, Clodovil surfou bem nas glórias da moda. Entre os anos 1960 e 70, a lista de encomendas do seu ateliê não parava de aumentar. E era impulsionada tanto pelas aparições de Clodovil na TV, cada vez mais frequentes, quanto das suas criações, vestidas por celebridades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda em 1968, ele assinou o vestido de noiva da primeira mulher de Roberto Carlos, Cleonice Rossi, a Nice. O modelo, em crepe francês, lhe deu muita visibilidade entre as noivas. E, literalmente: o casamento, celebrado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foi transmitido ao vivo na televisão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Simone, Maria Bethânia e Elis Regina eram outras divas que Clodovil vestia. Com Elis, aliás, ele afirmava ter implementado o uso da saia curta. Isso mesmo, dizia ter sido o responsável por incorporar a minissaia ao país, por um erro da sua contramestra. E quem conta a história é a jornalista de moda Lilian Pacce. </span></p>
<p><i>&#8220;Ele fez um vestido pra Elis Regina, que tinha aquele programa Fino da Bossa, que eu acho que era da Record, se não me engano, que era, assim, muito importante, era como The Voice hoje. E aí ele pediu pra costureira baixar oito centímetros a barra do vestido e a costureira subiu oito centímetros. E daí quando ele vê na televisão, Elis estava com o micro vestido. E ele fala, meu Deus, Elis, você é louca. Ela fala, ué, você falou que você me mandou o vestido assim e eu achei que era pra usar assim!&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além dessa história de ter popularizado no Brasil a peça criada pela designer britânica Mary Quant –, Clodovil se gabava de outros feitos mais improváveis, como ter inventado a saint-tropez, a calça de cintura baixa. O assunto foi parar  até no quadro da fofoqueira, da Praça é nossa, apresentado por Carlos Alberto da Nóbrega:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Carlos Alberto): </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil, me diga uma coisa, eu sei que você é uma pessoa que faz roupa para mulher.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Já fiz pra homem também.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Carlos Alberto): </span><i><span style="font-weight: 400;">É que você lançou uma calça. Que calça é essa? Era pra homem ou não?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, era uma calça que chamava-se Saint Tropez.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Carlos Alberto): </span><i><span style="font-weight: 400;">Saint Tropez, exatamente!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Fofoqueira): </span><i><span style="font-weight: 400;">Como que é, Sant Tropeço? Eu nunca ouvi!</span></i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Saint Tropez!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1971, Clodovil foi capa da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">O Cruzeiro</span></i><span style="font-weight: 400;">, tema de reportagem na </span><i><span style="font-weight: 400;">Realidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, entrevistado no Pasquim e, tudo isso, enquanto inaugurava um ateliê agora na rua Oscar Freire, a badaladíssima rua da moda, em São Paulo. Em 1973, já era tão popular que foi convidado a fazer uma participação na primeira versão da novela</span><i><span style="font-weight: 400;"> Mulheres de Areia</span></i><span style="font-weight: 400;"> – na trama, Clodovil interpretou o costureiro que fez o vestido de noiva da personagem de Eva Wilma. Nesse mesmo ano, conseguiu outra façanha: com o patrocínio do fabricante de uísque Old Eight, realizou um desfile na Bélgica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, apesar do sucesso midiático, Clodovil sentia, que, nos negócios, os ventos começavam a soprar em outra direção. A moda e o mundo haviam mudado radicalmente desde aquele momento em que ele ganhou a sua Agulha de Ouro, no começo dos anos 1960. E Clodovil percebeu que era hora de fazer a sua transição para enfrentar a realidade dos tempos, o tal do prêt-à-porter.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1975, ele fecha o ateliê na Oscar Freire e reabre em um casarão na rua Itália, no endereço mais longevo da sua carreira. O lugar, batizado de Jardim da Moda, não era só um ateliê. Abrigava também uma boutique e representava o início da marca Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em entrevista ao</span><i><span style="font-weight: 400;"> Jornal do Brasil </span></i><span style="font-weight: 400;">um mês antes da inauguração, Clodovil revelou planos ambiciosos. A ideia era ter boutiques vendendo sua marca, espalhadas por todo o Brasil, em um sistema semelhante ao de franquias. As lojas deveriam ser montadas seguindo o gosto e as orientações do costureiro. Nosso editor de beleza, Pedro Camargo, que dá voz a Clodovil quando não há áudio do próprio, lê a explicação que ele deu ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Jornal do Brasil</span></i><span style="font-weight: 400;">:</span></p>
<p><strong><br />
</strong><i>&#8220;Esse tipo de comercialização já é utilizado em vários países do mundo. Creio que também dará certo no Brasil, porque o sistema em si facilita muito a vida do comerciante. Quem não deseja tranquilidade? Toda mercadoria, já com controle de qualidade fica aqui e é só o cliente solicitar o pedido que mandamos entregar tudo.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Deu certo? Não. Mas que era uma ideia ousada para a época, isso era. E Clodovil continuou tentando se adaptar aos novos tempos.</span></p>
<p>(Clodovil): <em>Hoje no Fantástico, eu apresento a minha coleção de prêt-à-porter primavera/verão 79-80 e modelos inéditos de alta-costura.</em></p>
<p>(Narrador): <em>20 manequins, 150 novidades para a primavera e o verão. A moda brasileira de Clodovil Hernandes.&#8221;</em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se fazer moda no Brasil hoje é para os fortes, nessa época a situação não era mais suave. Pelo contrário. E Clodovil, sempre que tinha a oportunidade, destacava as desigualdades entre produzir no nosso país e produzir na França, na Itália, ou mesmo nos Estados Unidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele lembrava que, na França, o governo reconhecia a moda como uma importante fonte de renda e que, nos EUA, havia isenção de imposto sobre o tecido para importar. Para Clodovil, o Brasil só precisava de um reconhecimento da moda como uma indústria importante que gera emprego e renda, para deslanchar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa mesma reportagem do </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;"> em que ele apresentou a coleção de prêt-à-porter, Clodovil falou sobre isso.</span></p>
<p>(Repórter): <i>O que é que representa pra você o prêt-à-porter? </i></p>
<p>(Clodovil): <i>Em princípio, antes de representar um produto que interessa à grande massa, o prêt-à-porter deveria ser um produto que interessasse ao nosso governo como mais uma fonte de divisa. </i><i>Eu prefiro sempre ao invés de falar de alta-costura, falar de prêt-a-porter que interessa mais ao povo, que interessa sobretudo ao meu país como fonte de renda, como divisa. Eu não penso mais em Clodovil, eu penso em Brasil mesmo.</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das coleções de prêt-à-porter, Clodovil também comprovou seu pioneirismo com uma série de licenciamentos nos anos 80, como lembra Isabel Cristina:</span></p>
<p>&#8220;<i>Imagina, era pra ele ser hoje milionário. Porque tinha sapato da Czarina com a marca Clodovil. Joias com a marca Clodovil. O carro, o jeans. O jeans vendeu assim, feito água. Era uma coisa linda. Era um jeans que vestia superbem. Só tinha um frisinho verde e amarelo, tinha uma microbandeirinha em outro modelo, no bolso. Era maravilhoso, maravilhoso.</i>&#8221;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se você ouviu Isabel falando em “carro”, não ouviu errado. Sim, Clodovil teve até um carro com sua marca. O modelo, batizado de Monza Clodovil, foi anunciado em 1982 pela Chevrolet. A ideia era atingir o público feminino, com direito a banco de couro e as iniciais do estilista nos detalhes. Mas, apesar de seguir uma tendência da época, como o caso da Cadillac que fez um Seville com Aldo Gucci, o Monza Clodovil não chegou a 12  modelos vendidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o jeans, provavelmente, foi o projeto mais bem-sucedido de Clodovil nessa fase. Como a Isabel contou, a linha, criada em 1981, incorporava sutilmente símbolos nacionais, e levava também a assinatura estilizada do costureiro nos bolsos. O destaque, porém, fica para a campanha do denim Clodovil. No anúncio, um cacho de bananas inteiramente coberto pelo tecido azul. E, no slogan, “jeans sabor Brasil”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma certa brasilidade, afinal, é uma das características mais importantes do trabalho de Clodovil, como aponta Lilian Pacce:</span></p>
<p>&#8220;<i>O Clodovil, primeiro, tinha um marketing pessoal que era muito bom. Ele era uma pessoa que primava pela qualidade da roupa, do caimento, do corte, do tecido. Excepcional, isso não dá pra negar. E ele valorizava a brasilidade e assumia isso, entendeu? Ele falava que era a caipira quem não valorizava isso. Ele falava de índio, ele falava de Brasil, da Amazônia, sabe? Eram assuntos muito distantes, muito fora assim do noticiário, do circuito. E ele trazia isso. Então, talvez o que mais devesse inspirar uma nova geração é olhar pra o que tem dentro e no seu entorno. E não o que tá longe. Olha o que tá perto de você. Valorizar o que você tem aqui, na sua terra, seu ambiente e fazer a partir disso o seu processo criativo.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A amiga Rose Benedetti também destaca esse orgulho pelo Brasil e fala das dificuldades de emplacar uma produção nacional, mesmo com o sucesso inicial do jeans.</span></p>
