Resultados da pesquisa por “igor dadona” – Moda Brasil https://modabrasil.webbfinanceiro.com A moda, só que diferente Mon, 05 Aug 2024 23:58:02 +0000 pt-BR hourly 1 https://images.elle.com.br/2023/03/win8-tile-icon-150x150.webp Resultados da pesquisa por “igor dadona” – Moda Brasil https://modabrasil.webbfinanceiro.com 32 32 SPFW N55: Igor Dadona, Gefferson Vila Nova, Ponto Firme e Meninos Rei https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/spfw-n55-igor-dadona-gefferson-vila-nova-ponto-firme-e-meninos-rei Fri, 26 May 2023 06:57:53 +0000 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/?p=46251 A SPFW N55 começou oficialmente na noite de segunda-feira (22.05), com o desfile de João Pimenta, no Theatro Municipal de São Paulo. Na tarde de quarta (24.05), foi a vez da marca Isaac Silva se apresentar na Ocupação Nove de Julho. João celebrou seus 20 anos de passarela com uma retrospectiva e divisão de águas entre seu trabalho como estilista e figurinista. Isa Silva mostrou o tanto que evoluiu desde 2015, quando iniciou sua empreitada na moda.

Identidade, consistência, constância e renovação são conceitos essenciais e divergentes a qualquer negócio e profissional de moda. É uma equação complicada. A lógica do sistema pede mudanças cada vez mais rápidas e frequentes. Sai o velho, entra o novo, que parece que já nasce velho. Ao mesmo tempo, espera-se imagens e produtos bem definidos, inconfundíveis, únicos. A mensagem – ou o propósito, essa palavra terrível que os marketeiros adoram – deve ter alguma continuidade e fazer sentido. Só não vale repetir, tá? Nada de mesmice, clama o mercado (dizem).

Identidade, consistência, constância e renovação (olha aí a mesmice repetitiva) foram assuntos importantes nas principais apresentações da quinta-feira (25.05), quando a semana de moda retomou o ritmo sequencial de desfiles.

 

Igor Dadona

Igor Dadona cansou de falar sobre sofrimento em suas coleções. É que ele não só falava, sentia mesmo. Foram três temporadas carregadas de angústias, medos e melancolia. “Estava sempre relembrando dores e começou a ficar pesado demais. Criar deixou de ser algo prazeroso”, disse o estilista, momentos antes do desfile.

Naquela manhã – único dia e horário em que sua mãe podia assistir ao desfile – Igor virou a página. A escrita continua a mesma, já a sintaxe está mais sofisticada e assertiva. Para tornar o processo criativo mais leve, ele permitiu mais tempo e atenção ao que lhe é interessante, ao que lhe faz bem. Como a arquitetura, uma paixão antiga que só não virou profissão por envolver muitos números e cálculos matemáticos. 

Nas pesquisas sobre espaços e construções brutalistas, um dos seus estilos favoritos, ele caiu numa série de imagens de escritórios vazios. “Amo essa estética meio anos 1990”, confessa. Acontece que essa coleção marca seus 10 anos de carreira. “Aí, decidi juntar as duas coisas: a roupa de escritório com a roupa de festa.”

A analogia não tinha como ser mais representativa sobre o momento em que Igor se encontra profissionalmente. De um lado, tem o desejo pela celebração de sua trajetória e de emoções até então represadas. Do outro, uma nova fase profissional e de negócios. Nos últimos anos, o estilista viu seu empreendimento crescer pela primeira vez.

Para além da associação da alfaiataria com roupa de trabalho, o foco comercial aparece no aprimoramento das peças que fazem mais sucesso com sua clientela. Em especial a camisa. Tem camisa de smoking desconstruída, de seda com poá, oversized, superlonga, com drapeado, com laço no lugar do colarinho, com recorte de tecidos diferentes…

Outra menção necessária vai para os casacos-investimento. Os de lã texturizada com cristais Swarovski são opções preciosas que funcionam para quase tudo. E tem aquele à la Cristóbal Balenciaga, com tecido acetinado e um bordado floral que já apareceu lá na sua terceira coleção. Um ótimo exemplo daquela história de identidade, consistência, constância e renovação.

 

Gefferson Vila Nova

Para sua estreia na São Paulo Fashion Week, Gefferson Vila Nova recuperou elementos que definiram a identidade de sua marca quando esta ainda era dedicada exclusivamente à moda feminina (as regatas com ilhoses dão conta do recado). É que nos meses de lockdown, durante a pandemia de Covid-19, o estilista baiano começou a fazer roupas para uso pessoal e tomou gosto pela coisa. Tanto que, em 2021, ele lançou um e-commerce com propostas para o público masculino.

No desfile do dia 25 de maio, seu casting era majoritariamente composto de homens. Tempos atrás, daria para dizer que a coleção também era assim. Ainda bem que estamos em 2023 e entendemos que roupa não tem gênero. E Gefferson sabe bem disso. Quando começou a diversificar sua gama de produtos, misturou elementos convencionalmente femininos com masculinos.

Desta vez, a inspiração no modernismo brasileiro, principalmente nos trabalhos de Roberto Burle Marx, deixou tudo bem uniforme ao reduzir as linhas da coleção a formas simples, cortes geométricos e caimento afastado do corpo. Como nas últimas estações, saem na frente as camisas oversized e as calças de alfaiataria soltinhas, só levemente largas na proporção.

 

Ponto Firme

O Ponto Firme é a prova de que nem todo sucesso na moda se mede com régua comercial. Criada pelo estilista Gustavo Silvestre em 2015, a iniciativa começou com aulas de formação técnica em crochê para sentenciados no presídio masculino Adriano Marrey, em Guarulhos. Em 2021, a vontade de expandir a ação deu vida à Escola Ponto Firme, com cursos de crochê para quaisquer pessoas em situação vulnerável – incluindo egressos do sistema prisional –, que hoje colaboram com a apresentação e demais projetos, tudo devidamente remunerado.

Desde a estreia na SPFW, em 2018, os desfiles do Ponto Firme inovam em formato, casting, conteúdo, mensagem, significado, profissionais, criatividade e roupa. Para a 55ª edição do evento, o coletivo ocupou a passagem de pedestre embaixo do Edifício Copan, no centro de São Paulo, numa parceria com a marca de calçados Rider. E o crochê, a origem de tudo, serviu de base para outras experimentações têxteis.

Ao investigar a dualidade entre a mão e a máquina, o estilista e seus alunos se concentraram no paetê, muitos deles cortados à laser e costurados em tramas de crochê de ponto aberto. O resultado são listras, padronagens e efeitos ópticos que, de longe, chegam a confundir os olhos. “Existe um preconceito em torno dos trabalhos manuais, então nosso ponto de partida é sempre a inovação”, disse Gustavo, em conversa com a Moda Brasil.

Com uma cartela de cores vibrantes sobre bases pretas, algumas peças são confeccionadas a partir de resíduos que iriam para o lixo: garrafas de água se transformam em bolsas esculturais e fios plásticos encontram vida nova em faixas decorativas. 

Há ainda uma minuciosidade de detalhes e acabamentos que Gustavo sabe bem de onde vem: “Dá para perceber que nessa coleção tivemos a força feminina na criação”. O designer explica que, graças ao crescimento do projeto, a escola passou a receber um número expressivo de mulheres refugiadas.

 

Meninos Rei

Em entrevista antes do desfile, os irmãos Céu e Júnior Rocha afirmam que a nova coleção da Meninos Rei tem como objetivo “massificar os produtos da marca, torná-los pop e acessíveis para todo mundo”. Os castings das quatro apresentações na SPFW dão conta do recado – são provavelmente as seleções de modelos mais diversas que o evento já viu numa só passarela.

Sobre a acessibilidade dos produtos, já é outra história. Na estação passada, a dupla baixou o tom dos volumes e extravagâncias para apresentar propostas mais próximas do dia a dia de muita gente. Agora, a alfaiataria elaborada, com balonês e assimetrias, retomam o protagonismo. É parte da identidade da Meninos Rei – e grife veste um tanto de celebridades, artistas e performers –, mas ofusca as novidades e complica a assimilação para o cotidiano.

Era preciso uma boa dose de atenção para notar as novas estampas do ilustrador baiano Leonardo Barbosa. O mesmo para a mistura de estampas e para as novas proporções dos blazers, camisas e vestidos derivados da alfaiataria. As jaquetas puffers eram difíceis de perder, ainda que sem tanto destaque.

É louvável e emocionante assistir a passarela cheia e vibrante. Para quem acha repetitivo, fica aí o questionamento se não é sintoma da realidade brutal que corta e atravessa a sociedade brasileira. Porém, o volume de propostas somado à exuberância do espetáculo desviam demasiadamente o olhar para o que realmente importa: a roupa.

]]>
https://images.elle.com.br/2023/05/IL20230526065747-Ponto-FirmeSPFW-N55Foto_-Marcelo-Soubhia-_-@agfotosite-6-620x840.jpeg Ponto Firme. Foto: Agência Fotosite
SPFW N57: Igor Dadona https://modabrasil.webbfinanceiro.com/desfiles/spfw-n57-igor-dadona Sat, 13 Apr 2024 18:08:52 +0000 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/?p=83569 Quando Igor Dadona começou a pensar em lançar uma marca, imaginou-a focada no público feminino. No meio do caminho, ele foi trabalhar com Lula Rodrigues, jornalista e grande entusiasta da moda masculina nacional, e mudou de ideia. Em 2012, ano em que inaugurou sua etiqueta homônima, a oferta de produtos era 100% para eles. Não que elas não usassem, só não eram o público alvo.