<p><i>&#8220;E se você levar isso aqui e ler, você verá que os desfiles dele eram focados em pássaros, em folhagens, e flores. Ele sempre gostou de coisas brasileiras. O que ele queria fazer? Atingir o povo, né? Só que na época do Clodovil, que ele queria fazer esse prêt-a-porter, não tinha como hoje tem uma Renner, Riachuelo, C&amp;A. Não tinha isso. Ele não tinha distribuição. Quando você faz o produto e não tem distribuição, você não chega a nada, né? Então, ele fez o prêt-à-porter e não tinha onde vender. Esse nicho não existia. Então, ele não tinha como distribuir o jeans. Não tinha. Era difícil pra ele. Foi difícil.</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois é, foi difícil e não só pra ele. Toda aquela geração que conheceu o sucesso com o sob medida penou para se adaptar ao novo modelo de produção. O principal problema? A dificuldade de controlar o número de estoque e o número de vendas. E quem fala um pouco mais disso é o professor de história da moda, João Braga.  </span></p>
<p><i>&#8220;Eles estavam acostumados com a moda sofisticada, e prêt-a-porter é moda em produção para atender uma demanda maior, é produção em série, não pode ter a sofisticação porque fica mais caro, vai encarecer o produto e não vai dar produção, então, de certa forma, eles tinham uma certa dificuldade, digamos assim, um certo desconforto com a realidade do prêt-a-porter, talvez a dificuldade seja melhor do que o desconforto, enfim, e a outra coisa, tá, faltava no Brasil investidores, porque mesmo esses grandes nomes internacionais da moda, até hoje, tem grandes investidores por trás. Então, eu acho que a falta de investidor, ainda hoje, tem muita gente talentosa e que às vezes não tem a condição financeira, e acaba não indo adiante por falta de um investidor.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dos pesares, Clodovil resistiu na moda durante toda a década de 80, levando em paralelo uma carreira na TV. Em 1988, no entanto, ele já havia desistido do prêt-à-porter e indicava uma certa desilusão em entrevista no </span><i><span style="font-weight: 400;">Show de calouros</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Silvio Santos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Rosângela): </span><i><span style="font-weight: 400;">Boa noite, Clo! Eu queria saber se você ainda trabalha com costura ou se você está na televisão porque no Brasil costureiro não tá dando nem para ganhar pra comer? </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, não é verdade. Claro que a gente tem problemas. Jamais seremos um costureiro francês ou americano. Mas o artista brasileiro não é artista a nível de comparação com nenhum estrangeiro. Nós somos um país de brincadeira. Tudo aqui é uma mentira. Nosso dinheiro e profissão são uma mentira porque o brasileiro não tem orgulho do país que tem. Portanto, não pode respeitar e nem se respeitar. As coisas começam por aí. Eu faço moda, essa roupa é minha. A Isabel me trouxe, me entregou no hotel agora, as costureiras fizeram. Eu continuo fazendo roupa. Mas eu faço alta-costura, não faço butique.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No início dos anos 90, Clodovil acabou fechando seu Jardim da Moda na rua Itália. Na época, alguns veículos noticiaram que o costureiro teve que cerrar as portas por causa de dívidas trabalhistas. Em 92, ele colocaria novamente o ateliê para funcionar em sua própria casa, na Granja Viana. Mas a essa altura, a moda não era mais fonte de fama nem fortuna para ele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seja como for, entre altos e baixos, Clodovil estava conseguindo cumprir o que prometeu naquela entrevista à Manchete, em 1979: estava fazendo – e faria – o que fosse preciso para não ter o mesmo fim melancólico de Dener.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso é um podcast produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização, Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">A Praça é nossa</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Show de Calouros</span></i><span style="font-weight: 400;">, do SBT, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantástico</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede Globo.</span></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/moda/podcast-mergulha-na-vida-de-clodovil">Novo podcast da ELLE Brasil mergulha na vida de Clodovil Hernandes</a></h5>
]]></content:encoded>
					
		
		
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<credito_imagem_destaque>Arte: Gustavo Balducci</credito_imagem_destaque>
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		<title>Clodovil do avesso: a guerra das tesouras</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-a-guerra-das-tesouras</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Oyama]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Mar 2024 13:45:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil hernandes]]></category>
		<category><![CDATA[dener pamplona de abreu]]></category>
		<category><![CDATA[joão braga]]></category>
		<category><![CDATA[josé gayegos]]></category>
		<category><![CDATA[moda brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[podcast clodovil do avesso]]></category>
		<category><![CDATA[ronaldo ésper]]></category>
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					<description><![CDATA[Segundo episódio aborda os primeiros anos de Clodovil em São Paulo e a disputa entre os costureiros dos anos 1960, incluindo a histórica rivalidade com Dener.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="Spotify Embed: 02- A guerra das tesouras" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/09MI0pHnYnjHMGLezIrNXG?utm_source=oembed"></iframe></p>
<p><strong>Ouça Clodovil do Avesso em: </strong><a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener">Apple Podcasts</a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener">Amazon Music</a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener">Google Podcasts</a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener">Deezer</a></p>
<p><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ano é 1956. Juscelino Kubitschek acaba de ser eleito o presidente do Brasil e o país vive o auge dos Anos Dourados, em plena euforia desenvolvimentista e na expectativa de um crescimento econômico como nunca havia se visto. Afinal, JK assumiu o governo sob o lema &#8220;Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo&#8221; e os seus eleitores apostavam que o mineiro ia conseguir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já a família de Clodovil não estava em sua melhor fase. Domingos Hernandes tinha perdido o seu armazém de secos e molhados em Floreal e o dinheiro estava curto. Na cidade com a economia movida pela agricultura, muita gente só pagava depois que recebia o dinheiro da safra. Domingos vendia fiado e levava calote, até que acabou quebrando.</span></p>
<h5>Leia também:<br />
<a href="https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-o-menino-que-desenhava">Clodovil do avesso: o menino que desenhava</a></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil, por sua vez, não conseguiu se manter em São Paulo sem a ajuda da família. Desistiu dos planos da faculdade de Filosofia e voltou a morar com os pais. Parecia o fim do sonho da carreira de costureiro, que mal havia começado. Mas Clodovil iria receber uma ajuda inesperada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama.<br />
</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E eu sou Gabriel Monteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E este é o segundo episódio de <em>Clodovil do Avesso</em>, o podcast da ELLE Brasil sobre Clodovil Hernandes. </span><span style="font-weight: 400;">Dessa vez, a gente vai destrinchar os primeiros passos de sucesso como costureiro e a chamada Guerra das Tesouras, travada principalmente com Dener.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1956, no mesmo ano em que JK toma posse na presidência do Brasil, os Hernandes deixam Floreal, no interior paulista. Eles se mudam para Mandaguari, no norte do Paraná, que era um pólo produtor de café e estava em um momento promissor – a avenida principal era completamente asfaltada e a cidade tinha até aeroporto próprio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A essa altura, Clodovil não era mais um estudante. Com o diploma do Curso Normal, recém-concluído, e as suas habilidades artísticas, ele conseguiu um emprego de professor de desenho na Escola Estadual Vera Cruz, no curso ginasial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, aqui, aquela contextualização rápida: o ginásio equivale hoje ao Ensino Fundamental 2, que vai do 6º ao 9º ano. Ou seja, Clodovil dava aulas para alunos que tinham entre 11 e 14 anos de idade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelo contrato com a direção da escola, a carga horária de Clodovil era de apenas 15 horas semanais. Então, o jovem professor tinha tempo de sobra para se dedicar a uma atividade paralela: a de criar vestidos para as mulheres da sociedade de Mandaguari.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E a fama de Clodovil não demorou a se espalhar pelas redondezas. Ele também começou a ganhar clientes em Londrina, a 70 km dali e, por volta de 1957, fez o primeiro desfile de sua vida no salão do aeroporto da cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanto burburinho em torno do rapaz acabou chamando a atenção do prefeito da cidade, Elio Duarte Dias. Nascido em Minas Gerais, Duarte Dias foi para Mandaguari para trabalhar como dentista e acabou conquistando dois mandatos na prefeitura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E fez um trabalho bem elogiado: implantou um sistema de creche em período integral, asfaltou as vias principais da cidade e ganhou até o prêmio de oitava melhor administração do Brasil, dado em mãos por Juscelino Kubitschek.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, aqui pra nossa história, o que ele fez de mais revolucionário foi apostar no talento do professor de desenho da Escola Vera Cruz. O prefeito resolveu pagar uma passagem de avião e dar uma ajuda inicial para aquele jovem tentar a vida na capital paulista. E, então, Clodovil se muda novamente para São Paulo. Dessa vez, disposto a fazer acontecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos seus primeiros anos em São Paulo, Clodovil trabalhou em esquema de freelancer. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ele vendia desenhos de moda na Rua Barão de Itapetininga, que liga a Praça da República ao Theatro Municipal, e, na época, era considerada a rua da moda, em São Paulo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois, começou a trabalhar como figurinista (o termo mais comum naqueles tempos, para designar um costureiro), em butiques como a Scarlett Modas, de Maria Augusta Teixeira. Dener já havia trabalhado lá, mas este é um nome que a gente fala mais daqui a pouco. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na virada dos anos 1950 para os 60, Clodovil começa a trabalhar na La Signorinella, na Rua Maranhão, em Higienópolis. E é lá, numa dessas casas de madames, onde ele passa a ganhar destaque. João Braga, professor de História da Moda na FAAP e de história da arte na Faculdade Santa Marcelina, explica a importância desses ateliês: </span></p>
<p><b><i><span style="font-weight: 400;">Esses ateliês, essas casas de costura, elas têm uma importância muito grande, porque ajudam a criar esta aura de sofisticação da moda. </span><span style="font-weight: 400;">E antes desses costureiros, nós tivemos o período das madames. Sim. Madame Rosita, madame Boriska, aqui em São Paulo, e tinha as madames no Rio, em Florianópolis, Porto Alegre, tudo mais. </span><span style="font-weight: 400;">Então a moda brasileira deve muito a essas senhoras judias, que vieram para o Brasil com conhecimento t</span></i></b><i><span style="font-weight: 400;">écnico e começavam a fazer essa moda mais sofisticada. Algumas chegavam até a industrializar também.</span></i><i>E muitas dessas casas convidavam jovens que tinham um bom desenho, que estavam trazendo um novo ar dos tempos. </i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Digamos que Clodovil estava no lugar certo, na hora exata. Nessa fase, entre as décadas de 1950 e 60, a indústria têxtil brasileira estava investindo pesado para se modernizar e se fortalecer. Começaram a surgir, então, os primeiros desfiles de moda no país, com a participação dessas casas de costura apresentando suas coleções em passarelas montadas em eventos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Umas das ações do setor na época, por exemplo, foi a criação do Festival da Moda em 1955, promovido pela Matarazzo-Boussac, que, por sua vez, era uma associação das Indústrias Matarazzo, de São Paulo, com o industrial têxtil francês Marcel Boussac. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O professor João Braga lembra como foi aí que a cultura da moda no Brasil começou a florescer. </span></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Esses eventos tinham também muito uma intenção de caráter social. Costumavam ser eventos beneficentes. Porque no momento em que é um evento beneficente, ele ganha um determinado valor ou ganhava um determinado valor. Então,</span></em><em><span style="font-weight: 400;"> esses desfiles que aconteceram a partir dos anos 50 via Rio de Janeiro, depois São Paulo ainda, no final dos anos 50 e nos anos 60, eles contribuíram, sim, muito para a formatação de uma cult</span><span style="font-weight: 400;">ur</span><span style="font-weight: 400;">a de moda no Brasil. E</span><span style="font-weight: 400;">ra para valorizar a produção dos nossos tecidos. </span><span style="font-weight: 400;">Foi ganhando um corpo ou outro, que passou a ser uma feira com o tempo, obviamente, uma feira de confeccionados. Você mostrar um tecido numa vitrine, ou colocar um busto e colocar um tecido, simulando uma roupa, tem, sim, uma visualidade. </span><span style="font-weight: 400;">Mas se você faz uma roupa com aquele tecido, ganha um corpo maior. As pessoas entendem melhor a possibilidade daquilo virar uma roupa.</span></em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois bem, foi no Festival da Moda, em 1960, onde Clodovil ganhou o troféu Agulha de Ouro por um traje criado via Signorinella. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Agulha de Ouro era dada à melhor criação de moda-esporte, que, no caso, tratava-se de um tailleur listrado de popeline cinza e branco, desfilado com um chapéu de aba curta e scarpin branco. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Numa passarela em que predominaram os modelos ultrafemininos, com cintura bem marcada, Clodovil mostrou que estava um passo à frente. O look que ele apresentou era uma roupa de homem feita para uma mulher, como ele explicaria mais tarde. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não à toa, o modelo foi batizado de George Sand, o pseudônimo da escritora francesa do século 19 Amandine Lucile Dupin. Além de escrever romances sob um pseudônimo masculino, para ser aceita no meio literário, Amandine também usava eventualmente roupas masculinas, que ela considerava muito mais práticas que os espartilhos da época. </span></p>
<p><i>&#8220;O Clodovil era mestre no Flou. Sabe o que é o Flou? Flou é francês. Flou é Musseline. Ele sabia trabalhar muito bem com musseline, organza, esses tecidos leves.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sim, a voz que você acabou de ouvir é a de Ronaldo Esper. O costureiro contemporâneo de Clodovil ficou famoso por suas alfinetadas, inclusive no próprio Clo. Mais pra frente a gente vai tratar dessa relação complexa entre os dois, mas, aqui, vale ouvir uma característica do trabalho de Clodovil que o fez ganhar o seu segundo prêmio no Festival da Moda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E dessa vez, foi o prêmio máximo: a Agulha de Platina, justamente por um vestido de musseline, considerado o melhor traje de gala. Batizado de Turandot, ele era em degradê amarelo e, por cima do longo sem alças, havia uma espécie de túnica translúcida e o busto tinha pedrarias. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O traje também foi feito para a Signorella e o nome do modelo mostra mais uma vez as super referências do Clodovil. Turandot era o nome da personagem principal da ópera homônima de Giacomo Puccini. Ela era uma princesa chinesa, bela e cruel, que odiava os homens e jurou nunca se casar. Para se livrar dos pretendentes, Turandot impôs uma condição: só se casaria com quem adivinhasse os três enigmas propostos por ela. Quem errasse era decapitado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mas apesar dos prêmios rolando e o sucesso batendo à porta, a verdade é que os primeiros anos de Clodovil em São Paulo não foram fáceis. A vida, que já era apertada, piorou em 1961, quando o seu pai, Domingos Hernandes, morreu em um acidente de caminhão em Mandaguari. Dona Isabel se mudou para São Paulo e foi morar com o filho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Domingos não deixou nenhuma herança e Clodovil viveu tempos duros com a mãe. As coisas só não eram piores porque eles contavam com a ajuda de duas benfeitoras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2006, em uma entrevista ao repórter Ronaldo Ruiz, Clodovil contou que viveu meses sustentado por dona Abigail, amiga de Isabel e dona da casa em que eles foram morar após a morte de Domingos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Dona Abigail era dona da casa onde eu morava com a mamãe, quando meu pai morreu. E eu nunca descobri as coisas que ela fez, a não ser muito tempo depois, porque a mamãe tinha um pacto com ela, a mamãe nunca me contou nada. Eu fui procurá-la e ela não me recebeu. Ela disse que o que ela tinha feito por mim era exatamente acreditando naquilo tudo que eu seria. E ela nunca me cobrou nada. Ela tinha me dado a linha telefônica… Na verdade, eu não tinha dinheiro pra comer porque era muito pobre, meu pai morreu e não deixou absolutamente nada, também não precisava deixar mesmo. E a mamãe quando veio morar comigo, era uma vida dura, muito dura. E em casa nunca faltava comida. E eu nunca perguntei nada, porque a gente não  pergunta isso. Eu achava que minha mãe tinha um dinheirinho guardado e tal. E não era verdade, era a dona Abigail que nos sustentava. Durante meses ela nos sustentou.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na mesma entrevista, ele relembra também da ajuda de Dora Cavalcanti Ferraz, uma mulher rica, que disponibilizava seu carro com motorista particular para que Clodovil não passasse por pé-rapado nesse novo mundo em que ele estava tentando ingressar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Essa senhora, ela foi muito querida comigo, numa época, logo no começo da carreira, quando papai morreu e tal, que a mamãe veio. Ela punha o carro de na porta de casa com motorista pra dar a aparência que eu estava bem. Ela não queria que as pessoas soubessem que eu estava recomeçando uma vida.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, em paralelo, acontecia a ascensão da sua imagem. E Clodovil foi galgando esse espaço até conseguir abrir um ateliê próprio – o primeiro –, na Avenida Pacaembu, em 1962. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E foi por meio desse ateliê que ele começou a apresentar coleções mais pessoais, como uma inspirada na op-art, toda preto e branca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conta Clodovil, esse desfile fez ele ouvir de uma fiel cliente de Dener que ela iria jogar todo o seu guarda-roupa antigo fora, porque as roupas que ele fazia eram muito mais modernas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;O Guilherme Guimarães era o grande costureiro do Rio de Janeiro. Grande copiador do Oscar de La Renta. Ai&#8230; Morreu já. Aliás, eu enterrei todos, graças a Deus. Eu sabia desde o começo que eu ia enterrá-los todos. Eu falei, olha, não se apresse, bobo. Você vai enterrar todos. E acho que enterrei até a suposta auto-costura brasileira, porque, depois disso, o que se faz é lamentável.&#8221;</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentiu o clima de rivalidade? A voz é mais uma vez de Ronaldo Esper. E ele não mente quando diz que enterrou todos. Esper, que completa 80 anos em 2024, é o único da sua geração que continua na ativa, costurando para algumas poucas clientes selecionadas e dando dicas de moda na Rede TV. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na época em que ele entrou para o ringue fashion, nos anos 1960, diziam que a rivalidade entre os novos expoentes da moda nacional era tão grande, que dava para cortar essa tensão toda no ar com uma tesoura.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu tinha 18 anos. Nem isso. Tinha acabado de entrar na faculdade. O Dener me acolheu e ele já tinha birra com o Clodovil. Ele falava uma grande verdade. O Clodovil era o costureiro das interioranas, das mulheres. Porque naquela época não tinha internet, não tinha nada. Então havia essa coisa que&#8230; Talvez uma tendência para chegar em Ribeirão Preto demorasse um mês. Hoje chega na hora. Então o Clodovil vestia as fazendeiras, as coisas. Porque ele nasceu no interior e ele badalava por ali e ele pegava. Mas não era gente… Não era gente, assim, vamos dizer, desprezível. Pelo contrário, eram grandes fortunas. Algumas ainda resistem, outras desapareceram. E o Dener era o&#8230; Como é que fala? O primeiro costureiro do Brasil, da granfinada brasileira. Quando eu entrei, eu entrei justamente no momento que… Esse mundo grã-fino e tudo, parece que estava procurando uma coisa nova. Aí muita gente passou para mim. Era uma disputa tremenda. Aí o Clodovil, o Dener é que falava que ele era o costureiro do interior. Das fazendeiras, das&#8230; Eu não desprezava ninguém porque, no fim, o que acontece? O vestido é uma mercadoria. Não importa se é vendido aqui, ali, acolá. É o dinheiro que entra, né? Então, o Clodovil cismou um pouco comigo. Ele fez tudo para que o meu começo não fosse adiante. O Dener, não. O Dener me apresentou para a Hebe. Eu comecei a fazer continuamente desfiles na Hebe. E o Clodovil, sempre que podia, dava uma patada.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, na esteira de eventos como o Festival da Moda, da Fenit e da Rhodia, com seus desfiles, os primeiros estilistas brasileiros foram se estabelecendo, marcando os seus nomes. No Rio de Janeiro, era Guilherme Guimarães, José Ronaldo, Fernando José e João Miranda. Em São Paulo, Amalfi, Ugo Castellana, José Nunes e Ronaldo Esper. No sul, Ruy Spohr. No nordeste, Marcílio Campos. E por aí vai. Mas, aqui, nós vamos nos atentar a dois nomes que costuravam e barbarizavam na cidade de São Paulo: Clodovil e Dener.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dener Pamplona de Abreu foi o grande pioneiro entre todos esses costureiros. Nascido na Ilha de Marajó, no estado do Pará, ele se mudou para o Rio de Janeiro na década de 1940 e começou, já na adolescência, a colaborar com desenhos para a famosa Casa Canadá, de Dona Mena Fiala – a butique carioca era uma das maiores casas de madame e vestiu quatro primeiras-damas:  Darcy Vargas, Santinha Dutra, Sarah Kubitschek e Dulce Figueiredo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dener também foi o primeiro a dar as caras na televisão. No programa de Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi, o costureiro afirmava o que considerava lixo ou luxo naquele momento. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Flávio Cavalcanti): </span></i><i><span style="font-weight: 400;">Nove! Marisa!</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Marisa Raja Gabaglia): </span></i><i><span style="font-weight: 400;">Nota oito.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Flávio Cavalcanti): Oito! Dener!</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Dener): Eu acho a voz dele tão doce quanto a cara dele, porque ele parece um quindim de iaiá, né?!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, para a imprensa em geral, soltava elogios e xingamentos à Clodovil, na mesma proporção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dener dizia que Clodovil era bom costureiro, mas que ele próprio já estava bem mais a frente, era um industrial. Ele atiçava o companheiro de desfiles o chamando de chato, invejoso e imitador, nas entrevistas. Enquanto isso, se gabava de ser um homem magérrimo e de olhos verdes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Zombar da cor da pele de Clodovil, aliás, era uma das atitudes preferidas de Dener. Chamava Clodovil de &#8220;nêga-vina&#8221;, uma maneira de atacar a possível ascendência indígena ou negra do costureiro. Vina, segundo o próprio Dener, significava, abre aspas, negra retinta, carregado na cor, preto mesmo, fecha aspas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do lado oposto, Clodovil não deixava barato. Ele fazia piada da aparência esguia de Dener com um falso elogio, o chamando de &#8220;gênio asmático&#8221;, ou &#8220;magro feito uma caveira&#8221;. Além disso, dizia que o ódio de Dener o colocava em destaque, jogava holofote para o seu trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fato é que a imprensa, que na época não estava nem aí pro fato dos comentários serem escancaradamente racistas e preconceituosos, se esbaldava com as faíscas e chegou a apelidar a briga de Guerra das Tesouras. Outra verdade é que tanto lá quanto cá, ambos saiam ganhando em marketing com esses xingamentos. Com aquela história de falem bem, falem mal, mas falem de mim, os dois não saíam das colunas sociais e, consequentemente, chamavam a atenção de novas clientes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">José Gayegos, que foi assistente de Dener, conta que muitas vezes esteve no meio de um arranca-rabo desses: </span></p>
<p><i>&#8220;O Clodovil era uma pessoa especial. Claro, ele era uma pessoa difícil, muito difícil, mas muito especial. Ele brigava com todo mundo. Comigo, nunca. A gente nunca brigou. Ele tinha muito respeito por mim como profissional. E eu também dava, de vez em quando, umas duras nele e ele aceitava. Coisa rara também.&#8221;</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Deu pra pegar, né? Era um tal de morde e assopra que ninguém sabia ao certo o quanto um xingamento era verdadeiro ou um teatro com fundo de verdade. Enquanto Clodovil dizia para todo mundo que Dener havia feito um contrato para excluí-lo dos eventos da Rhodia, o costureiro também assinava junto com o parceiro-inimigo o figurino da peça Sinistra Comédia, em 1966, e os dois volta e meia eram vistos lado a lado, à noite, em boates como a Blow-Up.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas a Guerra das Tesouras criou cenas memoráveis, como em agosto de 1967, quando um vestido de noiva quase acabou com a festa. Era o </span><a href="https://drive.google.com/drive/u/0/folders/1uGxS9TLsQLWxE3-B-ghUnMH88Xc4GSKu" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">I Festival de alta-costura, organizado pela Fenit</span></a><span style="font-weight: 400;">, com Guilherme Guimarães, José Nunes, Dener e Clodovil convidados para desfilar juntos. E só havia um acordo: ninguém deveria apresentar um vestido de noiva naquele dia. José Gayegos conta mais dessa história:  </span></p>
<p><em><span style="font-weight: 400;">Uma tecelagem japonesa que estava se instalando no Brasil. A dona da tecelagem queria que o Denner usasse um tecido. E ficou combinado que ninguém ia fazer vestido de noiva. Porque o vestido de noiva dava o grande vestido e tal. Então não ia ter vestido de noiva. Só que o Denner&#8230; Sim. Colocou o vestido no baú das roupas. Eu pensei comigo. Isso vai dar merda. E deu? E aí o que aconteceu? Chegou lá&#8230; Quando ninguém ia fazer vestido de noiva, de repente aparece o Dener com um tecido novo. E aí evidentemente o Clodovil&#8230; Por causa desse vestido de noiva, eles se pegaram. O Clodovil saiu contando que ele tinha rasgado o vestido de noiva. Isso é uma coisa que não teria acontecido, porque o Dener era franzino, mas era muito forte. Ele era um menino de praia do Rio de Janeiro. Então, ele teria ido na cara do Clodovil, de tapa. A história do vestido é real. Eles brigaram por causa do vestido. Mas não existiu essa história de que ele rasgou o vestido. Teve bate-boca, baixaria, do tipo Nega Vina, sabe? Porque o apelido do Clodovil era Nega Vina.&#8221; </span></em></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como o Gayegos disse, Clodovil podia até crescer a história mas o bafafá era sempre certo, acontecia mesmo. E se a cena de dois estilistas com egos nas alturas brigando como dois lutadores dentro de um ringue parecia roteiro de novela, a TV Globo não hesitou em levar para as telinhas essa história por meio de <em>Ti-Ti-Ti</em>. O folhetim de Cassiano Gabus Mendes foi lançado em 1985 e, na arte, Reginaldo Faria, como Jacques Leclair, e Luiz Gustavo, como Victor Valentim, imitavam a vida, ou melhor, Dener e Clodovil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Malu Mader): </span><i><span style="font-weight: 400;">Quem é o costureiro?