Corta para manhã de sábado (13.04). A coleção apresentada pelo estilista na SPFW N57 é a primeira em que looks femininos cruzam a passarela e ganham mais espaço no portfólio da grife. “Ainda são poucas peças”, fala Igor. “Quis ir com calma, porque minha base de formação é a alfaiataria masculina. Então, precisei estudar bastante, experimentar e acertar a modelagem”.

Look do desfile de Igor Dadona na SPFW N57.

Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi

Look do desfile de Igor Dadona na SPFW N57.

Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi

Leia mais: SPFW N57: Gefferson Vila Nova

Com a lição de casa feita – e mais algumas de modelagem e costura pela frente –, a nota é quase 10. O caminho fácil seria adaptar os blazers, jaquetas e calças à silhueta da mulher, mas não o estilista não vai por aí. Esse cruzamento entre os gêneros fica por conta das calças de alfaiataria e de alguns detalhes. A prega traseira da camisaria, por exemplo, vira ombreira discreta em vestidos e blusas. 

Look do desfile de Igor Dadona na SPFW N57.

Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi

Look do desfile de Igor Dadona na SPFW N57.

Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi

A fim de demarcar e dar cara própria à sua nova linha, ele trabalha com tecidos mais leves, como a seda, em peças enroladas ao corpo, cheia de drapeados. Efeitos similares aparecem no masculino, com as palas das camisas enroladas no abdômen, paletós presos para dentro das bermudas e calças de cintura alta e outras delicadezas românticas já bem conhecidas da moda de Igor Dadona. Agora, porém, um tanto mais sexy.

Look do desfile de Igor Dadona na SPFW N57.

Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi

Numa SPFW N57 marcada mais por evoluções discretas do que por imagens fortes, Igor Dadona entrega ambos.

Leia mais: SPFW N57: Martins
]]>
https://images.elle.com.br/2024/04/Igor-Dadona-SPFW-N57-620x840.jpeg Igor Dadona, SPFW N57. Foto: Agência Fotosite/Ze Takahashi
Quem Igor Dadona convidaria para jantar? https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/quem-igor-dadona-convidaria-para-jantar Wed, 24 May 2023 22:36:06 +0000 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/?p=46179 Em seu desfile de julho de 2022, Igor Dadona falou sobre mergulhadores. Eles enfrentavam, com coragem, as profundezas do oceano sob tempestades para, enfim, emergirem rumo à segurança da terra firme. Era o capítulo final de uma trilogia, iniciada em sua estreia na São Paulo Fashion Week, em 2021, numa analogia entre o período epidêmico e o mar

É que o paulista sempre foi sensível. Sua roupa não é feita só de desejos e paixões, mas também de reflexões sobre angústias e dores. Focado em moda masculina, Igor foi um dos primeiros, em solo nacional, a jogar luz e dar corpo a emoções antes banidas dos holofotes, como se o homem não sentisse nada.

Aos 34 anos, enquanto eleva o mercado masculino com maturidade e consistência, entende, como poucos, que produzir menos é produzir melhor. A seguir, confira um trecho da entrevista com o estilista publicado no volume 02 da Moda Brasil Men.

A sua infância foi… “Bem mágica. Eu era o menino do videogame. Passei por todos os jogos e amava desenhar os personagens com as suas roupas. Tenho vários cadernos daquela época que parecem catálogos. Dava até preço para as peças.”

Antes da marca… “Estava fazendo produção de moda. Na verdade, comecei no jornalismo, no site da Julia Petit. Depois, fiz styling com o Rapha Mendonça, até começar a elaborar minha própria grife, em 2012, e estrear nas passarelas no ano seguinte.”

A sua identidade é… “A desconstrução da alfaiataria, mas não só no sentido técnico. É também sobre a imagem, sobre manipular a sua herança para encontrar novas maneiras de apresentá-la.”

A sua marca é para… “Quem quiser usar. Eu faço roupa. Sob encomenda, aliás, em qualquer numeração, sem grade de tamanhos pronta. Durante a pandemia, decidi adotar de vez um esquema de ateliê e desfilar apenas uma vez por ano. Não adianta criar algo diferente e se esquecer das etapas básicas. A parte de dentro das roupas é a que dá mais trabalho.”

No seu TikTok… “Aparecem vários vídeos de um perfil chamado The Local Project, que, além de mostrar a construção de casas, detalha a decoração. Sou apaixonado por arquitetura, inclusive quase cursei antes de me decidir pela moda. Desisti quando percebi que envolvia muitos cálculos.”

Na sua playlist… “Tem de tudo. Ultimamente, o que mais ouvi foi o novo disco da Björk (Fossora, 2022). Ela é a minha artista favorita. Tenho até tatuagem. Quando estou criando, fico um pouquinho mais melancólico, mas tem uns momentos agitados de techno no meio.”

Nas sessões de terapia... “Não sou muito de sair, mas isso é algo que desejo mudar. Quero frequentar lugares novos, viajar mais. Esse seria um assunto para a terapia.”

Algo que atualmente ama... “Minhas panelas novas. Amo cozinhar. É o próprio bem-estar para mim.”

Algo que atualmente odeia… “Pessoas que só falam sobre si mesmas. Egocêntricas. Aquelas que veem alguém brilhar por um minuto e já tomam a situação para si. É chato. Uma das coisas mais bonitas que há na vida é a capacidade de estar feliz pelo outro.”

Uma pessoa que convidaria para jantar… “Björk. De novo.”

Esta entrevista foi publicada originalmente em maio de 2023, na Moda Brasil Men Volume 02. Compre sua edição e confira a entrevista completa com Igor Dadona.

 

]]>
https://images.elle.com.br/2023/05/2023_03_31_ELLE_0906-620x840.jpg Tricô, camisa e calça, tudo Igor Dadona. Tênis, Prada. Foto: Hudson Rennan | Edição de moda: Lucas Boccalão
Igor Dadona estreia na SPFW https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/igor-dadona-spfw-n51 Fri, 25 Jun 2021 01:58:38 +0000 https://local.elle.com.br/sem-categoria/igor-dadona-spfw-n51/ Igor Dadona já estava introspectivo antes da pandemia. “Estava mais recluso, isolado, precisava um pouco disso. Aí, veio a Covid-19 e fui realmente forçado a ficar quieto. Tanto que comecei a desejar o completo oposto”, diz ele em uma conversa dias antes de sua estreia na SPFW, nesta quinta-feira (24.06). Para quem não conhece o estilista, ele era um dos destaques da Casa de Criadores e expoente da nova geração de designers de moda masculina.

A mudança de eventos aconteceu quase que por acaso. “Vontade eu sempre tive”, confessa sobre o desejo de desfilar na maior semana de moda da América Latina. “Porém, desde o começo do ano passado, estava um pouco perdido, sem saber para onde ir, o que fazer. Fiquei pensando se continuaria numa fashion week ou se faria apresentações por conta própria.” Na dúvida, decidiu ficar o ano passado em off, longe das passarelas – o que acabou acontecendo por forças maiores.

E aí, vieram as inquietações do isolamento pandêmico. Para além do nível pessoal, Igor sentiu falta de se expressar profissionalmente por meio de um desfile. Ele já havia conversado com Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW, há algum tempo e retomou o assunto no fim de 2020. “Foi tudo muito rápido e até um pouco inesperado”, fala.

A coleção, contudo, já estava na sua cabeça faz tempo. Ainda em 2019, fez uma compra de tecidos mais sofisticados já pensando em um novo momento para sua marca homônima. “Seria a primeira vez que trabalharia com esse tipo de material.” São lãs inglesas com aspecto acetinado, rendas e bordados de pedraria, ambos manuais, e muita zibeline – que já havia aparecido em sua última apresentação e, agora, volta estampada.

Essa materialidade é seu grande destaque desta temporada. O lado lúdico e delicado do estilo de Igor segue presente, porém de uma maneira muito mais elaborada, madura até, mas sem perder a jovialidade. A coleção é rica em detalhes, e num nível nunca visto antes em seus trabalhos prévios. Mostra evolução não só pessoal e profissional, como também em termos mais amplos de moda masculina. Ainda mais depois de tanto tempo trancados em casa, de camiseta velha e calça de moletom – e já um tanto cansados daquela obsessão com o streetwear.

Só é uma pena que o vídeo tenha ficado um tanto escuro. O filme mostra a coleção por meio de alusões à saúde mental, solidão, sonhos delirantes e autoconhecimento. E, de fato, essas trajetórias nem sempre são das mais claras. Geralmente, é bastante nebulosa, tipo navegar em águas turbulentas sem conseguir avistar terra firme. Em termos de narrativa e construção de imagem faz sentido. Os efeitos em stop motion, o cenário todo de papelão, assinado por Edgard de Camargo, são bons exemplos de como tirar um filme de moda do lugar comum ou da monotonia. Numa coleção tão rica em texturas, detalhes e tecidos primorosos, fez falta um pouco de cor e mais nitidez nas imagens. Ainda bem que temos imagens. Recomendamos muito sua contemplação.

]]>
https://images.elle.com.br/2022/08/F2W2EU0Y-origin-306.jpg
Zerando A Internet https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/entrevista-igor-dadona-zera-internet Fri, 03 Jul 2020 15:00:19 +0000 https://local.elle.com.br/sem-categoria/entrevista-igor-dadona-zera-internet/ Marcas pequenas e independentes sempre encontraram na internet sua principal ferramenta de venda e expansão. É a plataforma ideal para estreitar laços, conversar com clientes, entender suas vontades e necessidades. A pandemia do novo coronavírus, contudo, fez com que as redes sociais tivessem papel fundamental – e, muitas vezes, exclusivo – no aquecimento do mercado durante a crise que se estende desde março. Há quem esteja aproveitando essa oportunidade de forma óbvia (mas não menos relevante), com promoções e preços baixos para manter o fluxo de caixa, e há quem está indo além.

Igor Dadona é um deles. Trancafiado em casa desde meados de março, sem sair nem para ir ao mercado ou aos correios, o estilista paulistano se destacou por ideias inovadoras. Desde antes da quarentena, Dadona já estava repensando a agenda de lançamentos de sua marca masculina para adequá-la aos desejos de sua clientela fiel. Juntando essa ideia com o tempo disponível por causa da pandemia e pelo medo de se contaminar, decidiu lançar coleções cápsulas de peças feitas sob demanda, produzidas e enviadas direto dos ateliês de seus fornecedores.


Sintonizado com o zeitgeist de um momento delicado e desesperador como o atual, seu primeiro lançamento foi um suéter em que lia-se “I Really Need to Fuck” (“Eu Preciso Muito Transar”, em tradução livre), que pode ser encomendado em combinações diferentes de cores e é confeccionado e enviado diretamente do Estúdio Artii. O segundo será uma coleção de camisas amplas, feitas com sobras de tecidos, a ser lançado em breve nas redes sociais do etilista. “Já estava estudando a ideia de desfilar apenas uma vez por ano e lançar coleções menores. Para minha marca e meus clientes, é complicado lançar uma coleção a cada seis meses. É mais interessante, tanto financeiramente quanto para a imagem, focar em drops menores”, explica.

Para a próxima edição da Casa de Criadores, que será inteiramente virtual, Dadona realizou um sonho antigo – e que sempre considerou impossível: convidou um de seus modelos favoritos, atualmente radicado na França, para criar um curta-metragem à distância. “Com tudo que está acontecendo, a internet acabou aproximando muita gente. Vou conseguir trabalhar com o modelo que sempre quis”, conta, sem revelar muitos detalhes para não estragar a surpresa. Na semana de moda independente, os estilistas e as marcas foram convidados a criar desfiles virtuais, filmes de moda, entrevistas ou editoriais para mostrar suas coleções em tempos de distanciamento social.

KIDS OF THE INTERNET

Para além dos lançamentos de peças e drops de coleções-cápsula, Dadona também é um exemplo de como usar a internet e as redes sociais a seu favor. No último mês, ele propôs um casting online, em que os seguidores se inscreveram para serem modelos – para participar, era só comentar um coração em um de seus posts do Instagram. Após analisar cada perfil, escolheu 30 pessoas de gêneros, raças e corpos diferentes para enviarem uma foto de corpo inteiro para o estilista que, então, irá desenhar um look em cima da imagem. A coleção, cujo tema foi escolhido com a ajuda de seus seguidores, será toda virtual. Apenas duas peças serão produzidas de fato – mas toda a movimentação em seu perfil, ao lado do exercício de criatividade e desprendimento do estilista, são um grande exemplo de como engajar seus público.

image 1268
Imagem de cliente de Igor Dadona enviada ao estilista para criação de uma coleção colaborativa e virtual.Foto Cortesia/Igor Dadona

“Converso muito com meus clientes, como se fôssemos todos amigos mesmo. A resposta de tudo é muito rápida e direta. Eles adoraram participar das decisões dessa coleção”, conta. Essa proximidade com quem compra e usa suas roupas é uma das grandes diferenças das marcas que nasceram e se mantém na internet. No caso de Dadona, apesar da vontade de criar um site próprio com e-commerce, o Instagram continua seu grande aliado. “Como muitas das peças são sob demanda, para mim esse contato direto funciona muito bem”, comenta.

ALÉM-ROUPA

Além de vendas e números, Igor Dadona acredita na criação de uma comunidade forte e unida. “A pandemia só fez com que a gente percebesse que não dá pra fazer nada sozinho mais”, explica. Pensando nisso, decidiu criar uma série chamada MEET em seu Instagram. Lá, apresenta amigos e profissionais que admira para sua rede. De donos de marcas a drag queens, passando por influenciadores, artistas, maquiadores e diretores criativos, as apresentações seguem a nova identidade visual da label e são acompanhadas por um texto escrito pelos próprios convidados. “Às vezes, essas pessoas, mesmo que famosas, só acessam públicos específicos. Quis abrir meu espaço para meus amigos, talentos da nova geração e também pessoas queridas que estão em busca de novas oportunidades.”

image 1269
Frase criada por Igor Dadona e comparilhada em sua rede social.Foto Cortesia/Igor Dadona

Outro artifício importante, tanto para seu público quanto para seu pensamento criativo, é a criação digital de frases, colagens e pinturas que se conectam ao lado emocional do estilista. “A gente que sofre muito acaba sempre tendo repertório e as pessoas se identificam”, brinca Dadona. As frases, criadas por ele mesmo, vêm junto de um design interessante e são altamente compartilháveis, principalmente em momentos de agonia coletiva. Não muito adepto às tecnologias na hora de criar, Igor conta que começou a explorar uma ferramenta parecida com o Photoshop para conceber essas imagens. “Sempre dependia de terceiros para fazer minhas estampas e colagens. Agora sinto que, sozinho, criei a identidade visual que eu sempre quis”, finaliza.

]]>
https://images.elle.com.br/2022/08/tqArZvdR-origin-977.jpg
SPFW N55: 8 tendências para ficar de olho https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/spfw-n55-tendencias Wed, 31 May 2023 16:34:58 +0000 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/?p=46658 A SPFW N55 acabou no último domingo, 28 de maio, e já começamos a fazer um balanço da temporada. Dessa vez foram 30 desfiles, mais de mil looks na passarela e muitas propostas interessantes, algumas resultando em tendências tanto de verão quanto inverno, já que cada marca define o que será apresentado.

A alfaiataria estava por todos os lados, assim como as camisas brancas. Também houve profusão de decotes e texturas, entre elas os plissados metalizados. A seguir, destacamos esses e outros seis caminhos para a moda brasileira nesta temporada. Confira:

PRETENSÃO NO BLAZER

A alfaiataria bombou entre as coleções apresentadas na semana de moda paulistana. Além do terno e calça, há diversas interpretações da camisa branca, especialmente com modelagens oversized, como vimos nos desfiles de Gefferson Vila Nova, Santa Resistência e Silvério.

GEOMETRIAS

As padronagens quadriculadas também estão em alta, principalmente em preto e branco. Igor Dadona, Marina Bitu, Rafael Caetano e Apartamento 03 são algumas das marcas que apostaram nela para estampar vestidos longos e casacos comfy.

A Martins, do estilista Tom Martins também foi de quadriculado P&B, mas adicionou outros tons, como verde e branco, para arrematar um conjunto de calça e casacão, numa vibe loungewear cool.

EFEITOS ESPECIAIS

No quesito textura, destaque para os plissados, franjas e franzidos, vistos nas coleções da Apartamento 03, Renata Buzzo, Mnisis e Marina Bitu. Em saias e vestidos, elas dão um toque mais festivo ao visual, como nas versões metalizadas da Apartamento 03.

PÉ NO CHÃO

Na parte de acessórios, há diversos estilos de papetes, desde modelos bem maximalistas, como os de pedrarias da Martins e maxiplataformas da Ponto Firme; até os mais clean, apresentados por Ronaldo Silvestre e Marina Bitu.

COMPLEMENTO FUN

As bolsas de bolinhas e miçangas também deram pinta na temporada. Nos desfiles da Led e Martins, as versões prateadas ficaram entre o fetiche e a diversão, enquanto Ronaldo Silvestre apostou no amarelo para um mood mais vibrante.

ZONA DE CONFORTO

Entre as marcas que apresentaram coleções de inverno, casacos acolchoados e matelassados se destacaram. Sucesso na temporada internacional, as jaquetas puffer também aparecem por aqui, nos desfiles da Dendezeiro e Meninos Rei. Ainda há uma versão em bota over the knee, apresentada por Walério Araújo.

Num caminho mais conceitual, as coleções de Renata Buzzo e Fernanda Yamamoto interpretam os volumes estofados em vestidos e casacos.

DÊ AS COSTAS

Se há diversas opções de casacos nesta temporada, também tem muita pele a mostra, graças aos decotes generosos tanto nas partes de baixo, quanto de cima. Além das aberturas pontuais e fendas, muitas marcas apostaram nas costas em evidência, entre elas Apartamento 03, Led e Rafael Caetano.