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Yara Amaral): </span><i><span style="font-weight: 400;">Victor Valentin</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">(Reginaldo Faria): </span></i><i><span style="font-weight: 400;">Vamos estabelecer uma coisa? Esse nome está proibido de ser dito aqui em casa. Foi sua estreia e sua despedida. Victor Valentin morreu!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outro episódio de bate-boca, Clodovil diz que chegou até a ficar envergonhado pela maneira como os costureiros brasileiros se portavam. Em 1969, aconteceu o desfile Os Quatro Grandes da Moda, mais uma vez com Guilherme Guimarães, José Nunes, Dener e Clodovil. O evento contaria ainda com o estilista italiano Valentino Garavani desfilando pela primeira vez no Brasil. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A gente estava discutindo para ver quem começava antes. Se ia ou não ter noiva na passarela. Olhamos para trás e as modelos de Valentino estão organizadas, todas de lã bege e looks de execução primorosa. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, claro, a língua afiada de Clo não se limitaria apenas ao mea culpa. Ele jurava também que semanas após aquela apresentação, dois de seus vestidos de noite foram copiados descaradamente pelo designer italiano. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim das contas, então, a rixa entre Clodovil e Dener de fato existiu ou era encenação? Durante as entrevistas feitas para esse podcast, várias pessoas que conviveram com os dois costureiros garantiram que tudo não passava de teatro e de uma esperta jogada de marketing de ambos os lados. O próprio Clodovil, em diferentes ocasiões nas décadas seguintes, afirmaria que ele e Dener, na verdade, eram muito amigos. E que ele era até grato ao colega paraense por ajudar a projetá-lo no início da carreira, como ele contou a Silvio Santos no programa de auditório </span><i><span style="font-weight: 400;">Nada Além da Verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">, em 2008.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Silvio Santos): </span><i><span style="font-weight: 400;">Você tinha rivalidade com o Dener no tempo em que os dois eram costureiros famosos?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Jamais, que bobagem! Eu devo minha carreira a ele. Porque ele precisava de alguém pra disputar uma primazia. Ele concorria sozinho. Então, ele precisava de alguém, e ele me estimulou muito, me ajudou muito no começo, porque ele inventou uma briga comigo. E ele passou a disputar com alguém, inclusive, eramos nós dois, nós trouxemos essa coisa da moda, que dá tanto dinheiro hoje em dia. Nós fomos os precursores. Agora, toda vez que ele concorria comigo depois dessa coisa ele perdeu. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mas agora uma curiosidade. No programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Nada Além da Verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">, o convidado respondia a várias perguntas e era submetido a um polígrafo, popularmente conhecido como detector de mentiras. A cada resposta considerada verdadeira, o participante ia acumulando um prêmio em dinheiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa noite, Clodovil já havia respondido 18 questões e tinha sido aprovado em todas. Só faltavam 2 para ganhar o prêmio máximo de 100 mil reais. A pergunta a respeito da existência de uma rivalidade com Dener era a penúltima. E qual foi o veredito do polígrafo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Silvio Santos): </span><i><span style="font-weight: 400;">Você tinha rivalidade com Dener no tempo em que vocês dois eram costureiros famosos?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, magina, eu acho o seguinte, eu tenho até saudades dele, porque ele era uma pessoa divertidíssima.</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Silvio Santos): </span><i><span style="font-weight: 400;">A sua resposta é não?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Silvio Santos)</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><i><span style="font-weight: 400;">Vamos ver o que diz o polígrafo!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(narrador): </span><i><span style="font-weight: 400;">Esta resposta é…</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Falsa!</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil saiu do programa só com 15 mil reais e colocou a culpa no detector de mentiras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização, Compasso Coolab. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos do vídeo antigo sobre Mandaguari, da Hilton Filmes, da apresentação da ópera <em>Turandot</em> no Theatro Municipal de São Paulo, da entrevista do repórter Ronaldo Ruiz com Clodovil, do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">A grande chance</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por Flávio Cavalcanti e exibido pela TV Tupi, do documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Fenit &#8211; 45 anos de histórias da moda no Brasil</span></i><span style="font-weight: 400;">, da primeira versão da novela </span><i><span style="font-weight: 400;">Ti-ti-ti</span></i><span style="font-weight: 400;">, da Rede Globo, e do programa </span><i><span style="font-weight: 400;">Nada Além da Verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">, do SBT.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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	</item>
		<item>
		<title>Clodovil do avesso: o menino que desenhava</title>
		<link>https://elle.com.br/podcast/clodovil-do-avesso-o-menino-que-desenhava</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Oyama]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Mar 2024 11:05:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[podcast]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil do avesso]]></category>
		<category><![CDATA[clodovil hernandes]]></category>
		<category><![CDATA[floreal]]></category>
		<category><![CDATA[jacques fath]]></category>
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					<description><![CDATA[No primeiro episódio do novo podcast produzido pela ELLE Brasil, mergulhamos na infância do garoto que viria a ser um dos costureiros mais famosos do Brasil.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="Spotify Embed: 01- O menino que desenhava" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/6kUAjOlEUaeKbV9Ejy6nDT?si=wZkr3kQxQ9-6LzpJgtPRjg&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p><strong>Ouça Clodovil do Avesso em: </strong><a href="https://open.spotify.com/show/3nQeUZ7ndTrtZr7xPChR4V" target="_blank" rel="noopener">Spotify</a> | <a href="https://podcasts.apple.com/br/podcast/clodovil-do-avesso/id1736626281" target="_blank" rel="noopener">Apple Podcasts</a> | <a href="https://music.amazon.com.br/podcasts/9b40c44c-9548-4ab9-ad3f-6f620fdf31b1/clodovil-do-avesso" target="_blank" rel="noopener">Amazon Music</a> | <a href="https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9hbmNob3IuZm0vcy9mMzhjNmMxOC9wb2RjYXN0L3Jzcw?sa=X&amp;ved=0CAMQ4aUDahcKEwigkqi5t4OFAxUAAAAAHQAAAAAQEg" target="_blank" rel="noopener">Google Podcasts</a> | <a href="https://www.deezer.com/br/show/1000766942" target="_blank" rel="noopener">Deezer</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Se preferir, você também pode ler este podcast:</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É um garoto bem magrinho, moreno, aparentando 7 anos de idade. Ele veste camisa branca de manga curta, bermuda com cinto, sapato de amarrar e meias brancas – o típico uniforme daquela época em que o ensino fundamental era chamado de grupo escolar. O cabelo, repartido de lado e cortado bem rente nas laterais, deixa as orelhas mais proeminentes. O menino encara a câmera com olhar muito sério, com uns dos braços dobrados e a mão sobre a barriga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do lado direito, com uma mão sobre o ombro do garoto, está uma mulher de pele bem branca, cabelos ondulados na altura do queixo e vestido escuro. Do outro lado está um homem de cabelo engomado puxado pra trás, bigodinho fino, terno, gravata e lenço na lapela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A foto, em preto e branco, é uma das raríssimas imagens de Clodovil na infância, com os pais, e foi tirada em frente ao armazém da família, no interior de São Paulo, na década de 40. </span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-80223 size-full" src="https://images.elle.com.br/2024/03/WhatsApp-Image-2024-03-15-at-08.40.13.jpeg" alt="clodovil com os pais" width="960" height="1280" title="Clodovil do avesso: o menino que desenhava"><p class="media-data">
<small class="media-caption">Clodovil com os pais, na década de 1940.</small>
<small class="media-photo-credit">Foto: Reprodução do livro Floresta Floreal – a história do nascer e do crescer de uma cidade</small>