ARTS & CRAFTS

As tramas rústicas e artesanais também ganharam os holofotes desta edição. Enquanto Maurício Duarte utiliza as fibras de Urumã e Tucum por toda sua coleção, Isaac Silva e Marina Bitu apostam na palha e no crochê para arrematar detalhes e acessórios das suas coleções. David Lee também explora o crochê em looks coordenados, numa pegada mais urbana.

]]>
https://images.elle.com.br/2023/05/V6A0835-620x840.jpg Apartamento 03 Victor Ribeiro APARTAMENTO 03 nonadult
20 anos depois, a estética emo está de volta https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/a-volta-da-estetica-emo Fri, 02 Jul 2021 15:00:00 +0000 https://local.elle.com.br/sem-categoria/a-volta-da-estetica-emo/ No guarda-roupa de Paloma Camardella tem um tanto de meias-calças com estampa de caveira, blusas arrastão, saias pregueadas, cintos com rebites e alfinetes. Os elementos podem ser fácil e rapidamente associados ao visual dos jovens em meados dos anos 2000 (ainda que não somente), certo? Sim e não. Paloma tem apenas 17 anos. E, de fato, o que ela veste bebe na fonte de movimentos que tiveram seu auge na primeira década do século 21. A moda tem dessas de ciclos. O que hoje é tendência absoluta, amanhã já não é mais e pode voltar a ser dali uns anos (ou meses, vai saber!). Agora, nessa repescagem de estilo, a estética que volta com tudo é a emo.

Se você tem cerca de 30 anos, com certeza foi impactado pelo movimento de alguma forma. Emo é uma abreviação para emotional hardcore, uma vertente melódica do rock, com letras sobre amor e muitas bases pesadas de guitarra, baixo e bateria. Recentemente, uma leva de artistas – novos e nem tanto – voltaram a ser assunto com interpretações de tal sonoridade. Entre eles, destacam-se Machine Gun Kelly, Willow Smith, Jaden Hossler, e Travis Barker, baterista do Blink 182.

Travis, aliás, é o responsável por alguns dos feats e produções com a maioria dos artistas da nova geração. Avril Lavigne, precursora do movimento, também está de volta – tanto com a música Flames, em parceria com seu namorado Mod Sun, quanto no TikTok, mostrando que tem potencial para ser musa de uma nova geração (e que não envelheceu nada).

Além da música, o emo também tinha um estilo específico: looks pretos, camisetas de banda justas, calças skinny, munhequeiras, padronagem quadriculada, colares de bolinha de metal, unhas pintadas (geralmente em tons escuros), maquiagem pesada, cintos com rebites, cabelos coloridos e, claro, as franjas cobrindo os olhos. O movimento ficou conhecido pelo sentimentalismo e estética que não agradava – tanto musicalmente quanto esteticamente – a velha guarda do rock. A tribo foi colocada em um limbo, principalmente no Brasil, e se fechou em si mesma. O que, por outro lado, abriu portas para a liberdade de expressão, de gênero e sexual de toda uma geração que se identificava com aquela subcultura e se sentia segura entre seus semelhantes

Se antes a tribo era mais ensimesmada, hoje, na música e fora dela, o emo se mistura a elementos do rap e do eletrônico. O mesmo acontece no visual. Apesar de vários códigos continuarem importantes, como os xadrezes, a cor no cabelo, há uma boa injeção de frescor e até refinamento. Em entrevista ao site da Rolling Stones estadunidense, Travis fala da dificuldade de ter sido colocado dentro de uma caixa, assim como Machine Gun Kelly, sempre foi visto como um rapper, e como a colaboração entre ambos abriu os horizontes.

A mistura musical e estética emo, contudo, só foi possível com a dissipação do véu de preconceito que sempre rodeou o movimento. E aqui vale um comentário pessoal desta repórter, emo desde os 13 anos de idade. A subcultura foi bastante hostilizada no Brasil. Quem olhava de fora achava aquilo “coisa de viado”.

Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, uma das expoentes do estilo no país, sempre frisa que esse preconceito, na verdade, é homofobia velada. A liberdade, a fluidez de gênero e a autodescoberta que, hoje, são conceitos mais difundidos entre os jovens, sempre foram um dos pilares fundamentais do movimento. Com a Geração Z cada vez mais aberta, é quase natural que o emo volte ao topo das paradas – e ao imaginário fashion.

O retorno da moda Y2K é uma das grandes tendências do momento. Entre a cintura baixa, as coconut girls e os penduricalhos de miçangas e strass, vemos também um aceno ao estilo emo em coleções e passarelas internacionais, como os gorros quadriculados do resort 2022 de Anna Sui ou os cachecóis com mesma padronagem do inverno 2021 de Arthur Arbesser. No entanto, quem explorou mais a fundo esses códigos foi Hedi Slimane. No verão 2021 masculino da Celine, o diretor de criação desfilou sobreposições de camisetas listradas, jaquetas oversized e calças skinny rasgadas.

Em solo nacional, o movimento não é menos representado. Em maio deste ano, Oliver Sykes, vocalista da banda inglesa Bring Me The Horizon, atualmente radicado no Brasil, lançou a marca Lobo Bobo, com camisetas 100% focadas no estilo. Na última SPFW, Igor Dadona também misturou a melancolia e a estampa preferida dos emos, o quadriculado, em sua apresentação Maritime. “Esses elementos sempre estarão presentes na minha vida, porque eu fui emo. É uma coisa que fica dentro da gente. Até hoje escuto Fresno e Simple Plan. Em tudo que faço, ainda tem um fundinho dessa inspiração”, explica o estilista.

 

Modelo com look de Igor Dadona.

Igor Dadona.Foto: Gabriel Moura

TRIBO TIKTOKER

Se no começo dos anos 2000, os emos andavam em grupos e frequentavam apenas shows, lojas e espaços em que a música era o foco, hoje, no TikTok e na internet em geral, os grupos se misturam muito mais. Também conhecida como Geração Zapping, os Gen Zs têm facilidade em transitar por espaços e entre turmas diferentes.

Apesar da pouca idade, Paloma Camardella se inspira muito na sua irmã de 32 anos, que foi emo a vida inteira. Nas playlists, muito The Pretty Reckless, My Chemical Romance, e Paramore, além da nova fase de Willow Smith (mais dark e com feats com Travis Barker). “Me interesso muito por moda e sempre pesquisei sobre estilo alternativo”, explica. “E ando com qualquer tipo de pessoa, de mandrake à patricinha. Tenho amigos de todos os grupos”, completa, reforçando que essa história de tribos fechadas, realmente, ficou no passado.

 

 

Laura Rauseo atendeu à nossa chamada de vídeo com lápis nos olhos, meia arrastão e mechas descoloridas no cabelo preto. A atriz de 13 anos conta que começou a ouvir rock por influência da família, mas que prefere uma vertente mais clássica. Visualmente, porém, ela bebe da fonte do emo dos anos 2000. “O TikTok é uma influência bem grande também, conheci muita música por causa do aplicativo. Conheço pessoas mais dark que escutam indie ou coisas mais soft. Não tem mais essa. Na internet, o hate é menor”, conclui.

Emo-raiz

Caco Bapt, publicitário e criador de conteúdo de 30 anos, viu no emo uma forma de se expressar desde bem novo. “Sou uma pessoa não-binária. O estilo musical veio justamente durante um processo de entendimento de identidade ao lado de um som que gostava muito”, explica. Nascido e criado numa família amante de samba e pagode, ele nunca se identificou com tais ritmos. Aos 11, começou a ouvir rock e usar preto. “Gostava de como o rock se apresentava. O emo veio como uma possibilidade, uma visão mais sensível dessa música. Flerto com essa estética até hoje, porque nem sei se estaria aqui se não fosse por esse momento da minha vida. Foi onde me vi, me identifiquei e comecei a entender que poderia ser quem eu sou”, conta.

 

 

Bruna Huli, designer e influenciadora digital de 26 anos, começou a ouvir emo aos dez anos de idade, ainda na primeira onda do movimento. Assim como Caco, ela se veste com códigos daquela época até hoje. “Pedi para o meu pai fazer minha roupa para eu ir ao show da Avril Lavigne, em 2005. Essa estética já estava entrando na minha vida e nunca mais larguei. Agora, acho que tem uma questão nostálgica bem forte. Com esses novos artistas, muita gente está se sentindo encorajado e voltando a usar”, diz.

Atualmente, Huli mistura elementos da sua adolescência emo, como tênis Converse, coturnos Dr. Martens, camisetas de banda, tricôs listrados e saias pregueadas xadrez com uma alfaiataria mais elegante, vestidos justos e looks mais sóbrios. “Sinto que estou em uma fase que quero algo mais refinado, mas sempre com um toque emo, um Vans quadriculado, um colar de alfinete. Isso nunca vou deixar de usar.”

]]>
https://images.elle.com.br/2022/08/1EzDjMno-origin-45.gif Ilustração: Mariana Baptista
Os destaques do quarto dia de SPFW https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/os-destaques-do-quarto-dia-de-spfw Sat, 20 Nov 2021 06:27:42 +0000 https://local.elle.com.br/sem-categoria/os-destaques-do-quarto-dia-de-spfw/ Discurso, inspiração e referências são pontos interessantes quando se fala sobre uma coleção ou um desfile. Mas não dá para esquecer que, no fim, estamos falando principalmente de roupas. São elas a base de tudo, princípio e fim, meio e mensagem. Se isso ficou um pouco confuso durante os meses de apresentação digital, com a retomada do presencial, a percepção muda bastante. Para quem olha e para quem faz.

No quarto dia de SPFW, uma nova geração de estilistas colocou a roupa no centro das atenções. Apesar de algumas cenografias, performances e castings estrelados, foram elas as grandes protagonistas de algumas das melhores coleções desta sexta-feira, 19.11.

Há pouco menos de um mês, Rafaella Caniello abriu uma nova loja de sua Neriage. E é importante lembrar que a inauguração aconteceu quase um ano e meio depois de um período de enormes incertezas, incontáveis angústias e pressões imensuráveis.

Hoje, a coleção apresentada pela marca foi a melhor já feita pela estilista. Foi a primeira vez que a Rafaella conseguiu equilibrar com maestria suas vontades e paixões criativas com as demandas comerciais. Para explicar esse processo, ela recorre à literatura, cita o poeta Manoel de Barros e fala sobre os significados e não significados das palavras.

Ela também fala de repetição: “Repetir até se tornar outra coisa. Reaprender o que já sabemos. Reconstruir-se, remendar-se”. Não são só elucubrações conceituais, é o próprio funcionamento do sistema da moda. Rafaella passou anos experimentando com camadas e mais camadas de tecidos, plissados e detalhes manuais esmiuçados à exaustão. O processo era quase obsessivo e o resultado, algumas vezes, literalmente pesado.

Agora, sua abordagem chega comedida, as formas e texturas, lapidadas, e a construção, elevada a um outro patamar de excelência e sofisticação. O melhor exemplo fica por conta da alfaiataria, fluida, desconstruída e sensual. Expressa um lado pouco visto e explorado da Neriage. Outra novidade são os tricôs, que prometem fazer sucesso nas araras da nova loja – e já dão um gostinho da linha de básicos que a marca pretende lançar logo mais.

Quando a Misci estreou na SPFW no ano passado, a marca chegou cheia de vontades – e o formato digital permitia dar voz e corpo para muitas delas. Na passarela, as possibilidades são reduzidas. O que não significa que a coleção perdeu o brilho, pelo contrário. Se dependesse só do vídeo que precedeu o desfile, não daria para ver o quanto a alfaiataria do diretor criativo Airon Martin evoluiu – em execução, ideias e assinatura.

A nova possibilidade de cintura proposta pela Misci é prova disso. Nem baixa, nem alta e nem regular, o formato orgânico constrói uma onda na silhueta. A ideia vem de seu apurado estudo de design, mas não é difícil imaginar que se tornará mais um hit da marca.

Alfaiataria e sua formalidade são pontos importantes na moda de agora. Falam de uma vontade de arrumação mais sintonizada com a realidade do que aquela explosão hedonista desmedida. E Airon fala disso de uma maneira bem interessante, com boas tentativas de adaptação a um contexto mais nacional – a coleção propõe um olhar romântico e sensual para os bares e lanchonetes do Brasil.

Mas não é todo mundo que está pronto para a vida de botequim. Dias antes de sua apresentação, Igor Dadona relatou que está com algumas dificuldades em retomar a vida fora de casa. Também contou que passou boa parte do seu tempo de reclusão assistindo vídeos sobre os ateliês de alta-costura. Vem daí o nome e inspiração da coleção: Loveur – House Couture.

Apresentada em vídeo, as roupas são uma continuação aprimorada de tudo que o estilista vinha trabalhando nos últimos anos, com destaque para a alfaiataria e peças feitas em tecidos de festa. E desta vez, dado a referência da alta-costura, com um toque extra de glamour. “Por mais que tenha essa atmosfera sombria, é uma coleção feliz. É algo que sei que está passando. É uma travessia. E o único momento que me sinto mais livre, e as coisas ficam mais leves, é quando estou fazendo meu trabalho”, diz Igor.

É que a moda envolve um tanto de trabalho manual, o que pode ser algo terapêutico. Não à toa, o trabalho artesanal é uma ferramenta comum a toda uma sorte de projetos sociais. Desde 2015, o Ponto Firme oferece formação técnica em crochê para sentenciados da Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, São Paulo.

Hoje, o projeto, que virou marca e é encabeçado por Gustavo Silvestre, aproveitou a apresentação da nova coleção para inaugurar a Escola Ponto Firme, no bairro da República, em São Paulo. Aberta ao público, ela é focada em egressos do sistema penitenciário e a ideia é passar a atender também mulheres, uma vez que os artesãos até agora são homens.

Se a pandemia foi difícil para todos nós, ela se revelou ainda mais severa para os sentenciados. As aulas presenciais desse e outros projetos foram suspensas, bem como as visitas de familiares.

O reencontro de Gustavo Silvestre com seus alunos detentos aconteceu muito recentemente, e esse foi o mote da nova coleção. “Toda essa história nos remeteu a ideia de bando. Somos um bando das artes manuais, de pessoas que ganharam autonomia por meio do crochê”, fala Gustavo. Nesta coleção, o boné de crochê é quase um símbolo desse bando, mas para além de tendências o dia de hoje é uma grande celebração.

André Namitala, diretor criativo e fundador da Handred, sempre foi mais chegado ao produto do que à moda de passarela. Tanto que quando a marca carioca estreou na SPFW, muita gente torceu o nariz e não viu sentido naquilo. Hoje, a história é um pouco diferente – e para a marca também.

O ponto de partida da nova coleção é Francisco Brennand. Quem conhece a obra do artista recifense deve ter estranhado a coleção toda branca, já que seu trabalho é sempre lembrado pela profusão de cores. André, no entanto, preferiu se focar na cor da cerâmica antes de sua queima.

Essa é a primeira vez que a Handred se aprofunda tanto no trabalho de um artista – e o minidocumentário exibido antes do desfile dá conta de mostrar essa imersão no universo e no espaço em que Brennand morava, criava e produzia. “Fiz esse paralelo entre o artista e a marca, já que nós também criamos tudo em nosso ateliê”, explica o estilista.

Nas roupas, vemos a influência do recifense nos desenhos de caju em rendas richelieu, nos labirintos tramados em linho e nos traços de nanquim em organza de seda pelos quais o artista era conhecido. A cerâmica feita pelos próprios artesãos do Instituto Brennand, que trabalharam com o próprio, aparece em escala micro, aplicadas nas laterais das calças de alfaiataria e em regatas fresquinhas.

O show ficou completo com a apresentação de Lia de Itamaracá, cantora pernambucana que embalou os passos ritmados das modelos. Da imersão do estilista neste universo, saiu uma coleção de alfaiataria fluida e descomplicada que é a mistura perfeita entre Recife e Rio de Janeiro, onde a marca e o estilista nasceram.

]]>
https://images.elle.com.br/2022/08/6dgeiR8k-origin-575-scaled.jpg
A evolução do estilo preppy nesta temporada https://modabrasil.webbfinanceiro.com/moda/a-evolucao-do-estilo-preppy-nesta-temporada Mon, 05 Aug 2024 23:58:02 +0000 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/?p=98663 Saias de pregas, camisas pólo, meias à mostra: estas são apenas algumas provas de que o estilo preppy estabelece (mais uma vez!) um reinado entre as tendências de moda. 

Estilo preppy: Mulher com suéter de sua faculdade em 1918.

Mulher com suéter de sua faculdade em 1918. Foto: Getty Images

Nascido na virada do século 20, o termo descrevia esse vestuário típico, com loafers e calças cáqui, usado sobretudo pelos alunos de escolas preparatórias (prep school, em inglês, daí o nome) ou das universidades de prestígio nos Estados Unidos, a Ivy League. Sem nunca desaparecer, o estilo preppy era simbólico no país também em 1950 e ganhou um novo impulso de força nas décadas de 1980 e 1990. 

Neste período, os ciclos da moda eram muito mais acelerados comparado aos anos 1910 e a produção indumentária também era mais intensa e massificada. Portanto, nesse retorno, ele ultrapassa as fronteiras da Ivy League e alcança as ruas – e, assim, outros nichos sociais. Ampliado, ganha diferentes interpretações. É o auge de marcas como J.Crew, Tommy Hilfiger e Lacoste – esta última, aliás, trouxe uma identidade forte não só a este estilo, mas também ao visual dos artistas de hip hop (contamos mais sobre isso aqui).

O estilo preppy em as patricinhas de beverly hills.

O estilo preppy em As Patricinhas de Beverly Hills. Foto: Divulgação

Um exemplo mais literal, por outro lado, pode ser observado com Cher e Dionne, personagens do filme As Patricinhas de Beverly Hills. Elas ainda eram adolescentes do ensino médio, mas se vestiam em conjuntos quadriculados e meias brancas ¾ quartos para criar impacto nos corredores da sua escola. Um reflexo do desejo que cercava o estilo no momento.