</p></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Patricia Oyama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu sou Gabriel Monteiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E este é o primeiro episódio de </span><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil do avesso</span></i><span style="font-weight: 400;">, o podcast da ELLE Brasil, que vai contar a história de Clodovil Hernandes, um dos pioneiros da moda brasileira, que se tornou um dos apresentadores mais conhecidos do país, foi demitido de todas as emissoras de TV em que trabalhou, deu a volta por cima ao 69 anos, ao ser eleito deputado federal com quase 500 mil votos, e até hoje, 15 anos depois de sua morte, é relembrado por suas polêmicas e aparece em incontáveis memes nas redes sociais. Nessa série, você vai conhecer toda a trajetória de Clodovil, da infância no interior de São Paulo aos últimos dias de vida em Brasília.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“No sábado, era só bordado. Então, nós juntava, aquela trinca de menina, cada uma com seu bordado. Só tinha um menino que não saía do meio de nós, que era um tal de Clodovil.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é Alzira Basseto Marques. Com 88 anos, dona Alzira tem uma memória bem melhor que a minha e lembra com detalhes de episódios da infância em Floreal e daquele garoto, que desde pequeno gostava de desenhar, de bordar e mostrava ter uma personalidade muito própria.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Clodovil, ele era uma graça, viu? Ele nunca tava em roda de homem, de mocinho. Ele tinha amizade, sim. O povo da nossa classe, que a nossa classe, era uma classe mista. Metade era menino, metade menina. Então, ele convivia tanto com nós, a nossa meninada, a nossa amiga, mocinha, como os mocinhos. Os mocinhos eram separados de nós, eles trabalhavam com barbante, faziam cintas pra homem, com madeira, eles faziam várias coisas. E ele, não, ele bordava aquelas colchas lindas pra mãe dele. Ele fazia crochê.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil Hernandes nasceu em Elisiário, no interior do Estado de São Paulo, em 1937, quando o mundo vivia o período Entreguerras e a Europa assistia ao surgimento do nazifascismo, com Hitler e Mussolini arrastando multidões pras ruas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No Brasil, os ventos ditatoriais também sopravam forte. No ano de nascimento de Clodovil, Getúlio Vargas daria o golpe que suspendeu a Constituição em vigor e instaurou o Estado Novo no país. Qualquer tentativa de oposição poderia resultar em perseguição e prisão, na carona do anticomunismo, que estava a todo vapor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A imagem passada pra o população, no entanto, era a de um Brasil em pleno crescimento, capitaneado pelo presidente Vargas. Ou, como se propagava naquela época, o pai dos pobres. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda bebê, Clodovil foi morar em Catanduva e, por volta dos 3 anos de idade, se mudou com a família pra Floreal. Foi lá que seu pai, o imigrante espanhol Domingos Hernandes, abriu um armazém de secos e molhados. Em uma entrevista à revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Realidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, nos anos 70, Clodovil descreveu a loja da família. E a gente vai pedir pro Pedro Camargo, nosso editor de beleza, ler esse trecho pra gente. Aliás, sempre que houver uma declaração do Clodovil que não tem o áudio do próprio, é o Pedro que vai dar voz a ele neste podcast.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Sete portas abrindo sobre a calçada, que guardavam bacalhau, sacarias, tecidos baratos, coisas plásticas, aquele horror que você deve conhecer. Nas vitrinas sujas de pó, botões, fivelas, um lixo! Mas no quintal havia uma amoreira, que era uma glória. Um pé de jasmim, divino! Grande parte do tempo eu passava cantando em cima da amoreira, como um passarinho.&#8221;</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa mesma reportagem, Clodovil diz que quando via um avião sobrevoando Floreal, o que acontecia só uma vez por mês, ele torcia pra aeronave cair, pra que, assim, aparecesse gente nova na cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com o passar dos anos, no entanto, ele começou a falar cada vez com mais carinho e orgulho de suas raízes interioranas, como nessa conversa com Marília Gabriela, em 1999.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu me lembro de tudo da infância. Porque eu vivi no interior, como você, nós tivemos essa felicidade. Por conseguinte, nós temos para onde voltar. Porque o problema é quando você viveu… Por que a periferia da cidade é má para quem se destaca? Porque a pessoa não quer voltar pra periferia, então ela corta as raízes e ela perde a seiva da vida. Nós, que nascemos no interior, e graças a Deus existe esse interior, e ele está dentro de nós… Porque eu nunca me senti caipira na vida, em lugar nenhum do mundo, nem em Paris, nem lugar nenhum. Duvido que você tenha se sentido também.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse interior onde Clodovil cresceu, o Noroeste paulista, foi uma região que teve um grande desenvolvimento durante o Ciclo do Café, que começou no século 19 e se estendeu até as primeiras décadas do século 20.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a riqueza gerada pelas exportações de café, o interior de São Paulo viu o surgimento de vários núcleos urbanos e a expansão da malha ferroviária até localidades como São José do Rio Preto, perto de Floreal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como todo ciclo, o do café começou a entrar em declínio por fatores diversos, que culminaram com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 e a consequente crise mundial. As exportações desabaram e a cultura cafeeira deixou de ser o motor da economia nacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os Hernandes se mudaram pra Floreal, nos anos 40, os tempos áureos do café já tinham passado, mas a terra ainda prometia prosperidade. O cultivo do algodão tinha substituído os cafezais e a expectativa era de que a região virasse uma grande potência agrícola. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Domingos Hernandes, o pai de Clodovil, por sinal, trabalhou justamente em plantações de algodão, até juntar dinheiro suficiente para abrir seu armazém. Nessa época, Floreal ainda não era um município, era um vilarejo, um distrito de Monte Aprazível, a quase 50 km dali. Quem fala mais sobre a região é o florealense Gilson Marques, autor do livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Floresta Floreal, a história do nascer e do crescer de uma cidade</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Pelo último censo, Floreal tem 3.003 habitantes. Na época do Clodovil, Floreal era mais efervescente, porque era uma época em que a zona rural, agrícola era muito movimentada, com muitas famílias morando na zona rural, todos esses italianos, esses imigrantes chegando lá, a cidade sendo construída, grandes lojas que tinha lá para dar vazão na produção agrícola. Então, Floreal era muito mais movimentada do que é hoje. A cidade aumentou um pouquinho de tamanho, mas a estrutura básica da cidade é a mesma. O prédio onde o Clodovil tinha, o pai dele tinha loja, está lá, a escola onde ele estudou, que hoje é a prefeitura, modificaram o prédio, mas o prédio está lá.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Então, em termos de você chegar na rua principal de Floreal hoje, chegar de frente à igreja e dar uma olhada pela rua, é a mesma rua que o Clodovil via na infância dele.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Gilson foi a primeira pessoa que eu entrevistei pra este podcast. E ele foi fundamental pra ajudar a gente a chegar aos amigos de infância do Clodovil e mergulhar nas origens dessa figura tão controversa. Um deles é Lino Borelli, que conheceu o futuro costureiro quando tinha 8 anos de idade e tava sempre grudado com ele.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele é de 37, eu sou de 36. Aí, ficamos&#8230; Todas as festinhas que tinha na cidade, ele ia, nunca foi sem eu. Sempre me levou nas festinhas. O dono da festa não me convidava, ele que me convidava pra ir na festa dos outros.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Sempre junto. Aí ele fazia desenho naqueles quadros de noiva, fazia caricatura das pessoas.</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Aqui em Floreal, desde pequenininho, ele desenhava, era coisa de louco. Todo mundo admirava ele.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pois é, o talento pra criação e desenho era uma das características que Clodovil já demonstrava ter desde criança. Outra característica que o garoto carregaria pra vida era a de não levar desaforo pra casa.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele discutia. Ele não perdia questão para ninguém, ele discutia mesmo. Ele não queria que desfazia dele. Porque muitos chamavam, falavam maricão, porque ele gostava muito de desenhar, ficava mais junto com as meninas. Quando chamavam ele de maricão, ele não gostava.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar das eventuais provocações da molecada – que eram rebatidas na lata –, Clodovil não era uma criança solitária. Gostava de subir em árvores, pegar fruta no pé e, se não era lá muito fã de jogar futebol, pelo menos acompanhava as partidas do amigo Lino, que era goleiro do time da vila.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ele não jogava futebol, mas ele gostava de assistir o gol. Assistia, ele acompanhava eu. Ele ficava atrás do gol, gritando: &#8216;Pega Lino, pega, não solta não!&#8217; Ê, mas era um sarro o Clodovil.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas muitas entrevistas que deu ao longo da carreira, Clodovil frequentemente destacava dois pontos: a paixão que ele tinha pela mãe e o fato de que ela não era sua mãe biológica. O estilista foi adotado ainda bebê pelo casal de imigrantes espanhóis Domingos e Isabel Hernandes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isabel já havia perdido uma criança e ficado estéril. E, segundo relatos do próprio Clodovil, no início, ela rejeitou aquele menininho, que chegou com a pele coberta de furúnculos. Com o passar do tempo, no entanto, os dois viraram unha e carne, e Isabel morou com o filho até morrer, em 1986. Clodovil dizia que só ele havia amado a mãe e só havia sido amado por ela.