E, talvez, um frisson semelhante esteja acontecendo em 2024. Musas fashion, pelo menos, têm apostado no preppy. É o caso de Zendaya, que combinou uma camisa listrada com um blazer terroso xadrez e um cachecol feito de gravata, de Rihanna com sua saia bege plissada e camisa azul com botões abertos, de Emma Chamberlain que usou um conjuntinho de alfaiataria colorido, também xadrez, da Thom Browne, etiqueta estadunidense que recorrentemente faz uso de códigos desse universo. 

Zendaya em look Ralph Lauren no estilo preppy

Zendaya em look Ralph Lauren. Foto: Getty Images

emma chamberlain usa look no estilo preppy

Influencer Emma Chamberlain em look trompe l'oeil de Thom Browne. Foto: Getty Images

Todas elas, se você notar bem, oferecem uma imagem menos polida à imagem, sem grandes preocupações de deixar tudo no lugar. E mesmo quando o fazem, trazem acessórios ou detalhes que fogem do esperado – como o make dark de Emma.

Em temporadas de moda recentes, Prada trouxe suéteres trompe l’oeil com golas, que atuam como se camisas estivessem ali por baixo, e a Fendi apresentou bermudas azul navy combinadas com paletós decorados com um brasão – ambas propostas para a coleção masculina de verão 2025. 

estilo preppy no verão 2025 masculino da fendi

Verão 2025 masculino da Fendi. Foto: Getty Images

Para as mulheres o cenário não é diferente: para o seu cruise 2025, a Chanel introduziu leituras esportivas-universitárias com vestidos com zíperes frontais ou listrados com elástico de ajuste nos quadris. Acompanhados ora de um casaquetos cropped, ora de mochilas, ora tênis brancos ou sapatilhas, as peças inovaram pelo material em que eram apresentadas: os vestidos tinham suas versões atoalhadas, por exemplo, e as jaquetas, opções de crochê. 

estilo preppy no cruise 2025 da chanel

Cruise 2025 da Chanel. Foto: Getty Images

estilo preppy no verão 2022 da miu miu.

Verão 2022 da Miu Miu. Foto: Getty Images

A Miu Miu é outro nome com uma parcela de responsabilidade por colocar de novo na pauta elementos preppy – que são parte do DNA da marca. A marca acendeu desejos e fez barulho na internet com os suéteres e saias ultracurtas do verão 2022, as saias com bolsos volumosos do inverno 2022, a vibe bibliotecária bagunçada da temporada seguinte, de verão 2023, e por aí vai.

No Brasil, Igor Dadona, Gefferson Vila Nova e Cavalera são algumas marcas que implementaram os elementos nas suas coleções para o inverno deste ano: a Dadona colocou o xadrez verde e branco como um ponto de cor em sua alfaiataria, e a Cavalera fez um mix com o ultraesportivo. Um conjunto de tracksuit, por exemplo, vinha sobreposto com uma minissaia de pregas, e o vestido polo era confeccionado em tricô, com alguns fios propositalmente desfiados.

A referência também não é alheia das redes sociais, onde microtendências virais, como a old money, bebem diretamente dessa fonte e onde personalidades, como princesa Diana, são celebradas com frequência. E você? Vai entrar na onda do estilo preppy?

estilo preppy na igor dadona

Inverno 2024 da Igor Dadona. Foto: Zé Takahashi/@agfotosite.

estilo preppy na campanha da fenty x puma da rihanna

Rihanna em campanha de seu novo tênis da Fenty para Puma. Foto: Instagram/@pumasportstyle

estilo preppy jennie black pink

Jennie Kim. Foto: Instagram/@jennierubyjane

LEIA TAMBÉM: MARINHEIRA, SURFISTA OU PIRATA, TANTO FAZ: A NOVA TENDÊNCIA DE MODA É MARÍTIMA!
]]>
https://images.elle.com.br/2024/08/estilo-preppy-zendaya-620x840.jpg Zendaya. Foto: Getty Images
SPFW N53 – PARTE 2 https://modabrasil.webbfinanceiro.com/podcast/spfw-n53-parte-2 Tue, 05 Jul 2022 23:09:00 +0000 https://local.elle.com.br/sem-categoria/spfw-n53-parte-2/


Ouça o Moda Brasil News em: Amazon Music | Spotify | Apple Podcasts | Google | Podcasts | Overcast | Deezer | Youtube

Se preferir, você também pode ler este podcast:

Começou no dia 31 de maio e foi até o último sábado, dia 4 de junho, a São Paulo Fashion Week N53, naquele formato híbrido que vocês já conhecem, com 22 apresentações presenciais e 19 digitais. E agora a gente te fala dos destaques.

Sem dúvida um dos desfiles mais emocionantes e conectados com o mundo que nós estamos vivendo hoje foi o do João Pimenta. Para o seu inverno 2022, o estilista preparou o que ele mesmo chamou de um cortejo fúnebre para a atual situação do país.

E eu vou te falar, viu! Quem estava na sala de desfiles sentiu quase que um soco no estômago, uma performance bastante forte de quem não esqueceu assim tão fácil as mazelas deixadas pela pandemia, entre outros horrores que a gente viu crescer no Brasil nos últimos anos, como desemprego e a fome.

A coleção, inteira preta, revelou principalmente um trabalho maior de superfície, ou seja, uma mistura de tecidos e texturas diferentes. Isso foi empregado naquela alfaiataria precisa pela qual João Pimenta já é conhecido, mas, dessa vez, também com um pouco de exageros. Pense em saias balão, ancas bem marcadas nas laterais do corpo, volumes na parte da frente, na parte de trás. Existe muita referência do vestuário de época, que vai da roupa de mosteiro, passa por capuzes medievais e chega a momentinhos renascentistas.

E ah! Vale lembrar que o casting é todo masculino, apesar de ter esses elementos característicos da roupa feminina do passado. Isso, claro, trouxe toda uma pegada queer para a imagem final. Outro destaque é que esse casting foi todo negro. Aliás, apenas 30% dos meninos que desfilaram eram modelos agenciados, os outros homens foram escolhidos pelo próprio estilista ao longo dos últimos meses. Enfim! Vale muito a pena conferir para checar a profusão de técnicas usadas por João Pimenta para contar a sua história.

Ainda falando de alfaiataria, outras três marcas que têm no DNA o trabalho com costumes, camisarias e tecidos planos chamaram a atenção. Claro, cada uma por uma razão.

A Anacê, por exemplo, neogrife de Ana Clara Watanabe e Cecília Gromann, desfilou na FAAP, em sua primeira apresentação física. Não faz tanto tempo assim que as duas saíram da faculdade, elas decidiram voltar ao local onde se formaram e iniciaram a marca para registrar mais uma vez sobre o que o trabalho da dupla se trata: uma alfaiataria sem gênero. Atenção nessa coleção para o styling, assinado por Maika Mano, e que colocou gravatas para fazer as vezes de chokers, pulseiras, cintos e tornozeleiras. Fora isso, os acessórios mostrados pela Anacê prometem fazer sucesso entre a sua clientela.

Já no desfile de Igor Dadona, o estilista apresentou a terceira e última parte de uma trilogia que ele iniciou na pandemia. Segundo o Dadona, o período foi muito difícil para ele e só agora ele está conseguindo emergir das profundezas. Por isso, a imagem escolhida foi mesmo a de um mergulho profundo. Daí vem os chapeuzinhos de marinheiro, os bordados que imitam corais em coletes de argyle e as blusas que imitam long johns, aquelas roupas de surfe, de neoprene. Nesse clima ainda levemente melancólico, o designer aproveitou para convidar o seu ídolo de adolescência, o Lucas Silveira, da banda Fresno, para desfilar. Quem conhece o trabalho do Igor Dadona bem sabe que ele adora uma pitada emocore no look.

Por último, ainda no quesito alfaiataria, Rafaella Caniello apresentou uma de suas coleções mais leves e maduras pela sua Neriage. Foi bonito de ver. E teve a sorte de acompanhar de perto, quem foi convidado para a apresentação que aconteceu no recém inaugurado hotel de luxo de São Paulo, o Rosewood. Na área externa, a estilista mostrou os seus típicos conjuntos de plissados, agora menores e mais delicados, além de vestidos amplos e casacos clássicos e confortáveis. Ao final da apresentação, a atriz e musa da coleção, Alice Braga, entrou de mãos dadas com a designer para celebrar a parceria.

É claro que a política não ficaria de fora da passarela, ainda mais neste ano de eleição. A Meninos Rei, por exemplo, marca dos irmãos Céu e Júnior Rocha, não decepcionou nesse sentido. Em um dos desfiles mais aclamados pelo público que acompanhou a apresentação no Senac Lapa Faustolo, os dois celebraram a diversidade, a liberdade e o respeito com um dos castings mais diversos e politizados dessa temporada. Todos eles exibiam as estampas e volumes acentuados pela qual a marca já é conhecida. No final do desfile, um modelo usando uma mochila como a daquela de entrega, carregada por motoboys, levantou um cartaz com os dizeres “Chega! Fora Bolsonaro”. A plateia foi à loucura.