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu já sei desde os 11 anos que eu sou adotivo. E isso nunca me criou problemas e eu nunca contei pros meus pais que eu era adotivo. Eles morreram sem saber que eu sei.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clodovil dizia que soube da adoção por meio de uma tia. Mas quem falou no assunto pela primeira vez com ele, muito provavelmente, foi a dona Alzira, que você ouviu no começo do episódio.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu era vesga de olho. Bem vesga. E às vezes ele discutia comigo. Ele foi e falou assim pra mim um dia: “Ah, sai daí, caolha”. Aí, sabe, eu escutava boato. Criança presta atenção nas coisas, né? Aí eu falei: &#8220;Sai daí? Você tá me chamando de caolha? A dona Isabel e o seu Domingo não é teu pai e tua mãe. Ce foi achado!&#8221; Aí, filha, se você soubesse como ele chorou&#8230; Ele foi embora pra casa, contou pra mãe dele, a dona Isabel, e a dona Isabel foi lá na minha casa e falou pra minha mãe: &#8220;Dona Marcília, por favor, fala pra Alzira ir em casa, que ela falou assim, assim pro meu Clodovil, e ele tá encucado com isso, ele chora sem parar! Quer saber se é verdade, se é mentira. Aí a minha mãe falou, vou levar sim, dona Isabel, deixa a Alzira vir em casa. Minha mãe levou eu, puxada pela mão, me deu uns tabefo, me puxou a orelha e me levou lá e fez eu falar que era mentira e abraçar ele e pedir desculpa. Aí ele ficou todo-todo.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em mais de uma entrevista, Clodovil contou que tinha a lembrança de ver certa noite, na sala de casa, uma mulher de coque, conversando com seus pais, que seria a sua mãe biológica. Ele dizia ter bloqueado parcialmente essa lembrança e que, por isso, não se lembrava do que eles diziam, mas tinha certeza de que a mulher era sua mãe e queria levá-lo embora, e que seus pais adotivos não tinham permitido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outras ocasiões, ele disse que nunca soube quem era sua mãe de sangue. Mas essa pode ser uma informação que o cérebro de Clodovil também preferiu esquecer. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Segundo o amigo de infância Lino Borelli, a mãe biológica de Clodovil era uma mulher chamada Alípia, que, na verdade, era irmã de Isabel Hernandes, a mãe adotiva. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quando a mãe dele conversou comigo, depois que ele foi embora, a dona Alípia, a mãe legítima dele, ela me contou todinho a vida quando ele nasceu. </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ela conversou assim: falou que ela foi embora pra Elisiário, trabalhar de doméstica na casa de uma amiga dela e ela engravidou de um moço lá. Diz que era namorado. Chamava Antônio Ferracini. Moreno. E o moço, quando ficou sabendo que ela tava grávida, ele se mandou para Jales, aqui perto. Uns 80 quilômetros perto daqui. Como a patroa dela não queria assumir a criança dela, ela trouxe aqui pra Floreal pra irmã dela criá-lo. </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A mãe dele falou assim pra mim: &#8220;Quando eu cheguei com meu filho na loja, o Domingo Hernandes, meu cunhado, ele falou &#8216;olha, Alípia, que coisa, de quem que é esse nenê?&#8217; Falei: &#8216;É meu, é meu, Domingo, é meu. Eu trouxe aqui pra vocês criarem, porque eu não tenho condições de criar. Aí, falou com a Isabel, a mãe adotiva: &#8216;olha, Isabel, tua irmã quer entregar o nenê pra nós, o que você acha?&#8217; &#8216;Vamos pegar, vamos pegar. Vamos criar ele. Só que você vai ficar aqui como babá do seu próprio filho. E ficou mesmo, até muitos anos. Muitos anos.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer dizer, de acordo com esse relato, Alípia, chegou a trabalhar pro casal Hernandes durante um período como babá de Clodovil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lino conta ainda que, muitos anos depois, quando o estilista já era uma celebridade nacional, Clodovil voltou a Floreal e quis falar com Alípia.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quando ele veio aqui uma vez, veio aqui em Floreal, ele falou pra mim assim: &#8220;Lino, passe em frente à casa da minha mãe que eu quero ver ela&#8221;. Falei: &#8220;Vamos lá&#8221;. Aí montei no carro dele, ele tinha um motorista e tudo, carro bonito, de luxo. Falei: &#8220;Pode virar aqui&#8221;. Falei: &#8220;Ó, esse homem que tá sentado aqui em frente é o João (inaudível), que é o teu padrasto. É casado com a tua mãe. Ele falou assim: &#8220;Não, vamos embora, vamos embora, eu não quero passar aqui, não, vamos embora&#8221;. Coitadinho muito pobrezinho, dava dó. O povo da cidade que ajudava ele, sabe. Eu falei pro Clodovil: &#8220;Para aqui, vamos conversar com tua mãe&#8221;. &#8220;Não, não, vamos embora, vamos embora.&#8221; Aí, foi embora, me deixou lá na cidade, na praça e foi embora. Não quis ver, coitado, ele ficou…  Muita pobreza, né? Pobreza demais. Dava dó.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa não foi a única vez que Clodovil voltou a Floreal depois de famoso. Os amigos contam que ele retornou à cidade em diversas ocasiões – às vezes, por causa de alguma homenagem, às vezes, sem motivo específico – e costumava reencontrar os companheiros de infância. Fora as visitas que ele fazia na surdina, como ele próprio revelou em entrevista à Marília Gabriela.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu adoro andar nos lugares onde eu vivi de madrugada. Eu vou guiando, vou para uma cidade próxima, fico num lugar que não tem nada a ver e depois vou para esses lugares de madrugada. Eu adoro.</span></i></p>
<p>(Marília) <i><span style="font-weight: 400;">O que você vai buscar, Clodovil?</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ah, os meus fantasmas, minhas coisas boas. Eu tenho fantasmas lindos. Como Mario Quintana diz: eu sirvo chá para eles.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O imigrante Domingos Hernandes, pai de Clodovil, era um homem meio bronco, de pouco estudo. Apesar disso – ou por causa disso – ele fez questão que Clodovil tivesse uma boa formação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, o menino foi estudar em um colégio interno de padres católicos numa cidade vizinha, onde aprendeu a falar francês com perfeição. Essa fluência foi mencionada por vários entrevistados para este podcast, e o próprio Clodovil, claro, também costumava se gabar disso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da educação esmerada, o período no colégio interno teve um fato marcante e delicado na vida do estilista: um abuso sexual sofrido aos 11 anos de idade. E aqui fica o alerta de gatilho pros próximos minutos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O episódio foi citado pela primeira vez por Clodovil em 1971, em entrevista à revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Realidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, e recuperado pelo jornalista Carlos Minuano no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Tons  de Clô</span></i><span style="font-weight: 400;">, publicado em 2017. Na extensa reportagem sobre o costureiro, escrita pelo jornalista Jorge de Andrade, Clodovil falava sobre uma noite escura, em que estava na enfermaria do colégio, e sentiu um cheiro de lavanda barata e uma mão acariciando o seu queixo. Ele não entra em detalhes, mas deixa claro que o que aconteceu naquela noite foi mais do que uma carícia no rosto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos mais tarde, em uma entrevista à Bruna Lombardi, no programa</span><i><span style="font-weight: 400;"> Gente de Expressão</span></i><span style="font-weight: 400;">, Clodovil relatou novamente o episódio, em uma fala bastante controversa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Bruna) </span><i><span style="font-weight: 400;">As pessoas falam do abuso sexual com crianças. Você sofreu na tua infância, do diretor da tua escola, que eu li. E você denunciou isso.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil) </span><i><span style="font-weight: 400;">Não, mas eu não denunciei no sentido rancoroso. Na verdade, eu posso até falar porque ele está morto, eu poderia falar, não por desrespeitar. Ao contrário, por respeitá-lo. Ele é um ser como qualquer um de nós. Todo ser humano faz bobagem. Agora, eu analisei sempre assim: quando eu acordei na enfermaria e ouvi aquele homem batendo na parede, que era um recado, todas as fantasias de uma criança na cabeça, e que era o diretor do colégio e tal, e que depois no escuro eu senti aquela mão em cima da minha pele, ao invés de ver isso como uma coisa nojenta, porque quem quiser, que veja, né? Mas não é a mesma transferência do nojo, de que alguém me prejudicou, não. Eu vi isso como uma eleição, &#8220;eu fui escolhido&#8221;, porque, na minha cabeça, isso não me comprometia moralmente. O meu &#8220;eu&#8221; não estava comprometido. Ce tá entendendo o que estou dizendo?</span></i></p>
<p><i></i><span style="font-weight: 400;">(Bruna):</span><i><span style="font-weight: 400;"> Não.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil) </span><i><span style="font-weight: 400;">Não?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Bruna): </span><i><span style="font-weight: 400;">Não. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Clodovil)</span><i><span style="font-weight: 400;"> Por exemplo, se eu fosse, se eu tivesse que trilhar um caminho de macho, onde essas coisas fossem um horror e tal, eu teria um tipo de revolta. Mas como eu não tive que trilhar esse caminho, eu tive que trilhar um caminho de homem, que é completamente diferente de macho, então, isso não me agrediu em nada. Ao contrário. Isso é um problema que talvez ele tenha carregado na vida. Mas eu, pra mim, vi como eleição. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Clodovil fala, dá pra perceber a expressão de Bruna Lombardi, como os olhos verdes muito abertos, entre consternada e atônita com o que está ouvindo. Na sequência, ela pergunta se o episódio não gerou nenhum trauma e Clodovil diz que não, e já emenda num comentário sarcástico-bem-humorado sobre gente que diz ter trauma por qualquer coisa.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Porque quando eu vim pra São Paulo estudar, todas as pessoas tinha psiquiatra, psicólogo, todo mundo com trauma, &#8216;porque papai separou de mamãe&#8217;, então eu vou fumar maconha porque estou em trauma.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é possível julgar as reações de uma pessoa que sofreu abuso sexual. É extremamente comum que as vítimas se sintam culpadas, tenham pensamentos conflitantes em relação ao abusador ou bloqueiem as memórias do ocorrido. E esse sentimento de se sentir eleito e escolhido, como descreve Clodovil, não deixa de ser também uma forma de defesa que ele encontrou para lidar com o episódio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas entrevistas que ele deu ao longo da carreira, a gente consegue identificar como muitas vezes Clodovil veste uma couraça, quando diz que não se deixou afetar por isso, não tem problema nenhum com aquilo. A relação paradoxal que ele tinha com a própria sexualidade e os embates com o movimento gay, são os exemplos mais evidentes. Mas a gente vai deixar pra se aprofundar sobre esses temas mais adiante.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando aos tempos do colégio interno, o garoto de Floreal continuava a aprimorar suas qualidades de desenhista. E as criações de Clodovil começaram até a sair do papel, como lembra a amiga Alzira Basseto.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Quando a minha irmã, que é a tia da mãe do Gilson, era mocinha, ela entrou em negócio de concurso de beleza, quando tinha quermesse. A gente vendia votos com carnê. Entravam às vezes quatro, cinco, seis moças de Floreal. Uma era de beleza, outra de simpatia e a outra de bondade. E aí eu peguei carnê da minha irmã pra vender pra ela, porque era minha irmã. E ela ganhou no concurso de beleza como rainha. O Clodovil, naquele tempo, filha – ele era menino dos 10, 12 anos –, ele desenhou o modelo do vestido da minha irmã e escolheu o pano e a cor. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">(Patricia): </span><i><span style="font-weight: 400;">Nossa, deve ter sido um dos primeiros vestidos que ele fez na vida, né, dona Alzira?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">É, eu acho que foi, filha. E, olha, a minha irmã ficou muito bonita! Ce chegou a conhecer tule?</span></i><i><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></i><span style="font-weight: 400;">(Patricia): </span><i><span style="font-weight: 400;">Sim, sim, aquele tecido que é mais durinho, né?</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">É. Era azul cor de anil.</span></i><i></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A habilidade de Clodovil pra desenhar vestidos rendeu ao garoto o apelido de Jacques Fath, dado por um professor.  Jacques Fath foi um estilista francês muito famoso nos anos 1940 e 50, considerado um dos principais nomes da alta-costura no pós-guerra. Ele foi contemporâneo de nomes como Christian Dior, Pierre Balmain e Coco Chanel, e teve entre seus pupilos Hubert de Givenchy, Guy Laroche e Valentino Garavani. Jacques Fath morreu muito cedo, de leucemia, com apenas 42 anos, em 1954.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, coincidentemente, foi nesse mesmo ano que o Jacques Fath de Floreal teve o primeiro reconhecimento público do seu talento. Clodovil participou de um concurso para criar um vestido para a cantora Marlene  e teve seu desenho publicado na revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Radiolândia</span></i><span style="font-weight: 400;">, de circulação nacional. Junto com o croqui, havia uma descrição do modelo, feita por seu autor:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Este vestido pode ser feito em tafetá italiano ou tule preto. O busto e a saia, muito justos, são confeccionados em tafetá. O busto deverá ser bordado em strass e em canutilhos prateados. A saia, exageradamente franzida, é em tule. Note-se que a saia inicia curta na frente, descendo à medida que vai alcançando a parte de trás. A alça, que contorna o pescoço e sai abaixo do busto, é feita em tule da mesma cor que o resto do conjunto. Como complemento, usem apenas um bracelete e brincos de brilhantes ou imitação.&#8221;</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desenho teve direito a um comentário da própria Marlene, que escreveu, abre aspas: &#8220;Clodovil, seu modelo é muito bonito. Parece que será um dos classificados.&#8221; Fecha aspas. Lembrando que a gente está falando aqui da época em que as cantoras do rádio eram as maiores divas do Brasil e a Marlene era praticamente, assim, a nossa Beyoncé.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi por volta dessa época também que Clodovil deixou o interior de São Paulo e foi morar na capital paulista, para completar o último ano do Curso Normal. E aqui vale uma explicação: o Curso Normal era uma modalidade do ensino médio que existia na época e que era voltada para a formação de professores. Na verdade, mais professoras, porque a quase totalidade dos estudantes desse curso era formada por garotas. Os garotos costumavam optar pelos chamados cursos Clássico ou Científico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, mas Clodovil, que nunca se importou muito em seguir as convenções, fez o curso Normal e se transferiu para São Paulo no último ano, pra estudar e já se preparar para entrar na faculdade de Filosofia, que era o seu plano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que Clodovil nunca chegou a cursar Filosofia e acabou voltando a morar com os pais depois de se formar no curso normal. Mas essa curta passagem por São Paulo teve um acontecimento decisivo, que ia virar uma chave na cabeça do futuro estilista. E ele relembrou essa passagem no programa</span><i><span style="font-weight: 400;"> Nada Além da Verdade</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentado por Silvio Santos, que foi exibido em dezembro de 2008, três meses antes de sua morte.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Eu cheguei em São Paulo com 19 anos e eu não sabia que isso existia. Vim fazer o último ano de Normal e Faculdade de Filosofia. E uma menina, Regina, que deve estar viva ainda, porque sempre uma pessoa é meio. Nós não sabemos, mas nós somos meio pra ajudar os outros. E ela viu um desenho no caderno e ela disse: &#8216;Nossa, se eu fosse você, eu faria Moda&#8217;. Eu falei: &#8216;Como assim? Desenha uns vestidos e vai vender na cidade. Faça!&#8217; Aí eu peguei uma folha de caderno e fiz 11 desenhos, magina que coisa ridícula, uns desenhinhos pequenininhos numa folha só. Porque eu não tinha noção de estética, porque eu era um menino do interior que nunca tinha cursado uma escola de arte. E eu levei numa loja, que eu não quero dizer o nome, porque pode ser que a pessoa esteja viva e eu vou dizer uma coisa indelicada. E dos 11 desenhos ela comprou 6. Isso me deu 1 conto e duzentos. Meu pai me mandava na época 2 contos por mês, pra manter o colégio, a pensão e tudo.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, em um único dia, Clodovil ganhou quase o dobro do que recebia por mês do pai. E aí, o que ele fez?</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Ué, o que todo fashionista que se preze faria: gastou quase tudo em uma malha que ele estava namorando há meses!</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De quebra, Clodovil descobriu que a moda, sim, poderia ser uma profissão.  E que ele conseguiria, inclusive, ganhar muito dinheiro com isso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bom, mas sobre a &#8220;coisa indelicada&#8221; que ele mencionou na conversa com Silvio Santos, foi o seguinte: depois de receber essa primeira bolada, Clodovil retornou diversas vezes à tal loja pra oferecer novos desenhos. Só que a dona do lugar nunca mais quis comprar nenhum. Ele estranhou e não entendia porque os outros desenhos não emplacavam. Até que um dia ele foi novamente lá e viu que, na verdade, a mulher não comprava, mas espertamente memorizava os desenhos que ele trazia e reproduzia os modelos na loja.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, logo na largada para a sua nova profissão, Clodovil Hernandes aprendeu uma lição importante: na moda, jacaré que dorme vira bolsa.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Clodovil do Avesso</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um podcast jornalístico produzido pela ELLE Brasil. Reportagem, roteiro e narração, Patricia Oyama e Gabriel Monteiro. Gravação e finalização: <a href="https://compasso.co/" target="_blank" rel="noopener">Compasso Coolab</a>. Trilha sonora original, In Sonoris Causa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Este episódio usou trechos dos programas <em>De frente com Gabi</em>, apresentado por Marília Gabriela e exibido pelo SBT; <em>Gente de Expressão</em>, apresentado por Bruna Lombardi e exibido pela TV Manchete, e <em>Nada Além da Verdade</em>, apresentado por Silvio Santos e exibido pelo SBT.</span></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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<credito_imagem_destaque>Arte: Gustavo Balducci</credito_imagem_destaque>
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