Outro nome que usou a passarela para se fazer ouvir foi Naya Violeta. A designer convidou a artista e escritora Dona Jacira, que também é mãe de Emicida, além das ativistas Carmen Silva e Sônia Guajajara, para desfilarem as suas produções coloridas e cheias de estampas. Nesta coleção, as peças fluidas ganharam estruturas mais firmes como pepluns e coletes de matelassê, dando um balanço interessante para tudo. No meio da apresentação, Guajajara puxou uma bandeira com a frase São Paulo é terra indígena.

E dizer que houve bastante política não significa que não houve também muito fervo. Aliás, as duas coisas andam juntas, seja na apresentação de Walério Araújo, seja na performance de Isaac Silva. Walério Araújo, por exemplo, vem celebrando os seus 30 anos de carreira desde 2021. E dizer que a sua apresentação virou uma festa é uma baita redundância. Ainda assim, o estilista foi atrás de tudo o que fosse mais extraordinário em sua carreira para levar um show para as passarelas. Ele fuçou, por exemplo, parte de seu acervo e trouxe de volta o vestido amarelo de franjas usado por Rita Cadillac em sua performance no Carandiru. Walério também resgatou o seus tempos de feiras alternativas, lá da década de 1990, para lembrar a época em que conheceu drag queens, se aproximou da cena underground paulistana. Por isso, as suas roupas foram cheias de plumas, vinil, paetê!

Quem também transformou a passarela em festa, ou melhor, ballroom, foi Isaac Silva, que homenageou a lendária drag queen Márcia Pantera. No começo da apresentação, a passarela se transformou num desfile à la Paris is Burning, com várias mulheres trans e drags dançando e reverenciando o ícone LGBTQIA+ que fundou o bate-cabelo no Brasil. Todas em preto e branco, além de, claro, muito brilho, as peças da coleção “Panterona”, como foi chamada, fecharam com chave de ouro o evento. E ah! A própria Márcia Pantera cruzou a passarela em uma moto. Imagem para não se esquecer!

Quem veio de Salvador diretamente pra cobertura da SPFW pra Moda Brasil foi a reporter Lele Santhana, e a gente pediu para ela falar um pouco sobre as suas apresentações preferidas!

“Dois desfiles que eu gostei muito foram Led e Misci. Na Led, o Célio Dias partiu de uma decepção amorosa que ele viveu. E, se nessas situações geralmente nós apenas sofremos, ele transformou a dor na melhor coleção da marca. Existe ali uma ideia muito transparente sobre a permissividade do sentir, sobre a coragem de botar pra fora, então a apresentação foi aberta por uma camisa com um bordado escrito “Querido Ex” e ela vai se desenrolando, com cristais que lembram lágrimas, com crochês bem delicados e muitos corações. Importante destacar que, em nenhum momento, esses corações aparecem quebrados, pra gente lembrar que ninguém nunca morreu de amor.

Já na Misci, o Airon Martin falou sobre famílias matriarcais. Ele é filho e neto de mães solo e quis homenagear essas casas regidas e sustentadas por figuras femininas. E algo que achei muito lúcido é que, conversando com o Airon no backstage, ele disse que em nenhum momento ele estava ali romantizando essa situação. Essas mulheres são batalhadoras, mas por necessidade. Em um mundo ideal e justo, não era pra elas carregarem toda essa sobrecarga sozinhas. Então eu já fui assistir ao desfile muito tocada por essa ideia, e vendo a coleção, que ganha aplicação de chupetas e decotes que expõe só um seio, em referência a amamentação, fiquei encantada pelas roupas e por essa alfaiataria super leve que o Airon faz. A Misci consegue deixar o design e o desejo numa medida muito equilibrada, então também foi um favorito meu nessa temporada”.

Mas como aqui a gente conta tudo, né, até mesmo os perrengues, vale falar um pouco de como foi puxado lá nos bastidores dessa edição do evento. Na semana passada, por exemplo, a gente já havia informado que a pulseirinha de credencial para os jornalistas era de papel e foi sugerido que a gente usasse elas pelos cinco dias seguidos.

Além disso, vale dizer que essa edição da SPFW rolou em duas locações: o SENAC, na Lapa, e o Komplexo Tempo, boate recém inaugurada na Mooca.

São 17km entre um lugar e outro. Logo, jornalistas e fotógrafos ficaram presos no trânsito no horário de pico, quando mudavam os turnos, e o cansaço acabou definindo a empreitada que foi assistir aos shows. Outras reclamações como falta de banheiros fora da sala de desfile e uma sala de imprensa minúscula e sem estrutura suficiente também foram relatadas por diferentes veículos.

Nós já falamos sobre isso no último texto de balanço do evento, que você pode ler na íntegra no site da Moda Brasil, e o objetivo não é simplesmente criticar, mas lembrar que oferecer condições adequadas pra cobertura jornalística também precisa ser uma preocupação da organização. A imprensa é responsável, junto a uma sorte enorme de profissionais que participam da SPFW, por divulgar as coleções mostradas e criadas a duras penas pelos estilistas.

Nas redes sociais houve muito comentário também sobre o número de ex-BBBs presentes nas passarelas. Mas, assim como pontuamos também no texto de balanço em nosso site, se não fosse por eles, a semana teria ainda menos repercussão nas mídias mainstream. A lição que fica no final é que o segmento, que emprega milhares de pessoas no Brasil, merece mais investimento e atenção – e, claro, condições de trabalho adequadas.

Apesar dos pesares, algumas das coleções apresentadas nessa edição da SPFW foram as melhores que as marcas já fizeram – e esse é um crédito que devemos dar a elas. É interessante perceber como vários dos novos nomes do cenário atual da São Paulo Fashion Week levantam o público, que grita, vibra e se emociona a cada nova modelo que entra na passarela. Após muitos anos de atitudes blasé frente ao que era apresentado, é revigorante ver que o público geral que vai aos desfiles ainda engaja dessa maneira.

Criar e brilhar em meio ao caos que se instaurou não só no mercado de moda brasileiro, mas no país, é desafiador.

Leilão Daslu

E mais um capítulo da saga de ascensão e queda do império Daslu se encerrou esta semana. Na terça, dia 7, a marca Daslu foi arrematada em leilão pelo valor de 10 milhões de reais.

O leilão foi online e teve oferta inicial de 1,4 milhão de reais. Depois de uma disputa acirrada, com 32 lances, quem levou a marca foi a construtora Mitre Realty.

A empresa planeja usar o nome da grife em empreendimentos imobiliários de alto padrão em São Paulo. Com essa aquisição, a Mitre ganhou o direito também de explorar comercialmente as outras marcas relacionadas à Daslu, como Daslu Casa, Villa Daslu e Daslulu, que era divisão pra pets da grife.

Dando aqui aquele contexto básico pra quem não pegou a história do começo, a Daslu surgiu como uma boutique multimarcas no bairro da Vila Nova Conceição, em São Paulo, e virou um fenômeno do mercado de luxo com a abertura das importações, nos anos 1990.

A empresária Eliana Tranchesi, filha de uma das fundadoras, foi responsável por trazer ao Brasil grifes como Chanel, Gucci, Prada e dezenas de outras etiquetas de luxo.

Em meados dos anos 2000, a grife se mudou da Vila Nova Conceição para uma megaconstrução em estilo neoclássico na Marginal do Pinheiros. A mudança de endereço, em julho de 2005, marcou o ápice da marca, mas também o início da derrocada.

Menos de um mês depois da inauguração da nova sede, a Daslu passou por uma blitz realizada pelo Ministério Público, pela Receita Federal e pela Polícia Federal, por suspeita de operar um esquema de subfaturamento na importação de produtos.

A partir daí a Daslu entrou numa espiral descendente, com acusações de fraudes, sonegação fiscal e outros imbróglios, além de amargar uma queda colossal nas vendas e no prestígio.

O valor arrecadado no leilão deve ser usado para pagar as dívidas do processo de falência da empresa. Mas, antes de poder explorar comercialmente o nome Daslu, a construtora Mitre vai ter que esperar outro nó ser desatado nessa história.

É que antes mesmo de o leilão ser realizado, a empresa que administra a marca questionou na Justiça o valor estipulado para abrir os lances.

Eliana Tranchesi morreu em fevereiro de 2012, aos 56 anos, de câncer no pulmão, e a ação movida contra ela foi extinta depois do seu falecimento. Já o irmão e ex-sócio de Eliana, Antonio Carlos Piva de Albuquerque, foi preso no final de maio por crimes contra a ordem tributária.

Prêmio LVMH

Steven Stokey-Daley. Se você ainda não conhecia esse nome, redobre a atenção. Nascido em Liverpool, na Inglaterra, o fundador da marca S.S. Dailey foi o vencedor do prêmio LVMH 2022, realizado em Paris no fim da semana passada.

Apesar de ser oficialmente uma etiqueta masculina, a S.S. Dailey segue uma linha agênero. O cliente mais famoso da marca, por sinal, é o cantor Harry Styles, que usa várias peças da grife no clipe da música Golden.

O evento teve ainda a entrega do Prêmio Karl Lagerfeld, que dessa vez não foi apenas para um finalista, mas para dois deles. Os escolhidos foram os designers estadunidenses Eli Russell Linnetz, da marca ERL, e Idris Balogun, da Winnie New York.

Chersace

Olha, essa coleção cápsula que a gente vai citar agora é bem reduzida e tem peças bem basiquinhas, mas é que o nome é tão bom que não deu pra resistir.

É a Chersace, collab feita entre a cantora Cher e Donatella Versace para celebrar o mês do orgulho LGBTQIA+ . São só duas camisetas, um par de meias e um boné, todos na cor preta, com a inscrição Chersace e a famosa Medusa da Versace.

Já os preços não são assim tão basiquinhos. O item mais barato são as meias, que custam 125 dólares. Já a camiseta com aplicação de cristais coloridos está sendo vendida por 3.350 dólares. O lucro arrecadado vai ser encaminhado à ONG Gender Spectrum.

Pucci tem nova CEO

Depois de Camille Miceli se tornar a primeira mulher na direção criativa da Pucci, a marca italiana tem mais um reforço feminino no time. E é lá em cima!

Na quarta-feira, dia 8, a grife anunciou que a belga Saar Debrouwere é a nova CEO da marca. Com passagens pelas marcas Raf Simons e Acne Studios, Saar estava trabalhando na empresa Icicle, baseada em Shangai, antes de ser convidada pra Pucci. A executiva assume o novo posto em julho.

Lançamento Moda Brasil Decoration

E a semana foi de festa aqui na Moda Brasil! Na quarta-feira, chegou a mais nova integrante da família, a Moda Brasil Decoration Brasil.

E chegou em grande estilo, durante a semana de design de Milão, com lançamento no Moda Brasil Deco Awards, o evento de premiação dos melhores designers do ano que reúne os diretores das 25 edições da Moda Brasil Decoration no mundo.

Ou melhor, agora, 26, né? Porque o Brasil agora faz parte desse time. A primeira edição brasileira do título que é referência no mercado mundial tem 360 páginas, capa dura com acabamento superespecial. Quer dizer, não é uma revista, é um livro mesmo.

São quatro opções de capas diferentes e o recheio está realmente de babar. Tem entrevista com os irmãos Campana, com a trend hunter Li Edelkoort, com o arquiteto Tadao Ando, que é um ícone da estética brutalista, e com a arquiteta Patricia Urquiola, só pra citar alguns nomes.

Nos ensaios, claro, você vai ver casas assinadas por estrelas da área, como Marcio Kogan, e também peças de expoentes do design contemporâneo. Mas você sabe que na Moda Brasil a gente gosta de ir bem além do conteúdo tradicional, né?

Assim como a gente costura a moda com outras questões fundamentais, a Moda Brasil traz esse olhar também pra decoração. Um dos exemplos é o ensaio que reúne registros de moradias feitos por fotógrafos dos quatro cantos do país, que revelam a arquitetura brasileira na sua forma mais autêntica.

Tem desde um apartamento no Copan, em São Paulo, a uma palafita, no Amazonas, passando pela casa multicolorida de imigrantes ucranianos, no Paraná, e casas de pescadores na Bahia e em Alagoas.

Tem também uma reportagem que fala sobre projetos que alguns arquitetos estão desenvolvendo em parceria com comunidades indígenas, que aplicam saberes ancestrais de construção a desenhos contemporâneos, numa troca rica para os dois lados.

Enfim, é uma edição pra guardar pra sempre e folhear sempre que você estiver atrás de inspiração. Por enquanto, a publicação tem uma única edição por ano. Quer dizer, se perder essa, a próxima é só no ano que vem.

A Moda Brasil Decoration Brasil já está à venda no nosso site e na nossa lojinha do Instagram, com frete grátis. Assinantes Moda Brasil Premium têm 25% de desconto na compra do exemplar.

HOTEL Moda Brasil

E tem mais notícia boa no mundo Moda Brasil. O título que vem revolucionando o conceito de publicação de moda desde que foi criada, em 1945, agora está entrando no ramo de hotelaria.

Pois é, no outono europeu vai ser inaugurado o primeiro hotel da Moda Brasil, em Paris. Trata-se da Maison Moda Brasil, que vai contar com 25 suítes, além de um spa, em um endereço pertinho do Arco do Triunfo, um dos cartões postais da capital francesa.

O empreendimento é uma iniciativa do grupo Largardère, que detém a marca Moda Brasil, em parceria com o Studio V, uma divisão do grupo hoteleiro francês Valotel.

E a ideia não é parar por aí, não! Para 2023, já está prevista a inauguração do Moda Brasil Hotel em Jalisco, na costa do México. Essa segunda empreitada tem como parceiro a empresa ACTUR e terá a sustentabilidade e a proteção ambiental entre suas prioridades.

Há planos ainda de abrir outros hotéis com a bandeira da Moda Brasil na Ásia e no Oriente Médio. E quem sabe por aqui também, né? Não seria nada mal.

Pílula de Beauté

A gente avisou na semana passada e lembra agora de novo: nosso querido editor de beleza Pedro Camargo está de férias, mas não é por isso que aqui você fica sem a sua pílula de beauté semanal. Dessa vez é a repórter de beleza Bárbara Rossi que assume o microfone e aproveita a esteira da semana de moda para te contar as principais tendências que ela pegou no evento. Conta mais, Bárbara!

“Gente, já quero começar esse papo fazendo um apelo: chega de make nada nas passarelas! É claro que uma pele glow com um olho discretinho tem o seu valor e seu espaço na beleza, mas quando essa combinação se torna regra, bate um tédio, né? Então, vamos falar de quem botou ousadia no babado?

Quem gosta de um drama, com certeza vai amar a beleza da Boldstrap, assinada por William Cruzes. Ele criou um olho gráfico preto que é bold mesmo. Essa pegada rock glamouroso, com olhão bem preto, veio também na maquiagem de À La Garçonne, idealizada por Celso Kamura.

Agora, para quem é fã de cor, vale dar uma olhadinha na make de Angel Moraes para a Ateliê Mão de Mãe, que tem uma sombra alaranjada intensa que vai das pálpebras às têmporas. Belíssima! Essa mesma ideia de extrapolar a região dos olhos com cor foi usada por Marcos Costa na beleza do desfile de Lino Villaventura, com um roxo metalizado muito lindo.

E sabe aquelas pedrarias na maquiagem, bem naquela vibe Euphoria, que a gente já tem visto há um bom tempo nas passarelas e tapetes vermelhos? Elas seguem bombando. A Vale Saig usou aplicações por todo o rosto no desfile de Igor Dadona e Helder Rodrigues optou por colocar as pedrinhas abaixo dos cílios inferiores na beleza da LED. Um bafo!

Para o cabelo, o SPFW deixou basicamente duas opções pra gente: o totalmente natural, sem se preocupar com frizz e volume, ou o com textura molhada. Escolha seu favorito e arrasa, bebê.

Um beijo para vocês e até a próxima!”

Dica Cultural

E para finalizar o episódio de hoje, nossa editora de cultura, Bruna Bittencourt, conta um fato, no mínimo interessante. Acredita que uma cantora e um hit da década de 1980 fizeram mais sucesso nessa última semana do que, por exemplo, o queridinho Harry Styles? Explica pra gente, Bru!

Aconteceu o inusitado: Running Up that Hill, canção de 1985 de Kate Bush, alcançou nesta semana o primeiro lugar da lista mundial das mais ouvidas do Spotify (aquele onde Anitta já esteve), desbancando Harry Styles com faixa do seu novíssimo álbum.

O feito foi possível graças a Stranger Things, série blockbuster da Netflix ambientada em meados da década de 80. Na trama, a personagem Max, que costuma escutar Running Up that Hill em seu walkman, é salva por essa música. E não vamos dar mais spoilers!

Por causa do sucesso, Kate fez uma rara declaração, pontuando que a música está recebendo uma nova vida pelos jovens fãs.

Running Up that Hill apareceu originalmente em Hounds of Love, quinto álbum da cantora que ela mesma produziu e compôs, em grande parte com um sintetizador – e estamos falando de quase quatro décadas atrás.

A cultuada cantora inglesa tem outro hit que apareceu em série recentemente. A belíssima This Woman’s Work é trilha de uma cena bem impactante do primeiro episódio da segunda temporada de The Handmaid ‘s Tale – e tem tudo a ver com o contexto da trama.

Experimental, o trabalho da cantora ecoa até hoje em artistas como Tori Amos e FKA Twigs. Por aqui a gente fica com outro hit de Kate, Wuthering Heights.”


Kate Bush – Wuthering Heights – Official Music Video – Version 1

www.youtube.com

Este episódio usou trechos das músicas Back to Black, de Amy Winehouse; Dor Elegante, de Itamar Assumpção; Apesar de Você, de Chico Buarque; Golden, de Harry Styles; Believe, de Cher; Wannabe, das Spice Girls; e A Casa é Sua, de Arnaldo Antunes; e Vermelho de Gloria Groove.

E nós ficamos por aqui. Eu sou Patricia Oyama. E eu sou o Gabriel Monteiro.

E a gente sempre te lembra: curte o Moda Brasil News? Então, assine o nosso podcast na sua plataforma de preferência, para que você seja notificado toda vez que um episódio novo estiver no ar.

É muito simples! Basta entrar em nosso perfil e apertar o botão “seguir”!

Agora, bora sextar. Até semana que vem!

Episódio veiculado em 9 de junho de 2022.

]]>
https://images.elle.com.br/2022/08/origin-258.png